
O avanço das apostas esportivas e cassinos online tem comprometido cada vez a renda das famílias, alterando hábitos de consumo e impactando o varejo. Tanto que as bets já entraram no radar das farmácias. O que está em jogo não é apenas o faturamento do setor, mas a possibilidade de redução da adesão aos tratamentos e de mudanças no comportamento de compra de medicamentos e produtos de saúde.
“Embora a Farmarcas ainda não tenha realizado um levantamento específico sobre esse tema junto às suas lojas, a percepção dos associados é de que o comprometimento crescente da renda familiar com apostas online tem reduzido a capacidade de consumo, principalmente nas compras consideradas não emergenciais”, afirma o presidente da Farmarcas, que reúne 11 redes associativistas de farmácias, e da Federação Brasileira das Redes Associativistas e Independentes de Farmácias (Febrafar), Edison Tamascia.
Dados da Worldpanel by Numerator mostram que, em 2025, 4% dos lares brasileiros realizaram apostas esportivas, com gasto médio anual de R$ 820 por domicílio, crescimento de 7,3% em relação ao ano anterior. Entre as famílias endividadas, esse desembolso é 14% maior.
Em 2025, esse mercado alcançou uma receita bruta de cerca de R$ 37 bilhões, com 25,2 milhões de CPFs realizando apostas, o que coloca o Brasil como o quinto maior mercado de apostas online do mundo, segundo o estudo “Lições do maior fenômeno de consumo digital do Brasil”, feito pela Peers Consulting + Technology, em parceria com a Tendências Consultoria.
“O nosso principal achado nesse estudo, contudo, não está no tamanho do setor, mas na natureza do impacto que ele produz. O efeito econômico mais relevante das bets não é a substituição direta de um produto por outro, e sim a competição recorrente pela carteira de um consumidor que já está pressionado. A aposta se instala no orçamento mensal e passa a disputar espaço com o varejo, os serviços financeiros, a educação e a saúde. É uma disputa silenciosa, mas persistente, pela renda disponível das famílias”, analisa o Associate Senior Manager da Peers Consulting + Technology, Rangel Turatti.
Esse efeito se intensifica porque ocorre em um cenário econômico desafiador e aperto no bolso do consumidor. Apesar da melhora em indicadores como renda e emprego, o Brasil registra recorde de endividamento das famílias, além de juros altos.
Em maio, 81,6% dos lares tinham algum tipo de dívida, o maior patamar de toda a série histórica e o quinto mês consecutivo de crescimento, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).
Ascensão das bets
Segundo Turatti, três fatores explicam por que o movimento das bets escalou tão rápido desde que foi regulamentando no Brasil, em 2023.
“O primeiro é o Pix, que eliminou toda a fricção de pagamento, dispensando cartão, aprovação prévia ou a barreira psicológica de um depósito. A segunda são as microtransações recorrentes, com tíquetes de R$ 1 a R$ 5, que transformaram a aposta em um hábito digital diário, e não em uma decisão financeira deliberada”, explica.
O terceiro fator é a ampla capilaridade das plataformas de apostas, impulsionada por afiliados e criadores de conteúdo regionais, estratégia que permitiu que as BETs chegassem com força em cidades do interior com menor poder aquisitivo. São locais onde produtos financeiros tradicionais, como seguros, previdência e investimentos, nunca conseguiram se estabelecer de maneira viável porque enfrentam barreiras históricas de distribuição e educação financeira.
Com isso, o apostador típico se concentra nas classes C, D e E, com renda familiar de até R$ 3.500, de acordo com o estudo da Peers. Essas classes representam 49,4% dos lares brasileiros, sendo que no Nordeste chega a 71% das famílias. “A geografia da expansão das bets segue de perto a geografia da renda mais baixa”, afirma o executivo.
Nesse cenário, o dinheiro antes usado para consumo ou para quitar dívidas está sendo cada vez mais direcionado para as plataformas de apostas.
Na análise de Turatti, isso impacta diretamente o varejo, porque deixa de ser um comportamento pontual e passa a representar uma disputa permanente pela renda do consumidor.
Segundo estudo divulgado pela CNC em abril de 2026, as apostas teriam retirado cerca de R$ 143 bilhões do varejo entre janeiro de 2023 e março de 2026, o equivalente a duas temporadas de vendas de Natal. Com disso, diz Turatti, o impacto das bets sobre o endividamento das famílias teria sido mais de três vezes superior ao efeito isolado dos juros.
