Pele. O maior órgão do corpo humano é um dos motivos de preocupação para quem sofre com dermatite atópica. Ela é uma doença autoimune, crônica, bastante comum, que provoca ressecamento intenso, coceira e irritação na pele e faz parte de um grupo de condições chamado “atopia”, que também inclui asma e rinite alérgica.
“Em quem tem dermatite atópica, a pele funciona como uma barreira mais frágil, ficando mais vulnerável a agentes externos”, comenta a dermatologista, sócia fundadora do Centro de Estudos e Pesquisas Endolaser Academy e do EA Medical Trainning, Dra. Eidi Motta.
Segundo ela, a principal característica é a coceira persistente, muitas vezes intensa, que leva à vermelhidão, descamação e, em alguns casos, a pequenas feridas. As lesões costumam aparecer em áreas específicas, como dobras dos braços, atrás dos joelhos, pescoço e rosto (especialmente em crianças).
“A causa não é única. Envolve uma combinação de predisposição genética, alterações na barreira cutânea e resposta exagerada do sistema imunológico”, comenta.
A dermatite atópica manifesta-se clinicamente com prurido (coceira), muitas vezes incapacitante, lesões recorrentes do tipo eczema e pele seca, que pode evoluir para espessamento e endurecimento e acentuação das linhas naturais.
“A idade de início costuma ser nos primeiros anos de vida, mas também pode surgir em adolescentes, adultos e idosos”, pontua a coordenadora do Departamento Científico de Dermatite Atópica da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI), Dra. Márcia Carvalho Mallozi.
Em casos crônicos, o ato de coçar pode tornar a pele mais grossa e escura, processo chamado de liquenificação, conforme afirma a dermatologista e especialista em Dermatologia pela Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), Dra. Glauce Eiko.
Segundo ela, a localização das lesões varia conforme a idade. “Em bebês, atingem bochechas, testa e tronco; em crianças maiores e adultos, concentram-se nas dobras dos braços, atrás dos joelhos, no pescoço e nas pálpebras.”
HIDRATAÇÃO FAZ A DIFERENÇA
A hidratação é um dos pilares do tratamento para dermatite atópica, não é apenas um cuidado complementar, mas parte essencial da terapia. “Como a pele do paciente com dermatite atópica perde água com mais facilidade, o uso diário de hidratantes específicos ajuda a restaurar essa barreira cutânea, reduzindo a sensibilidade e prevenindo crises”, comenta a Dra. Eidi.
Dermocosméticos com ativos como ceramidas, niacinamida, pantenol e glicerina são especialmente importantes, pois ajudam a reparar e proteger a pele.
“Uma rotina bem orientada pode diminuir significativamente a necessidade de medicamentos. Muitas vezes, pode ser necessária a complementação com antioxidantes orais”, afirma.
A Dra. Márcia destaca que a hidratação da pele constitui a base do tratamento. “Quando aplicados regularmente, os hidratantes melhoram a função da barreira cutânea, aumentam a hidratação, com redução de pele seca, da coceira e da inflamação, diminuindo o número e a intensidade das crises, com consequente menor necessidade do uso de agentes anti-inflamatórios”, comenta.
Importante ressaltar que os hidratantes ideais devem ser livres de fragrâncias, álcool e corantes, priorizando texturas mais espessas, como cremes e pomadas.
“Entre os ativos recomendados, estão os oclusivos, como a vaselina; os umectantes, como a glicerina e o ácido hialurônico; e os lipídeos de barreira, como as ceramidas e a manteiga de karité. Para maior eficácia, a aplicação deve ser diária, preferencialmente logo após o banho, com a pele ainda úmida, para selar a umidade no tecido”, orienta a Dra. Glauce.
LIMITES DA AUTOMEDICAÇÃO
Para a Dra. Glauce, os limites da automedicação vão ao encontro do que é razoável como autocuidado, por exemplo, o uso diário de hidratantes adequados para pele atópica; evitar banhos muito quentes e demorados; usar sabonetes suaves e em pouca quantidade; e evitar roupas ásperas, perfumes sobre a pele irritada, produtos com muito álcool ou fragrâncias.
“A automedicação não é segura quando falamos em uso de corticoides tópicos (pomadas/cremes com “-sona”, “-solona”, etc.) usados por conta própria e por tempo prolongado que podem causar afinamento da pele (atrofia), estrias, vasinhos visíveis, despigmentação localizada, efeito rebote (piora ao suspender)”, alerta.
Além disso, ela lista outros riscos como o uso de antibióticos tópicos ou orais sem orientação, que pode aumentar resistência bacteriana e mascarar infecções graves; uso de medicamentos orais para alergia (anti- -histamínicos) que, em excesso, podem causar sonolência importante ou outros efeitos colaterais; além de corticoides orais ou injetáveis que nunca devem ser usados sem prescrição. “Há riscos cardiovasculares, metabólicos, ósseos, imunológicos”, esclarece.
A automedicação deve ser evitada, principalmente com o uso de pomadas com corticoides sem orientação médica. “Embora possam aliviar rapidamente os sintomas, o uso inadequado pode causar efeitos colaterais, como afinamento da pele, piora do quadro ou mascaramento de outras doenças. Cada paciente tem um grau diferente de dermatite atópica, e o tratamento deve ser individualizado, por isso o acompanhamento com dermatologista é fundamental”, comenta a Dra. Eidi.
IMPACTOS NO DIA A DIA
A dermatite atópica, especialmente nas formas moderadas a graves, tem alto impacto na qualidade de vida do paciente e de seus familiares. “Está associada a várias comorbidades atópicas (rinite alérgica, asma, alergia alimentar e esofagite eosinofílica) e, também, a comorbidades não atópicas, com destaque para a saúde mental, com frequente associação à depressão e ansiedade”, conta a Dra. Márcia.
Ela lembra que é comum a observação de baixo rendimento escolar ou no trabalho devido às faltas ocasionadas pela doença, principalmente pelo aspecto das lesões e pela coceira. Socialmente, o paciente pode enfrentar limitações em atividades de lazer, como ir à piscina ou praticar esportes. “Há, ainda, um desgaste financeiro e emocional para toda a família devido aos cuidados contínuos e gastos com tratamentos”, pontua a Dra. Glauce.
A especialista da SBD diz que a doença é muito mais frequente na infância, iniciando-se geralmente nos primeiros cinco anos de vida e afetando cerca de 10% a 20% das crianças.
“Embora muitos casos melhorem ou desapareçam na adolescência, a dermatite também pode persistir ou até surgir pela primeira vez na idade adulta. Em adultos, o quadro costuma ser localizado em áreas como mãos e pescoço, podendo impactar, significativamente, a vida profissional, especialmente em ocupações que envolvem contato com substâncias irritantes ou água”, finaliza.
Fonte: Guia da Farmacia
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