A recente norma que autoriza a comercialização de similares intercambiáveis com medicamentos de referência introduziu um componente a mais na difícil concorrência no mercado de produtos genéricos. Apesar de desfrutar números expressivos e de se tornar o carro-chefe do setor farmacêutico, em expansão – fechando o ano passado com alta de 18,5% em faturamento e de 10,6% em vendas unitárias, o setor de genéricos se defronta, pela primeira vez no País, com um futuro menos promissor, considerando a taxa de crescimento anual superior a 25% ao ano em quantidade que o segmento obteve nos últimos dez anos. Como consequência, de 2004 a 2014 a participação dos genéricos no mercado farmacêutico brasileiro saltou de cerca de 9% para 28% das unidades comercializadas. As perspectivas do segmento, contudo, estão atingindo um limite para grandes saltos, uma vez que o volume de patentes de produtos de referência considerados blockbusters, isto é, campeões de venda, está em declínio.
Entre 2008 e 2012, diversos medicamentos de referência líderes em venda perderam a proteção patentária no mundo, oferecendo oportunidade expressiva para a inserção de genéricos. Nesse período, o valor das patentes vencidas alcançou US$ 149 bilhões apenas para os produtos de síntese química, com destaque para o Lipitor (atorvastatina) e o Viagra (citrato de sildenafila), ambos da Pfizer. O auge desse movimento ocorreu em 2012, ano em que mais de 40 medicamentos de referência perderam a proteção de patentes, com valor de vendas de US$ 50 bilhões. No Brasil, de 2008 a 2013 pelo menos 15 blockbusters tiveram suas patentes vencidas. Somadas, as receitas anuais desses 15 medicamentos atingiram R$ 1 bilhão. Contudo, a perspectiva para o período 2013-2017 é de uma redução no número de medicamentos de síntese química com patente a expirar, alcançando pouco mais de 120 bilhões de dólares em valor de mercado, montante 20% inferior em relação ao período anterior.
Esse novo cenário vem alterando a estratégia das empresas com maior portfólio do segmento. Diversificar tem sido a alternativa na maioria dos laboratórios, sobretudo naqueles muito focados em genéricos, para garantir a rentabilidade do negócio. Alguns deles estão investindo em medicamentos inovadores, outros ensaiam entrar na área de biológicos e a maioria aposta nos similares.
Atuação dos fabricantes
Gigantes do setor, como EMS, maior produtor de genéricos do País, têm apostado na diversificação da linha. O mesmo acontece, em maior ou menor intensidade, em empresas como Eurofarma, Aché, Teuto e União Química. Estudo denominado O novo cenário de concorrência na indústria farmacêutica brasileira, realizado pelos pesquisadores do Departamento de Produtos para Saúde da Área Industrial do Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDES), Renata Gomes, Vitor Pimentel, Márcia Lousada e João Paulo Pieroni, aponta as mudanças em curso no segmento de genéricos. “Embora as perspectivas desse setor ainda sejam bastante positivas, um cenário de concorrência mais agressiva se desenha para os próximos anos. Tanto as pressões no portfólio, com a redução das oportunidades para desenvolver novos genéricos e as mudanças regulatórias nos medicamentos similares; quanto os preços, em função da consolidação das redes de varejo e do aumento de relevância dos pagadores institucionais, devem afetar as margens da indústria, levando-a a adotar comportamentos competitivos”, diz a pesquisa.
Parâmetros comerciais
Outro aspecto que influencia a rentabilidade das empresas com os genéricos está relacionado com a política de descontos praticada no mercado. Medicamentos de referência, similares e genéricos lançam mão de estratégias de comercialização bem distintas. Para medicamentos de referência e similares, o médico é o alvo da propaganda e a escolha se dá pela marca; no caso dos medicamentos genéricos, o foco é o ponto de venda ou de distribuição e a escolha é feita por princípio ativo. Por esse motivo, se houver vários genéricos para uma mesma molécula, todos intercambiáveis, a competição no segmento é naturalmente maior. A fim de garantirem as vendas e avançarem em participação de mercado, os laboratórios passaram a adotar, como principal estratégia, a política agressiva de reduções nos preços, principalmente na rede de varejo. Segundo o estudo do BNDES, a média de descontos vem crescendo de forma significativa nos últimos anos – alcançando mais de 60% em 2012 – em determinados medicamentos genéricos, os descontos chegam a 90%. “Esse tipo de competição, em alguns casos predatória, parece estar chegando ao limite. Se, por um lado, a simples manutenção de descontos agressivos torna-se inviável no longo prazo; por outro, o aumento dos custos de produção, principalmente em matéria-prima e mão de obra, vem pressionando ainda mais a margem de lucro das empresas”, aponta o estudo. “Nesse cenário, em busca de maior previsibilidade e estabilidade de margens e de rentabilidade anual, empresas líderes de vendas começam a rever não apenas suas estratégias comerciais, formando parcerias ou reduzindo descontos, mas também suas estratégias de portfólio, diversificando o mix de produtos e reduzindo a dependência de genéricos.”
