O avanço dos medicamentos agonistas de GLP-1, popularmente conhecidos como canetas emagrecedoras, reacendeu um debate que há décadas mobiliza especialistas em endocrinologia e cirurgia bariátrica: afinal, esses fármacos podem substituir o bisturi?
A resposta, segundo a literatura médica e as diretrizes das principais sociedades científicas do país, é: depende. Canetas e cirurgia não competem entre si em todos os casos, mas, em determinados perfis de paciente, os medicamentos injetáveis vêm surgindo como alternativa real ao procedimento cirúrgico.
Cenário

Dr. José Afonso Sallet, do Instituto de Medicina Sallet. Crédito: divulgação
O Brasil é um dos maiores mercados mundiais de cirurgia bariátrica. Segundo a Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM), o Brasil é o segundo país no mundo que mais realiza operações deste tipo, com 100 mil registros por ano, e fica atrás apenas dos EUA. Apesar do crescimento nos últimos dez anos ainda não atendemos nem 1% dos candidatos a cirurgia.1
Mas com o advento dos agonistas de GLP-1, houve uma queda no número de cirurgias bariátricas no País? Segundo o médico-diretor do Instituto de Medicina Sallet, mestre em Cirurgia Digestiva – UNICAMP-SP e titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM), Dr. José Afonso Sallet (CRM 63.985), o que se observa na realidade não é uma queda consolidada, mas sim uma amplificação de estratégias terapêuticas capazes de tratar pacientes não contemplados pela cirurgia.
“Os análogos de GLP-1 trouxeram uma alternativa para o tratamento clínico e endoscópico, podendo se associar a estas, permitindo que muitos pacientes com obesidade leve ou sobrepeso evitem a progressão da doença. Além disso, essas medicações têm sido aliadas no cenário pré-operatório para reduzir o risco cirúrgico de pacientes com superobesidade. Portanto, os tratamentos coexistem e expandem o arsenal terapêutico, sem anular a necessidade da cirurgia para os casos de indicação adequada”, analisa, em entrevista exclusiva ao Guia da Farmácia.
Canetas Emagrecedoras x Cirurgias Bariátricas: qual o melhor caminho?
As canetas emagrecedoras ocupam espaço em pacientes portadores de obesidade grau I ou sobrepeso, onde o tratamento clínico consegue o controle da doença.
Contudo, segundo o Dr. Sallet, é importante falar abertamente sobre a realidade do tratamento. “Os medicamentos exigem uso contínuo, prolongado e possuem um custo financeiro alto a longo prazo, o que muitas vezes torna a manutenção difícil para a maioria dos pacientes. Além disso, há quem não obtenha os resultados esperados ou sofra com o efeito sanfona e efeitos colaterais da própria medicação”, pondera o especialista.
Assim, segundo ele, para a obesidade grave (mórbida) e para doenças metabólicas severas, a cirurgia bariátrica e metabólica permanece como o padrão-ouro. “Enquanto o medicamento controla os sintomas temporariamente, a cirurgia promove uma alteração neuroendócrina eficiente e sustentável a longo prazo”, diz.
E se as ‘canetas emagrecedoras’ forem a escolha, é importante registrar que o uso deve ser feito obrigatoriamente com acompanhamento médico. A pesquisa Consumer Pulse 2026, da Bain & Company, revelou que 33% dos usuários de baixa renda no Brasil utilizam canetas emagrecedoras sem qualquer supervisão profissional2, realidade que representa risco à saúde e que demanda atenção do setor farmacêutico e das autoridades sanitárias.
Indicações da cirurgia bariátrica
A indicação da cirurgia bariátrica segue critérios clássicos estabelecidos pelas sociedades médicas há mais de 30 anos.
Segundo o Dr. Sallet, a conduta é recomendada para indivíduos com Índice de Massa Corporal (IMC) acima de 40 kg/m², ou com IMC acima de 35 kg/m² associado a comorbidades causadas ou agravadas pela obesidade (como diabetes tipo 2, hipertensão arterial, apneia do sono e problemas articulares).
