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Coronavírus: 6 avanços científicos conquistados em meio à pandemia

A OMS monitora mais de 1,7 mil estudos com terapias em potencial pelo mundo, dos quais 990 já estão recrutando pacientes para experimentos

Os avanços científicos contra o coronavírus seguem em estudos.

Há quanto tempo o novo coronavírus chegou para colocar nosso mundo de cabeça para baixo? O isolamento fez o ano passar mais rápido ou devagar? Quando chegará o “novo normal”?

A pandemia de coronavírus — que, aliás, foi declarada como tal pela Organização Mundial da Saúde (OMS) há (apenas?) seis meses — está afetando de diversas formas nossa percepção do tempo.

E se tem um campo em que os limites do tempo parecem ter sido alterados de forma inédita foi o da ciência.

“Embora possa parecer uma eternidade, é um período (o da pandemia) muito curto para se obter avanços em pesquisas”, dizem os professores Begoña Sanz e Gorka Larrinaga, do Departamento de Fisiologia Humana da Universidade do País Basco, em conversa com a BBC News Mundo.

Os avanços 

“A verdade é que a área de pesquisas está recebendo um grande estímulo de outros campos”, levando a “muitas mudanças pioneiras e revolucionárias”, afirma Miguel Pita, doutor em genética e biologia celular.

As profundas crises sociais, econômicas e de saúde causadas pela pandemia mobilizaram investimentos de milhões de dólares e o trabalho incansável de milhares de cientistas de todo o mundo — e, com isso, pelo menos sete aspectos da ciência já mudaram, de acordo com cientistas entrevistados pela reportagem.

1. Colaboração entre equipes

“O coronavírus promoveu a colaboração entre muitas equipes. E essa é uma notícia muito boa”, diz Pita, professor na Universidade Autônoma de Madrid.

Os pesquisadores tendem a ser muito colaborativos, mas a pandemia foi um estímulo adicional. E os resultados têm sido compartilhados rapidamente para todos os grupos”.

Begoña Sanz e Larrinaga concordam.

“Obviamente, a pressão exercida pela gravíssima situação sanitária e socioeconômica mundial fez aumentar a colaboração de muitas universidades, grupos e centros de pesquisa”, explicam.

2. Sequenciamento do vírus

Uma destas áreas com forte colaboração internacional é também uma das que registra “grandes avanços”, segundo Pita.

“De forma resumida, diria que, no campo da bioinformática, tem havido grandes inovações na análise de sequências do material genético de cada vírus que infecta as pessoas. Isso nos permite ver como ele evolui com o passar do tempo”, explica o pesquisador.

Desde que a China relatou a existência do novo coronavírus à Organização Mundial da Saúde (OMS), no final de dezembro de 2019, até os primeiros dias de setembro, pesquisadores de todo o mundo registraram 12 mil mutações em seu genoma, de acordo com a revista científica Nature.

E o número cresce a cada dia.

Nas palavras de Pita: “A comunidade científica está colocando suas melhores ferramentas a serviço desta investigação — aumentando muito a capacidade de cálculo e de revisão das alterações genéticas do coronavírus.”

3. Testes

Um dos grandes desafios no combate à covid-19 tem sido detectar pessoas infectadas a fim de isolá-las e, assim, conter a disseminação da doença.

Sobre isso, Pita destaca “o desenvolvimento de técnicas de diagnóstico muito poderosas e que usam ferramentas de edição de genes — um elemento muito importante da genética hoje”.

O pesquisador reconhece, todavia, que testes de diagnóstico rápido são “menos sensíveis” que os testes moleculares (PCR).

Portanto muitos acabam não sendo confiáveis para a tomada de decisões, mas têm a vantagem de oferecer resultados imediatos e ajudar epidemiologistas a traçar um cenário sobre o avanço (ou não) da doença em determinadas comunidades.

Contudo, Pita cita também o desenvolvimento de técnicas de diagnóstico diferencial para distinguir o SARS-CoV-2 de outros vírus, “o que é de grande importância para o diagnóstico correto dos doentes e, portanto, para a escolha do tratamento”.

4. A corrida da vacina

O fato deste coronavírus e a doença que ele causa serem novos significa que ainda há muito desconhecimento sobre eles. Mas há algo que para os especialistas é evidente: a única maneira de chegar a uma imunidade coletiva é com uma vacina.

