
A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) revogou medidas que proibiam a comercialização, distribuição e publicidade de medicamentos por meio de plataformas e aplicativos digitais. A decisão afeta diretamente players como iFood, Rappi, Americanas e Mercado Livre.
Essa movimentação regulatória segue a Lei 15.357, sancionada em março de 2026, que explicitamente permite que farmácias e drogarias devidamente licenciadas contratem canais digitais e plataformas de e-commerce para logística e entrega aos consumidores, sujeitas às regras sanitárias aplicáveis.
Segundo o relatório do BTG Pactual – Brazil Retail & Pharma, divulgado nesta manhã (10), a medida não concede autorização irrestrita para que as plataformas vendam medicamentos diretamente. A lei mantém a farmácia ou drogaria licenciada no centro da transação, e a Anvisa ainda precisa emitir regulamentação específica para a implementação dessas novas diretrizes.
Para o mercado, o anúncio é visto principalmente como a remoção de uma incerteza regulatória sobre o modelo de intermediação por plataformas, e não como uma mudança fundamental em quem está autorizado a dispensar medicamentos. Contudo, espera-se que essa liberação acelere o desenvolvimento de ofertas farmacêuticas por parte dos players digitais e aumente a pressão competitiva sobre as redes de drogarias já estabelecidas.
iFood se posiciona como ameaça competitiva imediata
Segundo a análise do BTG, entre os potenciais beneficiários dessa mudança, o iFood se destaca por sua posição favorável, dada a grande quantidade de tráfego de consumidores, o uso frequente do aplicativo e a infraestrutura de logística de quick-commerce já consolidada.
A empresa já está em processo ativo de recrutamento de farmácias, oferecendo integração de estoque, acesso à sua rede de entregas e ferramentas promocionais e de marketing. Atualmente, a proposta do iFood para farmácias anuncia entregas por meio de mais de 400 mil parceiros, com termos comerciais padrão que indicam uma comissão de 6% quando a entrega é feita pelo comerciante e 12% quando utiliza o serviço de entrega do iFood.
A plataforma também está desenvolvendo capacidades específicas para o setor farmacêutico, incluindo descontos PBM (Pharmacy Benefit Management) e integração com programas de fidelidade como o Dermaclub.
Para o BTG, a principal vantagem competitiva do iFood não reside no sortimento ou na expertise farmacêutica, mas sim no tráfego de usuários e na conveniência da “última milha”: ele pode colocar uma vitrine de farmácia na frente de consumidores já habituados a pedir produtos para entrega rápida. Isso torna o iFood potencialmente mais disruptivo para compras urgentes, de missão específica e para categorias selecionadas de OTC (medicamentos isentos de prescrição) e HPC (produtos de higiene pessoal e cosméticos), do que para o total da carteira de gastos do cliente com farmácia.
Vantagens estruturais das grandes redes persistem
Apesar do avanço das plataformas, as grandes redes de drogarias mantêm vantagens competitivas significativas que vão além da proximidade física.
Para o BTG, o e-commerce farmacêutico bem-sucedido depende da combinação de tráfego qualificado, profundidade de sortimento, disponibilidade de estoque e níveis de serviço. Nesses quesitos, as drogarias omnichannel de grande escala possuem vantagens estruturais importantes.
Uma densa rede de lojas físicas funciona simultaneamente como infraestrutura de aquisição de clientes, pool de estoque e rede de fulfillment distribuída, permitindo que uma rede combine um amplo sortimento com entrega rápida e a opção de click-and-collect.
Em contrapartida, o modelo do iFood permanece dependente das farmácias parceiras para sortimento, precisão do estoque e qualidade do cumprimento dos pedidos. A própria plataforma declara explicitamente que produtos, preços e as licenças farmacêuticas relevantes são de responsabilidade das farmácias parceiras.
Essa distinção é crucial, pois a compra de medicamentos frequentemente exige uma molécula, dosagem, marca ou apresentação específica, tornando a disponibilidade em nível de SKU (unidade de manutenção de estoque) e o sortimento qualificado consideravelmente mais importantes. Cadeias independentes menores podem oferecer ao iFood capilaridade geográfica, mas não replicam necessariamente a amplitude, a profundidade de estoque, a escala de compra, os dados de clientes e o serviço padronizado das maiores redes.
Competição e novos canais de aquisição
A mudança regulatória, embora aumente a pressão competitiva sobre os players estabelecidos, não é vista como uma alteração fundamental no panorama, segundo análise do BTG Pactual.
Ela reduz as barreiras para iFood, Rappi e outros marketplaces de e-commerce, como o Mercado Livre, participarem do setor farmacêutico. Isso pode aumentar a transparência de preços, os custos de aquisição de clientes e a intensidade competitiva, especialmente nas categorias de OTC, HPC e compras urgentes.
No entanto, há uma distinção estratégica importante entre as plataformas: o iFood oferece quick-commerce, mas não possui sortimento farmacêutico próprio; marketplaces mais amplos trazem tráfego massivo e capacidades de descoberta de sortimento, mas estão menos naturalmente posicionados para entregas imediatas; já as grandes redes de drogarias podem combinar tráfego farmacêutico qualificado, sortimento profundo, cumprimento de pedidos confiável e quick-commerce dentro do mesmo ecossistema.
Além disso, plataformas de terceiros podem, em última instância, tornar-se canais incrementais de geração de demanda para as próprias redes estabelecidas, desde que a economia seja atrativa e a propriedade do cliente possa ser gerenciada. O modelo vencedor, portanto, não será uma batalha entre plataformas digitais versus farmácias físicas, mas sim uma disputa entre diferentes ecossistemas omnichannel.
Na visão do BTG, a decisão da Anvisa expande as alternativas de distribuição, mas não elimina as vantagens das densas redes de lojas; pelo contrário, reforça a visão de que as lojas precisam ser cada vez mais compreendidas como infraestrutura local de fulfillment e serviço, e não apenas como pontos de varejo tradicionais.
Posicionamento do ifood
Em nota enviada ao Guia da Farmácia, o iFood informa:
“O iFood acompanha a revogação da medida restritiva da Anvisa e reforça seu compromisso com a legislação sanitária. O modelo do iFood não busca substituir as farmácias: a empresa conecta estabelecimentos licenciados, consumidores e entregadores por meio de tecnologia especializada.
A empresa não compra, não estoca nem revende medicamentos. A venda e a dispensação permanecem responsabilidade integral das farmácias parceiras, e o farmacêutico mantém seu papel insubstituível.
A entrega de medicamentos é rastreada e dedicada: vai direto ao consumidor, sem compartilhar transporte com outras categorias, assegurando conformidade com os protocolos de saúde.
O iFood está à disposição para contribuir, com sua experiência em tecnologia e intermediação de logística segmentada e rastreável, no processo de regulamentação complementar.”
Fonte: BTG
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