Alerta para as farmácias
Para Tamascia, da Farmarcas e Febrafar, as apostas on-line deixaram de ser apenas uma forma de entretenimento para se tornarem uma questão econômica, social e de saúde pública.
“Quando uma parcela crescente da renda das famílias é direcionada às apostas, reduz-se o consumo em diversos segmentos da economia, inclusive daqueles ligados ao cuidado com a saúde, à prevenção e ao bem-estar. Além disso, especialistas alertam para o crescimento da ludopatia, do endividamento e dos transtornos relacionados à ansiedade, depressão e estresse, que acabam pressionando tanto as famílias quanto o sistema de saúde”, diz.
A preocupação com o tema levou a Febrafar e a Farmarcas a participarem da criação de um movimento que reúne 17 entidades representativas de diversos setores da economia. Segundo Tamascia, o objetivo é ampliar o debate sobre regulamentação, publicidade responsável, prevenção, conscientização e tratamento, entendendo que essa não é uma pauta exclusiva do varejo.
Embora ainda não existam estudos que mensurem com precisão quanto as apostas online retiram do orçamento destinado às farmácias, os indicadores do setor seguem em alta.
“O varejo farmacêutico encerrou 2025 com faturamento em torno de R$ 241 bilhões e crescimento de aproximadamente 11% no ano, um desempenho superior ao de boa parte do varejo”, lembra Turatti.
Esse resultado, explica, é impulsionado pelo envelhecimento da população, o aumento das doenças crônicas, a expansão dos medicamentos GLP-1para diabetes e obesidade e a consolidação das farmácias como hubs de saúde. Para Turatti, a farmácia não é a maior vítima das apostas, porque tem uma demanda por medicamentos mais estável e possui vetores próprios de crescimento.
“O que apontamos é um risco de composição e de adesão, concentrado no público de menor renda, que tende a se agravar em um cenário de orçamento familiar pressionado. É, portanto, um sinal para a gestão proativa, e não um diagnóstico de queda de faturamento”, ressalta o executivo da Peers.
Riscos e oportunidades
Nesse contexto, ele aponta dois pontos de atenção e uma oportunidade para as farmácias. O principal risco é a redução da adesão a tratamentos entre a população de baixa renda, pois o medicamento de uso contínuo compete diretamente com a aposta recorrente dentro de um orçamento apertado.
“O risco concreto não é o cliente deixar de comprar o remédio essencial de uma só vez, mas sim a erosão silenciosa da adesão: fracionar a compra, atrasar a recompra, pular doses ou migrar mais intensamente para o SUS e para a Farmácia Popular. Para redes com forte presença no Norte e no Nordeste, esse é o vetor a monitorar de perto, inclusive porque os jogos de cassino online têm um público expressivamente feminino, e a mulher costuma ser a gestora da saúde e da farmácia da casa”, recomenda Turatti.
As categorias de autocuidado, como dermocosméticos, perfumaria, suplementos e bem-estar também merecem um olhar mais atento. “Como boa parte da margem do varejo farmacêutico moderno vem justamente dessas categorias de maior valor agregado, o gestor pode sentir o efeito das apostas mais no mix de produtos e na margem do que no faturamento de medicamentos em si”, afirma.
Já a oportunidade está relacionada à saúde mental, que pode ser uma frente para a farmácia atuar com mais força. “Um estudo recente estima que os custos de saúde associados às apostas cheguem a mais de R$ 30 bilhões por ano, entre saúde mental, depressão e tratamentos. Para a farmácia posicionada como hub de saúde, isso desenha uma demanda crescente por suporte em ansiedade, sono e bem-estar, ou seja, uma oportunidade de serviço e cuidado, e não apenas de dispensação”, aponta o especialista da Peers +Technology.
Farmácia como ponto de cuidado
O estudo da consultoria indica que nos pedidos de autoexclusão voluntária das plataformas de apostas, a perda de controle e as questões de saúde mental representam 37% das motivações, mais que o dobro do peso atribuído às dificuldades financeiras.
