
No dia 29 de agosto, o Brasil celebra o Dia Nacional de Combate ao Tabagismo, data que reforça os desafios para a redução do consumo de cigarros e para o apoio aos fumantes que desejam abandonar o vício.
Em meio a esse debate, o Laboratório Cristália apresentou, na quinta-feira (27), os resultados iniciais de uma pesquisa para o desenvolvimento de uma vacina antitabagismo.
O Guia da Farmácia acompanhou o evento de apresentação do projeto e coletiva de imprensa (foto), realizado em uma das 11 fábricas da companhia, em Jaguariúna (SP).
A pesquisa está na fase conhecida como Early Discovery, voltada à seleção de protótipos e à demonstração inicial de eficácia em modelos experimentais. O trabalho é conduzido por cientistas do Centro de Pesquisa, Desenvolvimento & Inovação do Cristália.
Dependência e recaídas
O tabagismo é uma doença associada à dependência da nicotina. Segundo o Dr. José Roberto de Brito Jardim, especialista em pneumologia e professor sênior livre docente da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), presente no evento, o cigarro tem 7 mil substâncias nocivas, sendo que a nicotina é a responsável pela dependência química.
“Quando a pessoa fuma, a nicotina vai para o cérebro e libera o que nós chamamos de substâncias do prazer, como serotonina, dopamina e noradrenalina”, explicou.
A nicotina ativa receptores no cérebro, favorecendo a liberação de dopamina e ativando o sistema de recompensa, o que gera uma sensação rápida de prazer e reforça o consumo compulsivo.
Mas a dependência química também vem acompanhada de fatores comportamentais (como hábitos contínuos de fumar ao tomar café, por exemplo), e emocionais (ex: alívio da ansiedade).
Segundo o Dr. Jardim, cerca de 60 doenças estão associadas ao consumo de cigarros, incluindo tuberculose, doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), doenças cardiovasculares e diferentes tipos de câncer.
De acordo com estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS), o tabaco causa cerca de 8 milhões de mortes por ano no mundo, sendo aproximadamente 7 milhões por consumo direto e 1,3 milhão por exposição passiva ao fumo.
Cerca de 85% dos pacientes que tentam abandonar o vício sofrem recaídas no primeiro ano de tratamento, e dois terços voltam a usar a substância nas duas primeiras semanas, segundo o National Institute on Drug Abuse.
Segundo o Dr. Jardim, o Brasil foi o país onde o número de fumantes diminuiu com maior rapidez nas últimas décadas. Dados do Vigitel mostram que, em 1990, a prevalência do tabagismo na população era de 33,6% e caiu gradativamente até chegar a 3%, em 2023. Porém, em 2024, aumentou para 11,2%.
Vacina traz nova abordagem ao tratamento
Atualmente, os tratamentos farmacológicos disponíveis para o tabagismo envolvem os antidepressivos bupriopiona ou nortripilina. Outra linha de tratamento, oferecida pelo SUS, são as terapias de reposição de nicotina, como adesivos e gomas.
Porém, é muito difícil abandonar a dependência do cigarro. Foi diante da dificuldade de evitar recaídas que surgiu a ideia do projeto.
“Em algum momento, pensei: o corpo humano tem um sistema imunológico perfeito. E se descobríssemos uma maneira de colocar esse sistema imunológico para combater a adicção?”, explica o médico Ogari Pacheco, fundador, presidente do Conselho Diretivo do Laboratório Cristália e responsável pela concepção da ideia que gerou o desenvolvimento do projeto.
Assim, em 2024, o fundador propôs à equipe de pesquisa e desenvolvimento da empresa o desafio de estudar uma nova abordagem para combater a dependência química e apoiar pacientes durante o processo de abandono do cigarro.
Segundo Rogério Almeida, vice-presidente de Pesquisa, Desenvolvimento & Inovação do Cristália, a proposta é atuar sobre um dos principais desafios do tratamento: a recaída entre pessoas que tentam abandonar a dependência da nicotina. “Identificamos um grande potencial em encerrar esse ciclo vicioso”.