Vacinas em desenvolvimento

Isso depende, também, do cumprimento de alguns requisitos.

É preciso, no entanto, encontrar uma candidata que se mostre eficaz, segura e passível de ser administrada à população de forma massiva, dizem Begoña Sanz e Larrinaga.

“Se, como diz a OMS, isso acontecesse em 2022, seria, desse modo, um grande sucesso, considerando o tempo que se levou para obter outras vacinas e aplicá-las em grande parte da população mundial.”

Na verdade, o prazo usual para o desenvolvimento de vacinas é de 15 a 20 anos.

Agora, pode ser que cheguemos a um recorde de um ou um ano e meio.

Isso foi destacado em um artigo publicado no mês passado no periódico JAMA e liderado por Paul Offit, um imunologista americano famoso por ter participado da criação de uma vacina contra o rotavírus.

O texto diz que o projeto de uma vacina contra o SARS-CoV-2 está caminhando em “velocidade vertiginosa”.

Mas a novidade, no entanto, não está apenas no tempo, mas também nas diferentes metodologias utilizadas para o seu projeto.

Distribuição pelo mundo

São vacinas que representariam um processo de produção industrial muito mais rápido do que de vacinas com desenhos clássicos — algo muito útil em uma situação como a atual”, afirma o pesquisador.

O artigo no JAMA explica duas novas metodologias que estão sendo utilizadas no desenvolvimento das vacinas.

Uma é o das vacinas de RNA mensageiro (mRNA), que “nunca foram usadas comercialmente para prevenir infecções“, afirma o artigo. É o caso dos projetos da Moderna e também da parceria entre Pfizer e BioNTech.

Diferentes metodologias

A outra metodologia é baseada na modificação genética de uma família do vírus da gripe comum, como vem sendo testado pela Johnson & Johnson e pela parceria entre Universidade de Oxford e AstraZeneca.

“Semelhante às vacinas de mRNA, não existem vacinas disponíveis comercialmente para prevenir doenças humanas usando esta estratégia (da alteração genética).

Desse modo, seu uso clínico foi limitado a uma vacina licenciada contra a raiva animal”, diz o estudo publicado no JAMA.

De acordo com Offit e sua equipe, vários fatores como “a natureza trágica de uma pandemia em curso criaram um terreno fértil para a inovação”.

“Embora o sucesso definitivo de uma candidata, ou candidatas, a vacina ainda seja desconhecido, as mudanças na área das imunizações que estas exigentes circunstâncias trouxeram vieram para ficar”, dizem os pesquisadores.

5. Outros tratamentos

Além da corrida por uma vacina, pesquisadores também estão dedicados ao desenvolvimento de tratamentos para pacientes infectados com o novo coronavírus.

Contudo, há também terapias em teste que focam em diferentes fases da doença, desde as mais leves às mais graves.

A OMS monitora mais de 1,7 mil estudos com terapias em potencial pelo mundo, dos quais 990 já estão recrutando pacientes para experimentos.

A organização também coordena um projeto internacional, o Solidarity.

O projeto foca, no entanto, em três tratamentos promissores (e já existentes para outras doenças): remdesivir; lopinavir/ritonavir apenas ou associado ao interferon beta.

Já foram recrutados 5,5 mil pacientes para estudos clínicos em 21 países.

Segundo a OMS, “embora ensaios clínicos randomizados normalmente levem anos para serem elaborados e conduzidos, o Solidarity reduzirá o tempo gasto em 80%”.

6. Práticas de higiene

Outro grande avanço é a introdução na cultura dos cidadãos de certos hábitos de higiene e prevenção que ajudarão a conter este e outros surtos causados por vírus“, afirmam Begoña Sanz e Larrinaga.

Hábitos de higiene

O uso de máscaras e de se evitar locais com aglomeração, principalmente fechados, quando há pessoas com sintomas gripais devem ser mantidos.

Na verdade, estudos em diferentes países já mostram que as medidas tomadas contra a Covid-19 tornaram a temporada de outras doenças respiratórias virais menos extensa e mortal.

Por exemplo, uma pesquisa publicada no mês passado no periódico British Medical Journal (BMJ) analisou dados sobre resfriados, gripes e bronquite de 500 clínicas na Inglaterra.

Descobriu, assim que, em média, nove vezes menos casos foram registrados na comparação com os cinco anos anteriores.

Foto: Shutterstock

Fonte:  G1

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