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Medicamentos

Entenda os perigos das canetas emagrecedoras ilegais

Por Guia da Farmácia 23 de janeiro de 2026 Atualizado em: 21 de janeiro de 2026 Nenhum comentário 7 Minutos de leitura
Farmácias-passam-a-reter-receita-de-canetas-emagrecedoras

Uma mulher de 42 anos, moradora de Belo Horizonte, segue internada desde dezembro em estado grave após apresentar complicações associadas ao uso de uma caneta emagrecedora comercializada de forma irregular. O caso evidencia os perigos das canetas emagrecedoras adquiridas de forma ilegal.

De acordo com familiares, a auxiliar administrativa Kellen Oliveira Bretas Antunes utilizou o medicamento, trazido do Paraguai, sem orientação ou prescrição médica.

O quadro começou com fortes dores abdominais, que motivaram a internação. Com o passar dos dias, porém, o estado de saúde se agravou e passou a envolver alterações neurológicas.

A suspeita dos médicos é de que ela tenha desenvolvido uma síndrome capaz de comprometer a musculatura, os movimentos, a fala e o funcionamento de diferentes órgãos.

Especialistas ouvidos pelo g1 explicam que esse tipo de evolução não é incomum quando o produto usado não segue padrões farmacêuticos básicos. Em análises de canetas emagrecedoras vendidas fora da rede regular, especialistas inclusive já identificaram substâncias diferentes das que deveriam compor o medicamento.

Segundo a doutora em endocrinologia Maria Fernanda Barca, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), em outros casos, análises laboratoriais revelaram:

  • soluções com pureza muito abaixo do aceitável,
  • frascos sem esterilidade mínima,
  • insumos de origem desconhecida,
  • tentativas de imitar a concentração usada pela indústria sem qualquer precisão técnica,
  • presença de sibutramina, proibida para uso injetável.

Muitos dos danos começam, segundo ela, na cadeia de produção: essas canetas são feitas em ambientes que não seguem normas de assepsia, com matérias-primas baratas e dificilmente rastreáveis. Os frascos superconcentrados, vendidos para múltiplos pacientes, ainda ampliam o risco de contaminação.

Endocrinologista do Hospital Israelita Albert Einstein e do Instituto Cohen, Clayton Macedo confirma a gravidade. Em testes independentes, diz, frascos vendidos como tirzepatida (o princípio ativo do Mounjaro) apresentaram purezas entre 7% e 14%, quando o medicamento real exige 99%.

“É outra substância. É um composto instável. Não se comporta como tirzepatida e não tem como gerar o efeito terapêutico esperado”, explica.

A fronteira entre manipulação e ilegalidade

O Brasil permite, sim, a manipulação de tirzepatida. Mas isso não significa que tudo o que se vende por aí seja legal. A Anvisa fixa condições rígidas, que incluem:

  • insumo com pureza comprovada;
  • rastreabilidade total da cadeia de origem;
  • manipulação em ambiente estéril, com controle microbiológico;
  • frascos produzidos sob demanda, para um único paciente;
  • proibição de estoque e de produção seriada;
  • necessidade de prescrição individual.

Nada disso é mero protocolo. Quando uma farmácia manipula sem cumprir esses critérios, cria-se uma preparação irregular.

“Quando o produto sequer contém tirzepatida — ou traz ingredientes não declarados — estamos diante de falsificação”, diz Barca.

Especialistas afirmam que o mercado clandestino opera justamente nessas duas zonas proibidas. Quase nunca há rastreabilidade. Quase nunca há controle de esterilidade. Quase nunca há pureza adequada. E quase nunca existe apenas um paciente por frasco — o que abre caminho para diluições improvisadas, contaminações e dosagens completamente erradas.

Para o consumidor, essa diferença é invisível. Para o organismo, decisiva.

‘Parecia sarampo’

A aposentada Ivete de Freitas, 69 anos, viveu outra face desse mercado. Embora tivesse uma prescrição legítima de Mounjaro, se deixou levar pela promessa de economia feita por amigas.

Um conhecido disse que “importava da Argentina” e ofereceu uma carona no pedido — tudo por um preço bem mais baixo que o da farmácia. O frasco chegou sem nome comercial, apenas com uma composição impressa. Mesmo desconfiada, aplicou.

