Com a pandemia da Covid-19, a ansiedade pela descoberta da vacina tomou conta de todas as pessoas. Mas assim que a vacina da Covid-19 for aprovada poderemos voltar a viver como antes? A vacina será 100% segura? Todas as pessoas poderão tomar a vacina? Essas e outras perguntas foram respondidas pela infectologista do Hospital 9 de Julho, Dra. Sumire Sakabe.
1- Qual a probabilidade de termos uma vacina este ano?
Se fizermos um pequeno arranjo na frase “ter uma vacina este ano” para termos vacina segura, eficaz e fabricada em escala para atender a um número de pessoas no Brasil e no mundo suficiente para conter a pandemia, dá para imaginar o tamanho do desafio. Desde sair do laboratório e ser testada em alguns humanos (fase 1), se mostrar inicialmente segura (fase 2) e eficaz (fase 3), capacitar as fábricas para produção em larga escala e escolher os grupos a serem vacinados até estabelecer estratégias para vacinação em massa sem aglomerar as pessoas, há um longo caminho onde muitos tropeços podem acontecer.
A epidemia de ebola em 2014-2016 reforçou a necessidade de uma vacina contra aquela doença. Em agosto de 2015, um ano após o ebola ter sido declarada questão de saúde pública internacional pela OMS, foi publicado estudo em mais de 7 mil pessoas mostrando a eficácia da vacina rVSV-ZEBOV, mas aprovada pela agência norte americana FDA somente em dezembro 2019. A vacina Ad26.ZEBOV/MVA-BN-Filo foi autorizada pela regulação europeia em julho 2020. Assim, dispor da vacina para uso ainda este ano demanda sorte, além de todos os esforços.
2- A vacina da Covid-19 será 100% eficaz?
Nenhuma vacina é 100% eficaz. A eficácia das vacinas é mensurada através da produção de anticorpos neutralizantes e após o seguimento dos voluntários vacinados com vacina e placebo, ao longo do tempo, para saber se quem foi vacinado ficou mesmo protegido. Enquanto a primeira pergunta é respondida com testes laboratoriais, a segunda demanda tempo e sorte.
3- Ao tomarmos a vacina poderemos abandonar o uso da máscara e outras medidas de higiene?
A cobertura vacinal no Brasil está entre uma das melhores do mundo e a vacina contra sarampo é altamente imunogênica, conferindo proteção ao redor de 97%. Ainda assim, em 2019, vivemos um surto de sarampo. Portanto, medidas de proteção combinadas é sempre a estratégia mais eficaz. A higiene das mãos veio para ficar, até porque nos protege de muitas outras doenças. Quanto à máscara, provavelmente será incorporada ao nosso dia a dia por um tempo ainda prolongado.
4- Qual a chance do Brasil receber rapidamente a vacina?
O Brasil participa, através de parcerias com os desenvolvedores e diversos grupos da academia e pesquisa brasileiros, nos ensaios clínicos de pelo menos duas vacinas contra Covid-19. Permeiam estas parcerias a transferência de tecnologia para produção local da vacina. Mas de novo, nada disso acontece da noite para o dia.
5- A vacina da Covid-19 foi desenvolvida em um ano, ao contrário da maioria das vacinas que demoram cerca de 10 anos para chegar ao mercado. Isso pode gerar mais efeitos colaterais? Quais efeitos colaterais podem acontecer?
Durante os ensaios clínicos da vacina contra vírus sincicial respiratório (VSR), causador de infecção respiratória grave em crianças pequenas, não apenas a vacina não se mostrou protetora como também bebês vacinados apresentaram doença mais grave e duas crianças morreram. Até hoje não é disponível uma vacina contra VSR. Isto mostra que nem todas as vacinas que parecem promissoras dão certo. Em 1998, foi licenciada nos Estados Unidos uma vacina contra o rotavírus, que causa diarreia especialmente em crianças pequenas. Em algum tempo se observou que a vacina aumentava o risco de intussuscepção (obstrução intestinal potencialmente grave ou fatal) e a vacina foi retirada do mercado.
Durante os ensaios clínicos, foram observados poucos casos de intussuscepção, sem diferença estatisticamente significante entre os grupos que haviam recebido a vacina ou placebo. Somente quanto um número maior de crianças foi vacinada, já na vida real, fora dos estudos, foi possível observar a correlação entre a vacina e a complicação intestinal. Isto mostra que na vigilância pós uso/comercialização outros efeitos adversos podem ser identificados. Assim, estamos ainda no período da incerteza.
6- A vacina da Covid-19 será segura para todas as pessoas?
Precisamos aguardar os resultados dos estudos em andamento e também a farmacovigilância quando as vacinas forem aplicadas, para identificação de outros potenciais efeitos adversos não observados nas fases dos ensaios clínicos.
Cenário da vacinação no Brasil
Fonte: Guia da Farmácia
Foto: Shutterstock