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Mercado

Bets: 41% dos apostadores reduzem compras essenciais, diz estudo da Febrafar

Guia da Farmácia Por Guia da Farmácia 24 de setembro de 2026 Atualizado em: 22 de setembro de 2026 Nenhum comentário 7 Minutos de leitura
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O avanço das apostas online no Brasil já ultrapassa o ambiente do entretenimento digital e impacta o orçamento das famílias, o consumo de itens essenciais e a saúde mental.

É o que aponta a Pesquisa Nacional – Apostas Online no Brasil, realizada pelo Instituto Febrafar de Pesquisa e Educação Corporativa (IFEPEC), em parceria com o Núcleo de Economia Industrial e da Tecnologia (NEIT) da Unicamp e o Instituto Axxus.

Realizado entre junho e agosto de 2026, o estudo reúne duas pesquisas. A primeira ouviu 1.500 apostadores das classes C, D e E, entre 18 e 70 anos, nas cinco regiões do País.

A segunda entrevistou 2.020 profissionais de saúde mental, sendo 1.020 psiquiatras e neurologistas e 1.000 psicólogos.

Segundo o levantamento, entre os apostadores entrevistados, 99% tiveram prejuízo nos 30 dias anteriores à pesquisa, enquanto 81% declararam possuir dívidas. Entre os endividados, 74% estavam com pagamentos atrasados.

O estudo também mostra uma dificuldade de controle sobre o comportamento de apostar: 97% afirmaram que gostariam de apostar menos ou parar, mas somente 9% acreditam que conseguiriam.

Modalidades de apostas

De acordo com o levantamento, 56% dos apostadores entrevistados apostam predominantemente ou exclusivamente em plataformas não oficiais, ou seja, fora do marco regulatório vigente desde 2025.

Outro dado revela que 55% fazem apostas de eventos esportivos reais e 40% apostam em cassinos virtuais, crash games, caça-níqueis, roletas, blackjack e poker. A predominância de jogos de azar instantâneos aproxima o perfil do apostador brasileiro do de jogadores de cassino, modalidade associada a maior risco de dependência, segundo o estudo.

Facilidade de acesso

O comportamento de aposta também está relacionado à facilidade de acesso às plataformas digitais das bets.

O celular é usado por 88% dos entrevistados, enquanto o Pix aparece como principal meio de pagamento, utilizado por 86%.

Em relação à frequência:

  • 30% afirmam apostar diariamente;
  • 54% apostam pelo menos uma vez a cada dois dias;
  • 52% realizam mais de 20 apostas por mês.

Outro dado mostra a presença das plataformas no cotidiano digital: 43% possuem três ou mais aplicativos de jogos de azar instalados no celular.

As promoções oferecidas pelas plataformas de apostas também aparecem entre os fatores associados ao aumento do volume apostado.

Segundo a pesquisa, 95% dos entrevistados já receberam algum tipo de bônus, aposta grátis, cashback ou promoção. Entre eles, 88% afirmaram que passaram a apostar mais depois de receber o incentivo.

O levantamento identificou ainda que somente 4% estabelecem e respeitam um limite mensal de gastos. Mas 84% não estabelecem limite ou não conseguem cumpri-lo.

Motivações para apostar

A pesquisa também indica que 74% dos entrevistados apostam por razões financeiras diretas, como pagar dívidas, obter renda extra ou comprar bens.

Entre as motivações para isso estão a tentativa de conseguir dinheiro para quitar débitos e a aquisição de carro ou casa.

Impacto sobre o consumo

Um dos pontos de atenção para o varejo é a relação entre os gastos com apostas e a redução das compras.

De acordo com a pesquisa, parte dos entrevistados relatou ter reduzido compras ou comprometido recursos destinados a despesas básicas.

Entre os comportamentos identificados estão:

  • 48% reduziram compras de material escolar ou de manutenção da casa;
  • 41% reduziram a compra de itens essenciais, como alimentos, medicamentos e produtos de higiene;
  • 29% pediram dinheiro emprestado para apostar;
  • 27% retiraram dinheiro investido para realizar apostas;
  • 11% deixaram de pagar contas, como luz, água ou aluguel em razão das bets.

O estudo ressalta que esses percentuais devem ser interpretados como pisos conservadores, já que entre 41% e 51% dos entrevistados optaram por não responder a determinadas questões relacionadas ao consumo essencial.

