
Hidratação e dermocosméticos são avaliados no controle e prevenção de crises da dermatite atópica.
Pele seca e sensível é uma das marcas da dermatite atópica. Para mantê-la protegida, a hidratação e os cuidados com a barreira cutânea exercem papel fundamental. “Na dermatite atópica, a barreira cutânea apresenta uma alteração estrutural e funcional. Isso significa que a pele perde parte da capacidade natural de reter água e de proteger o organismo contra agentes externos, como alérgenos, irritantes, poluentes e microrganismos”, explica a dermatologista e membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), Dra. Mônica Felici Nascimento Cansian.
Segundo a especialista, essa fragilidade está relacionada, entre outros fatores, à redução de proteínas como a filagrina e de lipídios essenciais, especialmente as ceramidas. “Como consequência, a pele se torna mais ressecada, sensível e suscetível à inflamação, formando um ciclo em que a barreira danificada favorece a inflamação, e a inflamação, por sua vez, compromete ainda mais a barreira.” O dermatologista e membro da SBD, Dr. Gustavo Novaes, explica que esse processo também ajuda a entender a coceira característica da doença. “Essa disfunção desencadeia e perpetua um ciclo de inflamação, prurido e lesões da pele. O paciente coça, a barreira se rompe ainda mais, aumenta a inflamação e surgem novas crises”, diz.
Durante muito tempo, o tratamento se concentrou no controle da inflamação. Hoje, porém, a reparação da barreira cutânea também é considerada essencial. Para o Dr. Novaes, a dermatite atópica envolve tanto alterações imunológicas quanto à disfunção da barreira cutânea. “Atualmente, entende-se que a dermatite atópica resulta tanto de alterações imunológicas quanto da disfunção da barreira cutânea.” A reparação reduz a perda de água, melhora a hidratação, dificulta a entrada de irritantes e alérgenos e contribui para o equilíbrio do microbioma cutâneo. Por isso, a hidratação deve ser mantida mesmo quando a pele parece saudável.
DO TRATAMENTO À MANUTENÇÃO
A evolução dos dermocosméticos trouxe formulações com ativos voltados à recuperação e à manutenção da barreira cutânea. Entre os destaques estão ceramidas, prebióticos, ectoína e niacinamida. As ceramidas ajudam a restaurar a barreira da pele, reduzindo a perda de água e o ressecamento. “São consideradas um dos principais ativos para pacientes com dermatite atópica”, destaca a Dra. Mônica. Já os prebióticos contribuem para o equilíbrio da microbiota cutânea, favorecendo bactérias benéficas e auxiliando na manutenção da homeostase da pele. “Embora a evidência ainda esteja em expansão, eles podem complementar a estratégia de reparação da barreira”, lembra o Dr. Novaes.
A ectoína, por sua vez, exerce ação hidratante, calmante e protetora, sendo especialmente indicada para peles sensíveis ou expostas a agressões ambientais. “Ela estabiliza as membranas celulares, reduz a perda de água e tem efeito anti-inflamatório”, explica a especialista. Outro ingrediente de destaque é a niacinamida, derivada da vitamina B3, que possui ação anti-inflamatória, estimula a produção de ceramidas e fortalece a barreira cutânea. “Além de reduzir a perda de água da pele, também ajuda a minimizar vermelhidão e sensibilidade”, completa a Dra. Mônica. Para o Dr. Novaes, mais importante do que escolher um único ativo é manter o uso consistente do hidratante.
Durante as exacerbações, o foco é controlar a inflamação com o tratamento prescrito pelo dermatologista, enquanto os dermocosméticos ajudam na manutenção e recuperação da barreira. “Durante as crises, a prioridade é controlar a inflamação com o tratamento prescrito pelo médico, geralmente associado ao uso frequente de hidratantes com elevada capacidade de restaurar a barreira cutânea. Nessa fase, devem ser preferidas formulações simples, com poucos ingredientes potencialmente irritantes e boa tolerabilidade”, orienta o Dr. Novaes.
Na remissão, a hidratação deve continuar mesmo sem lesões aparentes, ajudando a preservar a barreira e reduzir o risco de novas crises. Banhos muito quentes ou prolongados, sabonetes agressivos e o hábito de esfregar a pele podem comprometer ainda mais a barreira cutânea. O ideal é optar por água morna, reduzir o tempo do banho, usar produtos de limpeza suaves e evitar buchas e fricção intensa. “Tomar banhos muito quentes e prolongados, que removem os lipídios naturais da pele e aumentam o ressecamento, está entre os erros mais comuns”, destaca a Dra. Mônica. Após o banho, a pele deve ser seca delicadamente e hidratada, aproveitando a umidade residual.
Para a pele atópica, a escolha deve priorizar hidratação prolongada, reparação da barreira e alta tolerabilidade. Ceramidas, glicerina, petrolato, manteiga de karité e ácido hialurônico estão entre os componentes que podem contribuir para esses objetivos. Também é recomendável dar preferência a formulações sem fragrâncias e óleos essenciais, com baixo potencial alergênico e testadas para pele sensível. Durante períodos de maior inflamação, produtos esfoliantes ou com excesso de componentes potencialmente irritantes devem ser evitados.
POR JAQUELINE FALCÃO
IMAGENS: SHUTTERSTOCK
