
O Brasil pode estar diante de uma reversão dramática em sua política de jogos. Segundo relatório setorial do BTG Pactual, divulgado em 17 de setembro de 2026, o governo federal estuda a edição de uma medida provisória (MP) que proibiria jogos de cassino online e imporia restrições severas às apostas esportivas, podendo chegar a uma proibição total.
O movimento ocorre menos de dois anos após o lançamento formal do mercado regulado, em janeiro de 2025, e em meio a evidências crescentes de que as apostas online vêm pressionando as finanças das famílias brasileiras de menor renda — com implicações diretas para o consumo no varejo, incluindo o setor farmacêutico.
Um mercado que surgiu do zero
Em poucos anos, as apostas online se transformaram em um componente relevante do orçamento doméstico brasileiro. O relatório do BTG Pactual registra que, em 2025, o mercado regulado contabilizou 25,2 milhões de apostadores únicos, o equivalente a 15% da população adulta do país, com receita bruta de jogos (GGR, na sigla em inglês, que representa os valores apostados menos os prêmios pagos) de aproximadamente R$ 36,9 bilhões.
Antes mesmo da regulação, a escala já era expressiva. Estimativas do Banco Central apontavam para transferências brutas mensais às empresas de apostas da ordem de R$ 18 bilhões a R$ 21 bilhões em 2024. O banco, porém, ressalva que cerca de 85% desse montante retornava aos apostadores na forma de prêmios. Ainda assim, a análise do BTG Pactual é direta: em poucos anos, as apostas criaram um novo e bilionário concorrente pela carteira do consumidor brasileiro.
Endividamento e vulnerabilidade financeira
O boom das apostas coincidiu com um período de deterioração do balanço financeiro das famílias brasileiras. O relatório aponta que o endividamento das famílias está próximo de 50% da renda disponível, enquanto o serviço da dívida consome cerca de 30% dessa mesma renda — situação significativamente pior entre os consumidores de menor renda.
Nesse contexto, o documento do BTG Pactual cita uma pesquisa de 2024 incluída em processo no Tribunal de Contas da União (TCU), segundo a qual 45% dos apostadores entrevistados relataram perdas financeiras decorrentes das apostas e 37% afirmaram ter usado recursos destinados a outras despesas essenciais para financiar os jogos.
Os dados do Banco Central reforçam a dimensão do problema: apenas em agosto de 2024, cerca de 5 milhões de pessoas beneficiárias do Bolsa Família transferiram R$ 3,2 bilhões a empresas de apostas por meio do Pix. O relatório ressalva que esses são valores brutos, não perdas líquidas, mas destaca que os números ilustram a exposição de famílias financeiramente vulneráveis.
Em resposta, o governo já havia impedido que beneficiários de programas como Bolsa Família, Benefício de Prestação Continuada (BPC), Fundo de Investimento Estudantil (Fies) e programas de renegociação de dívidas mantivessem contas em operadoras licenciadas, com mais de 3 milhões de pessoas bloqueadas até agosto de 2026.
Menos apostas, mais consumo?
O relatório do BTG Pactual avalia que uma eventual redução nas apostas poderia liberar parte dos recursos atualmente direcionados ao setor de volta ao consumo tradicional — ou ao pagamento de dívidas. O efeito seria mais expressivo entre consumidores de menor renda, para os quais um incremento de R$ 100 a R$ 200 na renda disponível mensal tem maior propensão a ser consumido.
O banco, no entanto, pondera que o benefício não deve ser mecanicamente igualado ao valor total do mercado de apostas. Parte dos recursos deixaria de circular, parte poderia ser direcionada à poupança ou à quitação de dívidas e uma parcela relevante poderia migrar para operadores ilegais, o que representa o principal risco do cenário de proibição. O relatório lembra que o Brasil dedicou os dois últimos anos a trazer um enorme mercado offshore para um ambiente regulado, e que uma proibição total poderia reverter parcialmente esse processo.
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