Minutos depois, seu corpo começou a se encher de placas vermelhas.

“Parecia sarampo, subiu da cintura para o pescoço. À noite piorou.”

Ivete ainda fez a aplicação mais quatro vezes, e só interrompeu quando percebeu que os sintomas cutâneos e o mal estar se intensificaram.

A médica que a acompanha confirmou que o quadro poderia ter sido ainda mais grave. Outras reações comuns em pacientes, afirma Barca, envolvem surtos psicóticos e diverticulite. Em casos mais graves, há risco de morte.

Perigos das canetas emagrecedoras ilegais para o corpo

 Quando a tirzepatida não segue os padrões farmacêuticos — seja por manipulação irregular, falsificação ou importação sem controle sanitário — o corpo é o primeiro a reagir. A molécula é sensível, exige pureza alta e ambiente estéril. Fora disso, os efeitos podem ser imediatos ou acumulativos.

Reações gastrointestinais violentas são as mais frequentes. Vômitos persistentes, náuseas incapacitantes, diarreia intensa, desidratação e queda abrupta de pressão. Não são efeitos do medicamento original — são resultado de impurezas, solventes inadequados ou degradação térmica da molécula.

O risco de infecções também aumenta. Soluções feitas sem esterilidade podem introduzir bactérias no tecido subcutâneo, causando abscessos, inflamação local, febre e, em casos graves, infecção sistêmica. Vermelhidão súbita, placas ou manchas pelo corpo — como as que apareceram em Ivete — costumam indicar contaminação microbiológica ou reação a substâncias que não deveriam estar ali.

Alterações na composição química podem levar a quadros neurológicos e cardiovasculares. Tontura intensa, palpitações, taquicardia, arritmia, picos de pressão arterial e dor de cabeça incapacitante. Quando um produto clandestino contém estimulantes ou resíduos químicos desconhecidos, o sistema nervoso reage com imprevisibilidade.

Há ainda o risco silencioso das doses erradas. Produtos falsificados ou manipulados sem precisão podem entregar concentrações muito acima ou muito abaixo do necessário. Concentrações elevadas podem provocar hipoglicemia, mal-estar súbito e confusão mental. Concentrações baixas simplesmente não funcionam, levando o paciente a aumentar a dose por conta própria — ampliando ainda mais o perigo.

A degradação térmica é outro ponto crítico. Sem cadeia fria, a molécula perde estabilidade e pode se fragmentar. O corpo passa a reagir não à tirzepatida, mas aos seus subprodutos, que podem irritar o tecido, desencadear alergias e causar reações adversas que não existem no medicamento original.

E há o risco menos óbvio, mas igualmente grave: a falsa sensação de tratamento. Quem usa um produto clandestino acredita estar protegido, quando na verdade segue com diabetes ou obesidade sem controle adequado. Esse atraso terapêutico tem impacto direto em risco cardiovascular, resistência à insulina, pressão arterial e progressão da doença.

O que diz a fabricante

Procurada pelo g1, a Eli Lilly — fabricante do Mounjaro — afirma que não produz, não comercializa e não autoriza a fabricação do medicamento em farmácias de manipulação, nem a venda de produtos a granel, fracionados ou reenvasados.

Segundo a empresa, qualquer solução líquida vendida como tirzepatida fora dos canais oficiais deve ser considerada falsificada.

Em nota, a farmacêutica declarou que já identificou, em análises conduzidas nos últimos meses, ampolas clandestinas contendo substâncias desconhecidas, além de presença de impurezas, ausência completa de tirzepatida e até misturas com outros ativos, como estimulantes e derivados não declarados.

“A integridade química e microbiológica desses produtos não pode ser garantida. Não há controle de qualidade, esterilidade, cadeia fria nem rastreabilidade da origem dos insumos”, informa.

A Lilly também afirma que não existe versão em ‘caneta avulsa’, frascos multidoses ou apresentações vendidas por atravessadores — e que o Mounjaro legítimo só é distribuído em canetas descartáveis, seladas e rastreáveis, mediante prescrição médica.

Fonte: G1

Foto: Shutterstock

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Estudo da USP alerta sobre uso estético de canetas emagrecedoras

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