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A corrida bilionária pela vacina da Covid-19 (e o que falta para ela se tornar realidade)

Há cerca de uma centena de vacinas em desenvolvimento, e notícias sobre o assunto têm mexido com as bolsas; entenda o que é espuma e o que é fato

A semana mal havia começado e um comunicado enviado ao mercado americano às 7h30 (horário de Nova York) da segunda-feira (18), ganhou as manchetes globais: a Moderna Therapeutics, uma empresa americana de biotecnologia com dez anos de vida, anunciava resultados positivos em seus primeiros testes em pessoas de sua vacina para a cura da doença causada pelo novo coronavírus.

As boas notícias estimularam altas nas bolsas em todo o mundo, com base na esperança de fim da pandemia e retomada da economia.

Foi um dia próspero para a empresa com sede em Cambridge, cidade vizinha a Boston: as ações da Moderna dispararam 20% na Nasdaq e encerraram o pregão a US$ 80.

Reação do mercado global

A forte reação nos mercados globais na abertura da semana colocou sob holofote a corrida envolvendo alguns dos maiores laboratórios farmacêuticos e de biotecnologia do mundo, institutos de pesquisa e ensino e governos.

Há cerca de uma centena de vacinas em desenvolvimento pelo planeta atualmente, sem contar tratamentos que podem amenizar os efeitos do vírus no organismo, acelerar o tempo de recuperação e, assim, também salvar milhões de vidas.

Mas o caminho até a produção de uma vacina é complexo. E muito longo.

Em geral, o processo leva mais de uma década, desde o início das pesquisas até sua aprovação pela agência de saúde responsável em cada país.

A grande referência global para o processo de análise é o FDA (Food and Drug Administration), a agência reguladora dos medicamentos nos Estados Unidos.

Na fase de pesquisas, o objetivo é encontrar formas de estimular o sistema imunológico do paciente, de modo que ele saiba identificar rapidamente o invasor (o vírus) e produzir anticorpos para se defender. Não há uma única fórmula para fazer isso acontecer.

Porém, o grande desafio de qualquer vacina ou medicamento é passar pela fase de testes.

Em situações normais, eles podem levar mais de cinco anos. No caso da vacina para o novo coronavírus, a expectativa é que o processo possa ser concluído em menos de um ano em caráter excepcional, dada a gravidade da situação.

A parte mais complexa é a dos experimentos clínicos em pacientes. Menos de 10% dos medicamentos submetidos são aprovados pelo FDA, segundo dados da Organização de Inovação em Biotecnologia.

Os testes são divididos em três fases, conforme os objetivos (eficácia, dosagem, efeitos colaterais etc.) e o número de participantes.

Vacina contra a Covid-19

Os resultados divulgados pela Moderna se referiam à primeira fase com dados de oito pacientes de um total de 45 submetidos ao experimento.

Apesar da euforia inicial, as ações da companhia caíram mais de 10% no dia seguinte à divulgação dos testes; devido a publicação de uma reportagem com especialistas que lançavam dúvidas sobre a confiabilidade dos resultados. Uma das críticas era sobre a ausência de informações sobre os demais 37 participantes da testagem.

Antes mesmo da publicação dos resultados da fase 1 e dos questionamentos que se seguiram, a Moderna já havia recebido sinal verde do FDA no início do mês para dar início à fase 2 dos testes clínicos, que são realizados em centenas de pessoas.

O tempo reduzido para os testes é visto com ceticismo por parte da comunidade científica. “Não tem como a vacina ficar pronta antes da segunda metade do ano que vem”, diz Jorge Kalil, diretor do Laboratório de Imunologia do Incor.

Kalil, que lidera uma equipe de pesquisadores brasileiros que também desenvolve uma vacina, diz que a complexidade do desenvolvimento e a necessidade de avaliação da eficácia e da segurança demandam um tempo que não pode ser tão encurtado.

“Muitas informações sobre a eficácia da vacina só serão conhecidas com o tempo, mesmo depois que fique pronta. Por exemplo, sua memória imunológica”, diz Kalil. A memória imunológica é a capacidade de o sistema imunológico reconhecer o vírus mesmo depois de um tempo.

É um ceticismo compartilhado pelo infectologista e professor da USP Marcos Boulos, que ressalva que a maioria das vacinas não consegue comprovar eficácia quando é submetida a pacientes.

“A produção de anticorpos não é suficiente para demonstrar que uma vacina vai efetivamente proteger o paciente. É preciso constatar que os anticorpos estão de fato neutralizando a ação do vírus”, afirma Boulos.

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Fonte: Leandro Faustino/InfoMoney

Custo de até US$ 10 por dose

Partindo da premissa de que a corrida pela vacina para a Covid-19 será bem-sucedida, analistas do Morgan Stanley calcularam que cada dose pode custar entre US$ 5 e US$ 10 assim que chegar ao mercado, independentemente da fabricante.

São valores que, colocados sob a perspectiva da demanda global por milhões ou até bilhões de doses, sugerem receitas bilionárias. Desse modo, o mercado de vacinas para a pandemia poderá movimentar até US$ 30 bilhões ao ano, segundo o banco.

Mesmo com a queda nos últimos dias, as ações da Moderna acumulam uma alta próxima a 240% neste ano. Assim, levando o valor de mercado da companhia para US$ 26 bilhões.

É pouco menos da metade do valor da japonesa Takeda, uma das dez maiores biofarmacêuticas do mundo, com mais de US$ 30 bilhões de receita ao ano com a venda de medicamentos em áreas como oncologia e doenças raras.

A Moderna, por sua vez, ainda não dispõe de nenhum remédio aprovado. No ano passado, as receitas somaram apenas US$ 60 milhões.

Vacina contra a Covid-19: investimentos e ações

O apetite de investidores por ações de empresas de biotecnologia ou farmacêuticas aumentou com a explosão do número de casos do novo coronavírus fora da China a partir do fim de fevereiro.

Cada anuncio de dados aparentemente promissores na corrida para lançar uma vacina ou um tratamento gera uma onda de valorização.

Mas notícias não tão auspiciosas, como questionamentos de pesquisadores, analistas ou publicações especializadas, fazem as ações devolverem parte dos ganhos.

Foi o que aconteceu também com a Gilead Sciences, a biofarmacêutica americana que produz o antiviral Remdesivir, originalmente lançado para outras doenças.

As ações da Gilead subiram 5,7% no fim de abril com a publicação de um estudo que apontou que o uso do remédio reduziu em cerca de 30% o tempo de recuperação de pacientes hospitalizados com o coronavírus em comparação ao grupo que tomou placebo.

Mas caíram quase 5% dias depois quando alguns analistas avaliaram que o impacto das vendas do medicamento nos resultados financeiros da companhia seria limitado. No ano, a alta é de 12%, o dobro da valorização da Nasdaq.

São picos e quedas que devem se tornar mais frequentes nos próximos meses, na medida em que mais companhias ingressam na fase de testes. Serão notícias aguardadas por quem está no mercado e para quem espera a cura para o coronavírus.

Foto: Shutterstock / InfoMoney

Fonte: InfoMoney

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