Também é indicada como cirurgia metabólica para pacientes com diabetes tipo 2 de difícil controle, com IMC entre 30 e 34,9 kg/m².
Quando a cirurgia bariátrica é contraindicada?
A cirurgia é contraindicada em pacientes com limitações intelectuais ou transtornos psiquiátricos graves e não controlados (que impeçam a compreensão dos cuidados pós-operatórios), dependência química ativa de álcool ou drogas ilícitas, ou doenças cardiopulmonares gravíssimas que inviabilizem a anestesia, segundo afirma o Dr. Sallet.
E quando os agonistas de GLP-1 (canetas) são indicados ou contraindicados?
Indicação
São indicados para o tratamento do diabetes tipo 2 e para o manejo de peso em adultos com IMC igual ou superior a 30 kg/m² (obesidade), ou IMC igual ou superior a 27 kg/m² (sobrepeso) na presença de pelo menos uma comorbidade relacionada ao peso, segundo afirma o médico-diretor do Instituto de Medicina Sallet.
“Mais recentemente, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou o uso da caneta Mounjaro (tirzepatida) para crianças e adolescentes a partir de 10 anos para tratamento de diabetes tipo 2. Já para obesidade, as canetas Saxenda (liraglutida) e Wegovy (semaglutida) estão liberadas a partir dos 12 anos, com critérios específicos de IMC e acompanhamento médico”, esclarece.
Contraindicações
De acordo com o Dr. Sallet, esses medicamentos são contraindicados para pacientes com histórico pessoal ou familiar de carcinoma medular de tireoide (CMT), portadores de Síndrome de Neoplasia Endócrina Múltipla tipo 2 (NEM 2), histórico de pancreatite aguda, portadores de doenças renais ou hepáticas crônicas, grávidas ou mulheres em amamentação.
Quais as principais diferenças entre os dois tratamentos?
Segundo o Dr. Sallet, a principal diferença está na natureza da intervenção e na perenidade do mecanismo de ação de cada um dos tratamentos. “Os agonistas de GLP-1 constituem um tratamento clínico medicamentoso reversível: eles mimetizam o hormônio sacietógeno, mas seu efeito cessa quando o uso é interrompido, exigindo terapia de longo prazo”, diz.
Já a cirurgia bariátrica é uma intervenção anatômica e funcional que altera de forma duradoura a produção de hormônios gastrointestinais (incluindo o próprio GLP-1 nativo, o GIP e a grelina- o hormônio da fome- entre outros). “A cirurgia atua de forma mais robusta na mecânica de saciedade e metabólica, sendo uma solução duradoura quando associada a suplementação nutricional e acompanhamento transdisciplinar”, pontua o médico.
Existe uma diferença expressiva entre os resultados de perda de peso nos dois cenários?
De acordo com o médico, há uma diferença quantitativa considerável.
“Em média, os tratamentos modernos com análogos de GLP-1 demonstram uma perda de peso corporal que varia entre 10% e 15% (com algumas moléculas mais recentes chegando próximas a 20% em estudos clínicos). Já a cirurgia bariátrica promove, habitualmente, uma redução de 30% a 40% do peso corporal total, com uma taxa de remissão de doenças associadas (como o diabetes) significativamente superior e mais duradoura”, compara o Dr. Sallet.
Conclusão: personalização na medicina
Não existe fórmula mágica ou indicação universal. A escolha entre o tratamento clínico/farmacológico e o cirúrgico deve ser estritamente médica, baseada no perfil metabólico, no índice de massa corporal (IMC) e no histórico de saúde de cada indivíduo.
“O futuro do combate à obesidade não está na escolha de uma única ferramenta, mas sim na capacidade da medicina transdisciplinar em conectar a inovação científica ao acolhimento e à mudança de vida do paciente”, avalia o Dr. Sallet.
Foto: Shutterstock/divulgação
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