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Dia do Farmacêutico: o valor de quem cuida

Por Kathlen Ramos 20 de janeiro de 2026 Atualizado em: 19 de janeiro de 2026 Nenhum comentário 8 Minutos de leitura
Dia-do-Farmacêutico-o-valor-de-quem-cuida

Neste Dia do Farmacêutico, celebrado em 20 de janeiro, a revista Guia da Farmácia homenageia os profissionais que ocupam um espaço cada vez mais central no cuidado à saúde da população brasileira.

Do acompanhamento clínico ao esclarecimento sobre terapias, da vacinação ao apoio em momentos de crise sanitária, o farmacêutico tornou-se protagonista de uma transformação silenciosa, porém profunda, que redefine o papel das farmácias como estabelecimentos de saúde.

Para compreender esse movimento e os desafios que ainda se impõem, entrevistamos, com exclusividade, o Dr. Marcelo Polacow Bisson, presidente do Conselho Regional de Farmácia de São Paulo (CRF-SP) e um dos nomes mais atuantes na defesa da profissão.

Polacow, que também é farmacêutico pela USP-Ribeirão Preto, mestre e doutor em Farmacologia pela UNICAMP, e pós-doutorando no Programa de Ciências Farmacêuticas da FCF-UNICAMP, analisa os avanços conquistados, como a ampliação da prática clínica e o crescimento dos serviços farmacêuticos, e comenta os obstáculos que persistem no varejo, sobretudo no que diz respeito à autonomia, às condições de trabalho e à formação continuada.

Presidente do CRF-SP, Marcelo Polacow Bisson

Neste bate-papo, Polacow projeta o futuro da profissão, o impacto das novas tecnologias, as prioridades regulatórias e o caminho para que cada farmacêutico, especialmente no varejo, possa exercer plenamente sua missão: cuidar com ética, conhecimento e humanização. Acompanhe, a seguir, o conteúdo completo.

Guia da Farmácia – Ao longo das últimas décadas, a profissão farmacêutica ganhou uma visibilidade muito maior perante a sociedade. Na sua visão, quais foram os principais marcos que contribuíram para essa valorização?

Marcelo Polacow Bisson – Acredito que foi um grande marco nessa valorização a regulamentação da prescrição farmacêutica, por meio da Resolução 586/2013, do Conselho Federal de Farmácia (CFF), que ampliou a atuação clínica do farmacêutico.

Também podem ser citadas a expansão dos serviços farmacêuticos: como acompanhamento de doenças crônicas, vacinação, testes rápidos e gestão da terapia medicamentosa; o reconhecimento do papel essencial na saúde pública, especialmente durante a pandemia de Covid-19, com atuação em testagem, vacinação e orientação; e a inserção da farmácia como estabelecimento de saúde, com foco no cuidado e não apenas na dispensação.

Guia – Quais são hoje os maiores desafios enfrentados pelos farmacêuticos que atuam no varejo em termos de formação, autonomia profissional e condições de trabalho?

Polacow – Em relação à formação, podemos citar a necessidade de educação continuada para atuar clinicamente, com ênfase em habilidades de comunicação, gestão e clínicas. Sobre a autonomia profissional, vemos um grande desafio relacionado à pressão comercial versus atuação ética e baseada em evidências.

Quando pensamos nas condições de trabalho, sem dúvidas, as jornadas extensas, cobrança por metas comerciais e falta de estrutura para prestação de serviços clínicos são desafios diários dos profissionais da área.

Por fim, quando avaliamos a valorização financeira, temos a remuneração muitas vezes desalinhada com a responsabilidade e complexidade do trabalho.

Guia – A adesão ao tratamento ainda é um problema relevante no Brasil. De que maneira o farmacêutico pode ser protagonista para melhorar esses índices?

Polacow – O profissional da farmácia é fundamental nesse processo e, para tanto, precisa realizar um aconselhamento farmacêutico personalizado e educativo.

Nesse sentido, algumas ferramentas podem ser aliadas. Entre elas, aquelas voltadas para o monitoramento, como lembretes de horário e acompanhamento de efeitos adversos, por exemplo.

Também é importante para o profissional da área estabelecer vínculos com o paciente, sempre atuando de forma multiprofissional com médicos e outros profissionais.

Outro ponto que não pode ser esquecido nesse processo é a implementação de programas de apoio como revisão da terapia medicamentosa e acompanhamento de crônicos.

