
O crescimento do e-commerce farmacêutico é uma realidade global, mas as evidências internacionais indicam que o fenômeno representa, até agora, uma migração de canal, e não a substituição das redes físicas de farmácias.
Essa é a principal conclusão de relatório setorial do BTG Pactual, divulgado em 25 de setembro de 2026, que analisa as experiências dos Estados Unidos, México e Europa para avaliar os riscos e as oportunidades do comércio eletrônico para o varejo farmacêutico brasileiro.
O modelo americano
Nos Estados Unidos, o e-commerce farmacêutico avançou de forma consistente, mas as grandes redes responderam ao movimento transformando suas estruturas físicas em plataformas omnichannel de atendimento e infraestrutura de saúde, em vez de ceder espaço às plataformas digitais puras.
O relatório cita o exemplo da CVS, que dispensou aproximadamente 28,5% de todas as receitas do varejo americano em 2025, ante 27,2% em 2024, mesmo diante da concorrência de farmácias por correspondência e da expansão da Amazon Pharmacy.
A rede segue operando cerca de 9.000 unidades físicas integradas à sua oferta digital. A Walgreens adotou estratégia semelhante, integrando seu aplicativo às recargas de receitas e oferecendo ao cliente a escolha entre retirada na loja, drive-through ou entrega em domicílio.
Segundo o relatório, a Amazon representa um concorrente incremental relevante, especialmente para receitas planejadas e repetidas, mas a experiência americana não indica que grandes plataformas generalistas de e-commerce eliminam necessariamente as vantagens competitivas das redes farmacêuticas já estabelecidas.
O cumprimento de receitas envolve regulação, interação com farmacêuticos, infraestrutura de reembolso e, frequentemente, necessidade de consumo imediato, o que mantém as lojas físicas como pontos de distribuição local.
A experiência europeia
A Europa oferece o exemplo mais claro do potencial disruptivo do e-commerce farmacêutico, mas também de suas limitações. A Alemanha é o caso mais relevante: o país opera farmácias online há mais de duas décadas e adotou a receita eletrônica nacional em 2024, o que removeu uma das principais barreiras para a compra digital de medicamentos prescritos.
Os dados do Escritório Federal de Estatísticas da Alemanha mostram que 21% da população entre 16 e 74 anos adquiriu medicamentos ou suplementos pela internet em 2024, ante 16% em 2021.
No segmento de medicamentos sem prescrição (OTC), o impacto foi mais expressivo: segundo a Associação Alemã de Farmácias (ABDA), as farmácias por correspondência capturaram 22,7% das vendas alemãs de medicamentos OTC em 2024, gerando receita de 1,88 bilhão de euros, ante 6,42 bilhões de euros das farmácias comunitárias.
Contudo, no segmento de medicamentos prescritos, o cenário é muito diferente. Apesar de o modelo de farmácia online estar disponível desde 2004, as farmácias comunitárias ainda detinham 98,6% dos gastos farmacêuticos do seguro de saúde obrigatório em 2024, contra apenas 1,4% das farmácias estrangeiras por correspondência.
O relatório aponta ainda que o rápido crescimento online não resultou em amplo fechamento de farmácias físicas: a Alemanha contabilizava 16.601 farmácias comunitárias ao final de 2025, uma queda de 2,6% em relação ao ano anterior, atribuída pela ABDA principalmente à economia de remuneração das farmácias, e não ao e-commerce.
O precedente mexicano
O México é considerado pelo relatório o precedente mais próximo para avaliar o risco que o Mercado Livre poderia representar para as redes farmacêuticas brasileiras. O MELI já permite medicamentos prescritos em seu marketplace no país, mas o mercado farmacêutico mexicano permanece fortemente controlado pelas redes incumbentes.
Dados auditados do mercado farmacêutico privado mexicano referentes aos 12 meses até fevereiro de 2026 mostram que o país contava com cerca de 41.400 pontos de venda farmacêuticos.
As redes nacionais responderam por 52% das vendas farmacêuticas, embora representem apenas 18% dos pontos de venda; farmácias independentes responderam por 20% das vendas; supermercados, por 17%; e redes regionais, por 11%.
O relatório destaca que a Farmacias Guadalajara sozinha atingiu 26% de participação de valor em 2025, ante 20% em 2020, sugerindo que a digitalização até agora coincidiu com maior concentração em torno dos incumbentes líderes. A rede chegou a 3.084 lojas no segundo trimestre de 2026, com crescimento de vendas de 6,5% ao ano.
E-commerce farmacêutico no Brasil
O relatório avalia que o maior risco para as principais redes farmacêuticas brasileiras não é a substituição imediata de lojas, mas a erosão gradual da propriedade do tráfego digital e de sua rentabilidade, caso o MELI se torne um gateway relevante para compras farmacêuticas.
O risco se tornou mais concreto na semana da publicação: o MELI anunciou que sua farmácia própria em São Paulo passará a vender medicamentos prescritos e que farmácias de terceiros entrarão em seu marketplace a partir de outubro, com prazo de entrega estimado em 60 minutos.
Diante desse cenário, o relatório aponta que a Raia Drogasil (RD) parte de uma posição mais sólida do que muitos incumbentes internacionais quando enfrentaram desafios semelhantes. As vendas digitais da companhia atingiram 3,9 bilhões de reais no segundo trimestre de 2026, com alta de 52% em relação ao mesmo período de 2025, representando 31% da receita do varejo, com 83% dessas vendas realizadas pelo próprio aplicativo. Além disso, 96% dos pedidos digitais são entregues ou retirados em até 60 minutos.
Segundo o relatório, o MELI pode pressionar os custos de aquisição de clientes, a transparência de preços, a economia de produtos OTC e de higiene pessoal e cuidados (HPC), e potencialmente taxas de publicidade e marketplace.
Com o tempo, pode se tornar um importante agregador de tráfego farmacêutico. Porém, a RD já possui o que redes internacionais levaram anos para construir: uma grande audiência digital proprietária combinada a cerca de 3.700 pontos de distribuição local e entregas muito rápidas.
A conclusão do relatório é de que o MELI parece menos uma ameaça existencial à infraestrutura farmacêutica da RD e mais uma potente nova camada de distribuição e descoberta, competindo com a rede pela propriedade do cliente digital.
Fonte: Guia da Farmácia
Foto: Shutterstock
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