
Pressão econômica, mudanças na renda e na frequência de compra, além de novos hábitos, estão redesenhando o consumo na América Latina e trazendo novos desafios para o varejo, segundo a Worldpanel by Numerator.
A análise foi apresentada por David Fiss, diretor sênior de Business Development Brasil, e Marcela Botana, diretora de Growth & Commercial Excellence Latam da Worldpanel by Numerator, durante palestra no Latam Retail Show 2026, evento organizado pela Gouvêa Experience e realizado no Distrito Anhembi, em São Paulo (SP), em setembro.

David Fiss e Marcela Botana, da Worldpanel by Numerator. Foto: Latam Retail Show
Seis em nove países registraram aceleração da inflação entre janeiro e junho de 2026, e quase 60% da região perdeu poder de compra. Dados da consultoria apontam para algumas transformações:
- aumento da quantidade de lares: hoje são 220 milhões de lares na América Latina, crescimento de 3,2%em relação a 2025;
- 670 milhões de consumidores na região, com diferentes perfis de famílias;
- 33% da renda concentrada na cesta de bens de consumo de giro rápido (FMCG).
Nesse contexto, desde 2023, os shoppers ajustam frequência e volume de compras para conseguir fechar o mês – comportamento que se intensificou no último ano.
3 forças que impactam o consumo
Segundo a Worldpanel by Numerator, três forças remodelam o consumo na região:
1. Pressão econômica
- Inflação reajustou expectativas de preços;
- Premiumização e downtrading acontecem ao mesmo tempo;
- Descontos e marcas próprias ganham espaço.
2. Mudança demográfica
- Lares menores, de 1 a 2 pessoas;
- População envelhecida em toda a região;
- Embalagens atuais já não servem a esse perfil de família.
3. Transformação social
- Mais mulheres no mercado de trabalho;
- Bem-estar deixa de ser nicho e passa a se tornar algo comum;
- Conveniência e canais digitais se consolidam como novo padrão.
Desafios para o varejo
Esse contexto traz alguns desafios para o varejo, que em cada país da região desenvolve seus próprios mecanismos para se adaptar à queda de volume.
A Worldpanel by Numerator faz uma analogia entre o shopper latino-americano e um atleta que precisa se adaptar a diferentes terrenos e modalidades esportivas. Assim, cada mercado representa um tipo diferente de competição e de consumidor.
Chile, Costa Rica e Panamá, por exemplo, têm o perfil de maratonista, com tendência ao consumo de produtos premium.
Colômbia, Equador, El Salvador e Guatemala são representados como triatletas, com maior tendência a marcas próprias e formatos de varejo de desconto.
Bolívia e Honduras aparecem como corredores de montanha, com maior busca por praticidade.
E no Brasil?
A análise da Worldpanel by Numerator compara o shopper do Brasil, Argentina, Peru e México a um ciclista, com as seguintes características:
- Cada lar compra em 10,7 canais, mesclando varejo tradicional, cash & carry e e-commerce, sem depender de um único canal.
- a inteligência artificial também aparece como um recurso de apoio às compras;
- os quatro países concentram 70,1% das ocasiões de compra da América Latina
- os gastos por lar somam US$ 2.013 por ano.
- 86% são compradores de áreas urbanas, combinando renda formal e informal
- avanço da bancarização e do ecommerce
- o foco comercial do varejo aponta para distribuição, eficiência e presença em todos os formatos.
Tendências
Para a Worldpanel by Numerator, se antes o crescimento do varejo vinha principalmente do aumento do volume, impulsionado por maior quantidade de pessoas e lares, as estratégias para crescer agora são diferentes.
Portanto, é preciso estar atento a aspectos como:
- criação de valor como motor de crescimento;
- entender as ocasiões de consumo, e não apenas as categorias;
- compreender que na frequência de compra, agora o consumidor faz mais viagens com cestas menores para equilibrar o orçamento;
- otimizar canais e preços para caber no bolso do shopper.
Pontos em comum
Embora a América Latina reúna diferentes perfis de consumidores, alguns motores de crescimento são comuns em toda a região.
Cerca de 42% dos gastos, por exemplo, estão concentrados em itens essenciais, enquanto bem-estar e indulgência abrem espaço para novas necessidades.
A omnicanalidade cresce, com cerca de 11 canais por lar. Também são observados novos padrões, com destaque para produtos premium e marcas próprias com expansão acima do segmento mainstream. Nesse cenário, a otimização de preços ganha importância.
Foto de abertura: Shutterstock
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