A vacina em estudo busca estimular o sistema imunológico a produzir anticorpos capazes de reconhecer e capturar a nicotina ainda na corrente sanguínea. A hipótese é que, ao impedir ou reduzir a chegada da substância ao sistema nervoso central, seja possível evitar o mecanismo associado à sensação de recompensa provocada pela nicotina.
Como a vacina antitabagismo funciona
O tratamento de diversas doenças já se beneficia do uso do sistema imune do próprio paciente, capaz de reconhecer o que é estranho ao organismo e produzir anticorpos que capturam e eliminam esse invasor. As drogas de abuso também são estranhas ao organismo, mas, por sua estrutura química, passam despercebidas pelo sistema imune.
A vacina em desenvolvimento pelo Cristália busca resolver esse ponto: a molécula da nicotina — pequena demais para gerar resposta imunológica sozinha — é acoplada a uma estrutura reconhecida pelo sistema imune. Esse complexo desencadeia a produção de anticorpos capazes de se ligar especificamente à nicotina na corrente sanguínea.
Quando o paciente vacinado entra em contato com a substância, os anticorpos a capturam ainda no sangue. Assim, a nicotina não consegue chegar ao cérebro e, por não interagir com os receptores nicotínicos de acetilcolina nem desencadear a liberação de dopamina associada ao prazer, não produz o reforço que alimenta a dependência.
“É importante frisar que a molécula modificada usada na formulação não tem efeito psicotrópico”, afirma o fundador do Cristália.
Testes iniciais
Até o momento, a vacina antitabagismo em desenvolvimento pelo Cristália foi testada apenas em animais.
Os estudos são conduzidos desde 2025 em parceria com o Instituto de Coração Edson Saad, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), sob a coordenação da Dra. Gisele Zapata Sudo, médica e pesquisadora há mais de 30 anos atuando no desenvolvimento de novos fármacos e medicamentos.
Segundo ela, foi desenvolvido um protocolo para indução de dependência de nicotina em roedores para avaliar os vários aspectos relacionados ao vício, desde alterações comportamentais como ansiedade, depressão, hiperatividade até a sensação de prazer nos animais.
Após a indução da dependência, os pesquisadores comparam grupos de animais imunizados com a vacina e grupos controle, ou seja, ratos não vacinados.
“Nos últimos meses estamos trabalhando intensamente no laboratório com esse modelo. Tivemos uma grata surpresa observando que os animais imunizados com três doses da vacina tiveram efetivamente uma melhora nas alterações comportamentais”, disse a Dra. Gisele, durante o evento.
Assim, espera-se que os anticorpos produzidos após a imunização formem complexos com a nicotina na corrente sanguínea, dificultando o acesso da substância ao sistema nervoso central. “Se o indivíduo que se propôs a interromper o uso da nicotina tem uma recaída, ao fumar novamente ele não vai ter a sensação agradável porque foi imunizado”, reforçou a Dra. Gisele.
Segundo ela, é possível dar continuidade ao projeto com os resultados obtidos até o momento e, em breve, confirmar aspectos como segurança e ausência de toxicidade da vacina.
Em razão do sigilo para obtenção da patente, o Cristália não divulgou mais detalhes dos estudos.
Próximas etapas
Segundo o Cristália, os protótipos e antígenos sintéticos da vacina antinicotina estão sendo produzidos para fins de pesquisa com tecnologia do laboratório.
A etapa relacionada ao Insumo Farmacêutico Ativo (IFA) está sob responsabilidade da planta Farmoquímica Oncológica do Cristália, em Itapira (SP), enquanto a formulação e o envase, por se tratar de uma vacina, deverão ocorrer em uma das unidades farmacêuticas do laboratório, também no complexo industrial de Itapira.
O desenvolvimento ainda depende da conclusão de estudos pré-clínicos de eficácia e segurança, desenvolvimento farmacotécnico e analítico, aumento de escala e estudos clínicos em humanos antes de um eventual pedido de registro à Anvisa.
O Cristália também está compilando os dados iniciais de estrutura química e eficácia para elaboração do pedido de patente. A publicação científica dos resultados está prevista para ocorrer após o depósito da patente.
Foto: Guia da Farmácia