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Como funcionam os testes pós-vacinais oferecidos pelas farmácias?

Confira o artigo do diretor comercial POC Farma na Eco Diagnóstica, Fabiano Queiroz, com exclusividade para o Guia da Farmácia

Os primeiros testes relacionados à Covid-19 foram rapidamente desenvolvidos e disponibilizados no mercado de diagnóstico brasileiro, tão logo a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou a situação de pandemia global para o novo SARS-CoV-2.

Os telejornais e demais mídias apressaram-se em explicar as diferenças entre os diferentes métodos de diagnóstico e um emaranhado de siglas nos foram apresentadas.

O padrão ouro estabelecido para a detecção do vírus causador da Covid-19 foi a Reação da Cadeira Polimerase (PCR), um método molecular que amplifica fragmentos do RNA viral e possui altíssima sensibilidade e especificidade.

Em paralelo, foram propostos testes sorológicos, para detectar a resposta imunológica ao contato com o vírus, em especial métodos que utilizavam a tecnologia ELISA e Imunocromatografia.

Estes últimos foram desenvolvidos em versão POC ou Testes Rápidos, de fácil execução e interpretação. De forma célere, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) editou a RDC 377, autorizando além dos laboratórios, as farmácias e drogarias de todo o Brasil a realizarem estes testes rápidos, que possuem a capacidade de detectar as imunoglobulinas IgM e IgG.

Teste de antígeno

Posteriormente, o mercado de diagnóstico apresentou um novo teste que tinha sua aplicação praticamente no mesmo momento da PCR, entre terceiro e oitavo dias de sintomas, com boa acurácia em comparação ao padrão ouro. A vantagem era a de entregar um resultado em menos de 20 minutos e ser de extrema facilidade na execução, conhecido como teste de Antígeno ou teste AG.

Este foi o grande impulso para os números no segmento farmacêutico, que passou a ofertar um teste de baixo custo e acessível. Milhares de farmácias e drogarias aceleraram na capacitação dos profissionais farmacêuticos, a ponto de dados recentes publicados pela Associação Brasileira de Farmácias e Drogarias (Abrafarma) apontarem para mais de 8 milhões de testes realizados apenas nas suas farmácias associadas, um número absolutamente fabuloso.

Testes pós-vacinais oferecidos pelas farmácias

Mais recentemente, o mercado de diagnóstico apresentou um novo segmento de testes a serem realizados após o processo de vacinação. Neste ponto iniciaram-se as polêmicas relacionadas à real aplicação destes testes.

Em nota técnica publicada no início de 2021 (Nota Técnica – NT 33/2021), a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) buscou estabelecer os cuidados necessários na interpretação destes testes. Antes disso, a NT em questão estabeleceu de forma resumida a definição de anticorpos neutralizantes, bem como as limitações na execução da metodologia de neutralização em placa, considerada o padrão ouro, mas inviável de ser realizada em larga escala. Desta forma, os testes pós vacinais, para serem entendidos, precisam ser divididos em dois grupos principais:

  • Testes que avaliam a soroconversão pós-vacinal: são testes que buscam anticorpos produzidos pelo organismo após o estímulo provocado pelas vacinas. Estes testes detectam, após algumas semanas da aplicação da vacina, a presença de anticorpos produzidos contra a proteína Spike (S) ou nuclear (N), sendo este o principal sítio de ação utilizado nas plataformas de vacinas disponíveis.  Estes testes podem ser tanto realizados em laboratórios, em geral pela metodologia ELISA, ou também em testes rápidos, oferecidos também em farmácias e drogarias, pelo método imunocromatográfico.
  • Testes neutralizantes: são testes que avaliam a função do anticorpo, ou seja, a sua capacidade de neutralizar a entrada no vírus na célula. O resultado é percentual, e define qual a quantidade relativa dos anticorpos produzidos tem a função neutralizante.

Presença de anticorpos

A NT 33/2021 esclarece que ainda não existem níveis estabelecidos para se garantir uma proteção imunológica contra infecção pelo SARS-CoV-2. Ou seja, nem a presença e mesmo a quantidade de anticorpos neutralizantes podem ser usadas como critério para o sucesso da vacina ou mudanças na conduta de proteção após a vacinação.

Em paralelo, a Sociedade Brasileira de Patologia Clínica (SBPC) editou uma nota em abril de 2021 defendendo de forma contundente a utilização dos testes pós vacinais como “procedimento essencial para que seja possível entender a resposta imune que se segue à vacina, e, consequentemente, acompanhar a relação dela com o impedimento da proliferação do vírus e a diminuição de internações e óbitos”.

Esta associação apresenta dados de pesquisa realizada na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) que evidenciaram um percentual de 85% dos pacientes que receberam a Coronavac. Estes dados foram replicados em estudo recentemente publicado pelo Grupo Fiocruz DATA da Fiocruz Minas, que monitorou quase 2000 profissionais de saúde em um hospital de Belo Horizonte, encontrando anticorpos pós-vacinais em 89% desses profissionais em 30 dias após vacinação, chegando a 99,6% de soroconversão com 60 dias após a vacinação.

Efeito da vacina

Neste sentido, com quem está a razão em relação a estes testes pós vacinais? Na minha opinião: ambos. O que precisa ser entendida é a limitação inerente a estes testes, e dessa forma, as preocupações da Anvisa ao editar a citada NT tem sentido, na medida em que, ainda não existem evidências de níveis de anticorpos neutralizantes, bem como correlação com a sua simples presença no organismo com a eficácia ou não da vacina. Por outro lado, não se pode abrir mão das ricas informações geradas pela testagem de indivíduos vacinados para que se possa entender a duração da resposta humoral, as diferenças nessa duração nas diferentes idades, e em especial, a busca de uma resposta relativa à necessidade ou não de uma terceira dose.

Neste tema não existem respostas simples e binárias. O efeito causado pelas vacinas no organismo vai muito além daquele descrito e captado pelos testes sorológicos pós-vacinais e neutralizantes, mas isso não diminui as ricas informações que eles podem gerar.

É necessário ter a consciência que eles nos mostram uma parte da história, e não podem de forma alguma ser utilizados como um laissez-passer para a vida “normal”, ou um salvo-conduto para, neste momento, nos distanciarmos das medidas de proteção individual e coletiva.

A variante Delta imprime ainda a necessidade de muita cautela e atenção, e não é hora de se distrair por outros caminhos.

Como será o serviço farmacêutico no pós-pandemia?

Foto e fonte: diretor comercial POC Farma na Eco Diagnóstica, Fabiano Queiroz, com exclusividade para o Guia da Farmácia.

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