Para o varejo farmacêutico, o dado sobre itens essenciais ganha relevância porque coloca medicamentos e produtos de higiene entre as categorias cujo consumo pode ser afetado quando a renda é direcionada às apostas.

O levantamento aprofunda a análise sobre endividamento:

  • 81% dos apostadores entrevistados possuem dívidas;
  • 74% estão com pagamentos atrasados;
  • 64% têm entre duas e seis dívidas simultâneas;
  • 62% relatam problemas de relacionamento causados pelo hábito de apostar;
  • 43% afirmam que os gastos com apostas aumentaram nos últimos seis meses;
  • 99,6% declararam ter perdido mais do que ganharam com apostas no período de seis meses.

Reflexos na saúde mental

Para além dos impactos financeiros, a pesquisa com profissionais de saúde mental procurou dimensionar as consequências clínicas associadas às apostas.

O estudo aponta que entre os pacientes que praticam apostas, 42% têm entre 35e 59 anos; 34% de 18 a 34; e 24% mais de 60 anos.

Entre aqueles que apostam, os profissionais de saúde entrevistados identificaram:

  • 62% com depressão maior ou distimia;
  • 51% com transtornos por uso de álcool ou outras drogas;
  • 31% com transtornos de ansiedade (TAG/pânico);
  • 27,9% com estresse crônico ou esgotamento psíquico;
  • 21% com outros transtornos compulsivos.

Segundo o estudo, a comorbidade múltipla é frequente e um mesmo paciente pode apresentar mais de um diagnóstico.

As queixas ligadas a perdas financeiras das apostas incluem: insônia (44,8%), irritabilidade (43,4%), mau humor (35,8%), impaciência (33,4%) e agressividade (29,6%) – muitas vezes simultâneas.

Médicos e psicólogos entrevistados relatam que a evitação emocional e o escapismos são os principais motores neurocomportamentais da dependência: 35% dos pacientes usam o jogo para esquecer preocupações, 33,4% são movidos pelo sistema de recompensa cerebral (dopamina) e 31,1% apostam com a ilusão de controle e pela crença de estar a apenas uma jogada para resolver seus problemas.

Outro ponto destacado é a dificuldade de identificar o comportamento durante o atendimento. Apenas 16,3% dos psiquiatras e neurologistas e 18,1% dos psicólogos afirmaram que os pacientes relatam espontaneamente o hábito de apostar.

Mais de 81% só o revelam quando questionados especificamente sobre finanças ou estresse.

Endividamento afeta relações familiares e trabalho

Na percepção dos profissionais de saúde mental, o impacto financeiro pode assumir proporções mais graves entre pacientes que apostam.

Entre os principais resultados:

  • 62% apresentam endividamento crítico, com nome negativado;
  • 45,8% escondem dívidas do cônjuge ou da família;
  • 23,7% recorrem a agiotas;
  • 41% faltam ao trabalho;
  • 38% se afastam temporariamente;
  • 36,8% perdem o emprego em razão da relação com as apostas.

Os efeitos também chegam aos relacionamentos familiares. O vício em apostas aparece como causa principal de rupturas, como separação e divórcio, em 28,2% dos casos.

Atenção para o risco à saúde

O estudo identificou ainda riscos graves entre pacientes cujo principal estressor é o endividamento decorrente das apostas:

  • 31% apresentam ideação suicida ativa ou passiva
  • 22,7% de planejamento de suicídio
  • 2,7% tentativa de suicídio após graves prejuízos financeiros.

O acompanhamento da Ludopatia, ou Transtorno do Jogo, é estimativa de um a três anos ou mais de tratamento, podendo se estender por toda a vida, com etapas de estabilização e prevenção de recaídas, incluindo psicoterapia, psicofarmacologia combinada, reabilitação sociofinanceira e grupos de apoio.

Entre 10% e 20% dos casos atendidos em serviços de saúde mental necessitam de internação psiquiátrica ou encaminhamento emergencial para unidades de crise (CAPS).

Em uma análise integrada, trazendo pontos de convergência entre os relatos dos apostadores e a percepção dos profissionais de saúde mental, o estudo mostra que o comprometimento financeiro aparece associado à redução do consumo, ao endividamento, a problemas familiares e a impactos na saúde.

Fonte: Febrafar/IFEPEC

Foto: Shutterstock

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