De fato, as apostas on-line podem afetar o sono, a saúde mental, a adesão a tratamentos, as relações familiares, além de favorecerem o uso abusivo de álcool e medicamentos, segundo a presidente do Conselho Regional de Farmácia do Estado de São Paulo (CRF-SP), Dra. Luciana Canetto Fernandes.
“Ainda não dispomos de dados epidemiológicos específicos sobre atendimentos relacionados as apostas nas farmácias, mas o que temos observado na prática é um aumento de pessoas procurando auxílio para sintomas como ansiedade, insônia, irritabilidade e estresse”, diz a Dra. Luciana.

Bets: farmacêutico pode fazer uma abordagem acolhedora e sem julgamentos
“Em alguns casos, durante o atendimento farmacêutico, esses sintomas acabam sendo relacionados pelo próprio paciente às dificuldades geradas pelas apostas on-line. Sabemos que o transtorno do jogo é uma condição reconhecida pela Organização Mundial da Saúde e pela Associação Americana de Psiquiatria. Por isso, é importante que os profissionais estejam atentos a essa realidade, que tende a se tornar cada vez mais frequente”, alerta.
Nesse cenário, o farmacêutico, por ser um dos profissionais de saúde mais acessíveis à população, tem papel importante na identificação dos sinais do vício em jogo. Assim, a orientação do CRF-SP é que a abordagem seja feita de forma acolhedora e sem julgamentos, priorizando a escuta, o sigilo e, quando necessário, o encaminhamento do paciente para avaliação especializada.
Na Farmarcas, por exemplo, a preocupação com as apostas on-line passou a integrar o treinamento dos farmacêuticos. A rede busca ampliar a conscientização sobre o tema e estimular que os profissionais orientem os consumidores a procurar atendimento especializado sempre que identificarem situações de sofrimento emocional ou possíveis quadros de dependência.
“As farmácias têm papel importante como porta de entrada do sistema de saúde e podem contribuir tanto na orientação quanto na conscientização da população sobre os riscos associados ao vício em jogos”, afirma Tamascia.
3 insights para os gestores de farmácia sobre as bets
Veja as dicas de Rangel Turatti, da Peers Consulting + Technology:
- Segmentar a análise de consumo por renda e região, monitorando de perto a recompra e o fracionamento de medicamentos contínuos no público de baixa renda;
- Proteger a margem, e não apenas o faturamento, acompanhando o ticket médio e o mix de itens não medicamentosos;
- Usar a fidelização e a recorrência como defesa, por meio de programas de relacionamento, assinatura de medicamentos e previsibilidade de preço, que ajudam a ancorar o orçamento de saúde do consumidor antes que ele seja capturado pela aposta.
Como o farmacêutico pode apoiar pessoas afetadas pelas apostas online
Confira as orientações da presidente do Conselho Regional de Farmácia do Estado de São Paulo (CRF-SP), Dra. Luciana Canetto Fernandes:
- Atenção aos sinais: o papel do farmacêutico não é fazer o diagnóstico do transtorno do jogo, mas identificar sinais de alerta, como: ansiedade, insônia, alterações de humor, uso inadequado de medicamentos ou álcool e dificuldade de adesão ao tratamento.
- Abordagem acolhedora: conversar sem julgamentos, praticar a escuta ativa e preservar o sigilo do paciente.
- Orientação sobre vício em jogos: explicar que o jogo compulsivo é um transtorno de saúde e que existe tratamento.
- Encaminhamento para especialistas: encaminhar para psicólogos, psiquiatras e serviços de saúde mental quando a pessoa mostrar sinais de sofrimento emocional significativo, perda de controle sobre as apostas ou impacto na vida familiar e financeira.
- Situações de risco: sintomas depressivos, ansiedade intensa, insônia persistente, uso abusivo de álcool e indícios de ideação suicida exigem encaminhamento imediato a especialistas.
- Promover a conscientização: desenvolver ações de promoção da saúde mental, por meio de campanhas educativas, materiais informativos e orientações durante o atendimento farmacêutico.
- Capacitação da equipe: treinar os colaboradores para reconhecer sinais de sofrimento emocional e encaminhar adequadamente os pacientes.
- Combater o estigma: o farmacêutico pode explicar que a compulsão por apostas é uma condição de saúde que requer acolhimento e tratamento, e não uma falta de força de vontade.
Fonte: Guia da Farmácia
Fotos: Shutterstock