Os medicamentos agonistas do receptor de GLP-1, conhecidos popularmente como “canetas emagrecedoras”, consolidaram-se como uma das principais tendências terapêuticas no tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2 no Brasil. No entanto, apesar dos benefícios clínicos reconhecidos pelos médicos, desafios relacionados ao acesso, à adesão ao tratamento e ao uso sem acompanhamento profissional ainda preocupam especialistas.
É o que mostra uma pesquisa nacional realizada pelo Instituto de Formação, Ensino e Pesquisa em Ciências da Saúde (IFEPEC), braço da Federação Brasileira das Redes Associativistas e Independentes de Farmácias (Febrafar) dedicado a promover o conhecimento e a capacitação das redes e farmácias.
O levantamento ouviu 1.067 médicos de diferentes regiões do País e especialidades prescritoras e aponta que 77% das prescrições de GLP-1 estão relacionadas ao tratamento da obesidade e fins estéticos, enquanto 23% são destinadas ao diabetes tipo 2.
Outro dado que chama atenção é o comportamento dos pacientes durante as consultas. Segundo a pesquisa, 59% dos médicos afirmam que os pacientes manifestam interesse pelo uso de GLP-1, seja solicitando diretamente a prescrição ou questionando a possibilidade de utilização. Além disso, em média, 7% dos pacientes já chegam ao consultório relatando uso atual ou anterior da medicação sem indicação médica.
Suporte na farmácia
Diante desse cenário, o farmacêutico assume um papel cada vez mais relevante na promoção do uso racional desses medicamentos.
Em entrevista ao Guia da Farmácia, o presidente da Febrafar e da Farmarcas, Edison Tamascia, avaliou que a orientação profissional é indispensável para garantir a segurança dos pacientes.
“O papel do farmacêutico é fundamental para garantir o uso racional dos medicamentos da classe GLP-1. Esses produtos exigem prescrição médica e, quando um paciente procura o medicamento sem receita, a orientação correta é encaminhá-lo para avaliação médica. As farmácias seguem rigorosamente a legislação sanitária e não devem realizar a dispensação sem a devida prescrição”, afirma.
Segundo ele, além de assegurar o cumprimento das exigências regulatórias, o farmacêutico contribui para o sucesso terapêutico ao esclarecer dúvidas sobre armazenamento, aplicação e utilização adequada dos medicamentos.
“O farmacêutico atua esclarecendo dúvidas sobre o tratamento, a forma correta de utilização, armazenamento e aplicação do medicamento, sempre reforçando a importância do acompanhamento médico para garantir segurança e efetividade terapêutica”, acrescenta.
Capacitação das equipes
Com a crescente procura pelos medicamentos da classe GLP-1, as redes de farmácias vêm investindo na qualificação de suas equipes para oferecer atendimento mais seguro aos pacientes.
De acordo com Tamascia, embora os efeitos adversos sejam conhecidos e monitorados durante o tratamento, a orientação farmacêutica continua sendo essencial para identificar possíveis intercorrências e encaminhar o paciente ao médico quando necessário.
“As farmácias vêm acompanhando o crescimento da demanda por medicamentos da classe GLP-1 por meio da capacitação de suas equipes para orientar adequadamente os pacientes durante a dispensação. Na prática, os relatos de reações adversas observados no ambiente farmacêutico são relativamente baixos e, quando ocorrem, costumam estar relacionados a efeitos já conhecidos e monitorados durante o tratamento”, explica.
Entre os efeitos adversos mais frequentemente relatados pelos médicos entrevistados estão náuseas, constipação intestinal, vômitos, diarreia, refluxo, cefaleia, fadiga e tontura. Também foram mencionadas alterações comportamentais, perda de massa magra e envelhecimento facial.
“O farmacêutico exerce um papel importante na identificação de possíveis dúvidas e no direcionamento adequado do paciente, funcionando como um elo entre o tratamento prescrito e o acompanhamento médico”, destaca Tamascia.
GLP-1: preço ainda é a principal barreira
Se por um lado a demanda cresce, por outro o custo dos medicamentos continua sendo um dos principais obstáculos para a ampliação do acesso.
Segundo os médicos entrevistados, os preços atuais tornam o tratamento viável para apenas 28% dos pacientes elegíveis. O estudo também revelou que 65% dos pacientes interrompem o tratamento por motivos financeiros.
Quando questionados sobre um cenário hipotético de redução de 35% nos preços, os profissionais estimaram que a viabilidade do tratamento poderia alcançar 45% dos pacientes aptos a utilizá-lo.
Nesse contexto, a chegada de biossimilares e de novos concorrentes ao mercado é vista com expectativa positiva. A pesquisa mostra que 68% dos médicos se declaram otimistas ou muito otimistas em relação a essas alternativas terapêuticas.
Para Tamascia, o aumento da concorrência poderá contribuir para a democratização do acesso.
“O custo ainda é um dos principais desafios para a continuidade do tratamento com medicamentos da classe GLP-1 no Brasil. A expectativa é que a entrada de novos concorrentes no mercado, incluindo biossimilares e outros produtos equivalentes, contribua para ampliar a concorrência e reduzir gradualmente os preços praticados atualmente”, afirma.
Embora a chegada de medicamentos genéricos ainda não seja esperada para o curto prazo, o executivo acredita que o movimento de ampliação da oferta deverá refletir positivamente nos índices de adesão.
“Quanto maior a concorrência, maior a possibilidade de tornar essa terapia acessível para uma parcela mais ampla da população, reduzindo um dos principais fatores que hoje levam à interrupção do tratamento”, conclui.
Foto: Shutterstock