Guia – Que conquistas recentes do CRF-SP você destacaria como fundamentais para o fortalecimento da profissão no cenário atual?

Polacow – Alguns pontos foram bastante relevantes entre as conquistas de 2025 do CRF-SP. Destacaria, entre eles, o fortalecimento da fiscalização para coibir exercício irregular e práticas antiéticas e a criação de campanhas de valorização profissional e divulgação de serviços farmacêuticos à população.

Também implementamos o Advocacy, a fim de angariar melhores condições de trabalho e reconhecimento da atuação clínica; e estabelecemos programas de educação continuada e parcerias com instituições de ensino.

Guia – O que o Conselho enxerga como prioridades e principais lutas para 2026?

Polacow – Para este ano, uma das lutas principais será a regulamentação da remuneração de serviços farmacêuticos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e planos de saúde.

Também está no radar da entidade o combate à precarização do trabalho e pressão por metas comerciais abusivas e a ampliação da atuação clínica com respaldo legal e suporte das entidades.

Outro tema que está na agenda do CRF-SP é a integração do farmacêutico na rede de atenção primária e em equipes multiprofissionais.

Guia – A tecnologia tem mudado drasticamente a prática farmacêutica, desde o uso de Inteligência Artificial (IA) até plataformas de cuidado. Como você avalia o impacto dessas transformações no dia a dia do profissional?

Polacow – Vejo que as ferramentas de IA e softwares auxiliam no manejo de terapias, interações e alertas clínicos. Mas não para por aí. Outras tecnologias passaram a ser aliadas do profissional da farmácia, como plataformas de telefarmácia, que ampliam o acesso ao cuidado; e automação de processos, a fim de liberar tempo para atividades clínicas.

Mas em todo esse processo, existe um grande desafio: o de conseguir o equilíbrio entre tecnologia e humanização do atendimento.

Guia – Muitos farmacêuticos relatam dificuldades em conciliar demandas administrativas, metas e o exercício pleno de suas atividades clínicas. Como o Conselho aconselha os profissionais da área para esse equilíbrio com o setor?

Polacow – De fato, essa é uma realidade de muitos profissionais da área e um dos pontos cruciais para esse processo está na organização e priorização, destinando horários específicos para atividades clínicas.

Também vejo a importância de buscar apoio da gestão para definir metas realistas e compatíveis com a prática ética.

Nessa jornada, como já citamos, a tecnologia pode ser uma grande aliada, agilizando processos burocráticos. E tudo isso precisa ser complementado com capacitação contínua, com foco em gestão para otimizar tempo e recursos.

Guia – O atendimento clínico nas farmácias está cada vez mais robusto. Quais competências o farmacêutico precisa desenvolver para acompanhar esse movimento e se diferenciar no mercado?

Polacow – De fato, o atendimento clínico cresce entre as farmácias do Brasil e passa a exigir do farmacêutico algumas competências para um atendimento bem-sucedido.

Esse papel exige do profissional da área habilidades de comunicação e empatia, além de conhecimento clínico atualizado, considerando farmacoterapia, doenças crônicas, farmacogenômica.

Capacidade de raciocínio clínico e tomada de decisão, gestão de serviços e saúde digital e trabalho em equipe multiprofissional são outras habilidades importantes nesse cenário.

Guia – Quais são as expectativas para o futuro da profissão? Podemos esperar uma atuação cada vez mais orientada ao cuidado?

Polacow – Sim, a tendência é de uma atuação cada vez mais centrada no paciente, com foco em prevenção, cuidado continuado e personalização.

Pode-se esperar, assim, a ampliação de serviços clínicos remunerados; maior integração com saúde digital e big data; e consolidação da farmácia como ponto de cuidado na comunidade.

Guia – Neste Dia do Farmacêutico, qual mensagem você deixaria para os profissionais que atuam no varejo, muitas vezes na linha de frente do cuidado à população?

Polacow – Parabéns a todos os farmacêuticos que, na linha de frente, transformam vidas por meio do cuidado, da ciência e da humanização. Seu papel é essencial para a saúde da população.

Sigam inspirando confiança, promovendo saúde e elevando cada vez mais nossa profissão. Valorizem-se, capacitem-se e lembrem-se: vocês fazem a diferença!

Foto: Shutterstock

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Kathlen Ramos

Formada em jornalismo pela Universidade Metodista de São Paulo, atua na área há mais de mais de 25 anos, sendo especializada nas áreas de saúde, varejo, beleza e negócios.

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