
O comércio via delivery ou e-commerce nas farmácias disparou após a abertura a esse segmento. Considerando as 29 associadas das Associação Brasileira das Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma), os pedidos à distância cresceram 57,7% no ano passado, movimentando R$ 22,6 bilhões. Praticamente duas de cada dez vendas realizadas pelo setor chegaram diretamente na porta do consumidor, nos cálculos da associação.
Os números refletem uma mudança no comportamento do consumidor, que cada vez mais incorpora o digital. Nos grandes grupos, a porcentagem é ainda maior. “Na Panvel, estamos próximos de 30% das vendas via canais digitais”, afirma Raphael Monteiro, diretor de digital e cliente da rede.
Estratégia omnichannel
Vendas fora do local físico são parte de uma estratégia omnichannel das redes que inclui delivery terceirizado, entregas via iFood e compras em apps ou sites em que o cliente retira o pedido já pago.
Na RD Saúde – que compreende Drogasil e Raia e que também tem seu patamar de vendas digitais próximo a 30% -, essa última modalidade representa 70% das vendas digitais. “Essas três formas consolidaram-se como a principal alavanca de conveniência e recorrência, refletindo a forma como o cliente frequente já combina atendimento físico e digital”, diz Diego Kilian, diretor de multicanal da RD Saúde. Em 2025, as vendas digitais subiram 78% em relação a 2024.
As entregas em até uma hora representam outros 27%. Esse é um efeito pós-pandemia – a opção foi criada em 2022 e vale para compras acima de R$ 30, mais R$ 7,90 de frete. “Em algumas regiões, já atendemos em esquema 24 horas. Quem compra um medicamento por delivery geralmente tem urgência para receber esse tipo de produto para aliviar uma dor, uma febre, um sintoma ou porque não pode sair de casa e deixar um bebê, uma criança ou um idoso sozinho para ir à farmácia”, afirma Kilian.
Entrega Express
Na DPSP, que engloba Drogarias Pacheco e a Drogaria São Paulo e que também adota a estratégia omnichannel, cerca de um terço das vendas digitais são realizadas por meio de entregas via delivery. O grupo oferece Entrega Express, com prazo de até 2 horas. “Esse modelo também fortalece o papel da loja física, que passa a atuar como uma prateleira infinita, conectada ao ecossistema digital e contribuindo diretamente para a expansão do delivery de produtos farmacêuticos”, explica Lucas Menezes, vice-presidente comercial, digital e marketing do grupo.
Inovações porta para dentro contribuem para uma entrega mais rápida. A paranaense Drogamais, de Bandeirantes, com mais de 230 lojas no Estado, instalou um robô que “acha” o medicamento nas prateleiras e o dispensa para o farmacêutico em 10 segundos. A BD Rowa, empresa de tecnologia médica que criou o sistema, afirma que já tem 16 robôs distribuídos entre farmácias de varejo, hospitais e centros de distribuição em sete Estados brasileiros.
Tempo de operação
Um deles, instalado no Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo, diminuiu o tempo de separação de medicamentos em até 90%. No caso da Drogamais, foi implementado também um módulo externo de retirada, permitindo a compra on-line e a retirada, pelo consumidor ou entregador, a qualquer momento, via QR Code. “Essa loja foi a primeira operação no Brasil com esse formato de autoatendimento integrado à automação de dispensação”, diz a BD Rowa. O investimento é de aproximadamente R$ 1,5 milhão em modelos mais simples de robôs.
O iFood se destaca como canal parceiro complementar na estratégia das farmácias, principalmente em momentos de demandas mais imediatas dos clientes, mas com restrições. “Quem entrega medicamentos tem de fazer uma gestão de responsabilidade regulatória. Devido à complexidade técnica – como controle térmico e logística de receitas -, não disponibilizamos todo nosso mix de medicamentos em marketplaces externos”, diz Priscila Braga, diretora de digital da rede Pague Menos, que tem 20% de seus pedidos em canais digitais entregues por delivery. No último trimestre de 2025, houve um ganho de 55% nessas vendas, que ela aponta como sintoma de alta contínua do delivery como forma de venda, “apesar da dificuldade da validação técnica do produto farmacêutico, que, por enquanto, não é possível automatizar 100%”.
Normas sanitárias
Enquanto o transporte de alimentos foca em segurança alimentar com o intuito de evitar contaminações, o de medicamentos é regido por normas sanitárias mais estritas, como rastreabilidade rigorosa, documentação detalhada, logística reversa e controle de temperatura e umidade.
A Raia e a Drogasil entregam medicamentos controlados apenas na cidade de São Paulo. A farmácia precisa receber a via original da prescrição médica antes da entrega. Se a receita for digital com assinatura eletrônica válida (ICP-Brasil), o processo é eletrônico e mais rápido. Se for física, com retenção, ela precisa ser retirada ou enviada antes pelo motoboy/delivery, com aumento de custo.
Fonte: Valor Econômico
Foto: Shutterstock
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