Índices positivos
Vale observar que muitos analistas do setor não acreditam ter chegado a uma saturação do mercado de genéricos no Brasil, pois há ainda muito espaço para crescer. Se comparado a mercados maduros, como o dos Estados Unidos, da Alemanha, do Japão, onde a participação de mercado dos genéricos atinge entre 60% e 80% do total em quantidade, espera-se que o segmento de genéricos continue a liderar o crescimento do mercado brasileiro, podendo representar entre 35% e 40% das vendas totais até 2020. “Os genéricos encerraram 2014 com 28% de participação de mercado, contra 27% no final de 2013. A expectativa é fechar 2015 com 30% de participação”, afirma a presidente da Pró Genéricos, Telma Salles. “Com preços, em média, 60% inferiores aos de produtos de referência, os genéricos ganham ainda mais relevância em cenários de economia estagnada e risco de comprometimento na renda”, esclarece Telma. “Os genéricos seguirão ocupando seu espaço. São os únicos produtos que, de saída, já são 35% mais em conta”, finaliza.
Genéricos inéditos 2014/2015 (até março de 2015)
| ATIVO Sulfato de atazanavir Micofenolato de sódio Fumarato de tenofovir desoproxila + lamivudina Fulvestranto Everolimo Candesartana cilexetila + hidroclorotiazida Cloridrato de nalbufina Etoricoxibe Cloridrato de raloxifeno Tadalafila Voriconazol Temozolamida Ertapeném sódico Nitazoxanida Cloridrato de moxifloxacino Ciclesonida Baclofeno Dienogeste Pitavastatina Estradiol + didrogesterona (1 mg + 5 mg) Estradiol + didrogesterona (1 mg + 0 mg e 1 mg + 10 mg) | MÊS DO REGISTRO Janeiro de 2014 Fevereiro de 2014 Março de 2014 Abril de 2014 Maio de 2014 Junho de 2014 Junho de 2014 Julho de 2014 Setembro de 2014 Outubro de 2014 Outubro de 2014 Novembro de 2014 Novembro de 2014 Dezembro de 2014 Janeiro de 2015 Janeiro de 2015 Janeiro de 2015 Janeiro de 2015 Janeiro de 2015 Março de 2015 Março de 2015 |
Com preços, em média, 60% inferiores aos de produtos de referência, os genéricos ganham ainda mais relevância em cenários de economia estagnada e risco de comprometimento na renda
Os genéricos seguirão ocupando seu espaço. São os únicos produtos que, de saída, já são 35% mais em conta
Fonte: Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa)
“Embora a taxa de crescimento dos genéricos esteja diminuindo ao longo dos anos, esse segmento continua expandindo a um ritmo superior ao do mercado farmacêutico total e sabemos que existem muitas oportunidades a serem exploradas por essa categoria de medicamentos”, avalia o gerente de produto da Cimed, Leonardo Silva. “Se compararmos a penetração dos genéricos no Brasil com a de mercados mais maduros, as oportunidades ficam ainda mais evidentes”, revela o executivo, lembrando que 2014 foi um ano muito proveitoso para Cimed, pois a empresa manteve o crescimento de dois dígitos. “Em 2015 há muitas expectativas, pois teremos lançamentos importantes. Estamos investindo na ampliação da capacidade fabril para atender à crescente demanda por nossos produtos. Pretendemos aumentar o portfólio, investindo ainda mais no nosso instituto para pesquisa e desenvolvimento de produtos”, revela Silva.

Novos produtos
Na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), em 2014 foram realizados 368 registros novos na área de medicamentos. Desse total, 158 eram de genéricos, sendo 23 inéditos, 78 de similares, 40 de biológicos, 13 de fitoterápicos e 44 de inovadores (medicamentos que não existiam no País). Somente nos primeiros meses de 2015, foram aprovados mais sete genéricos inéditos: cloridrato de moxifloxacino, ciclesonida, baclofeno, dienogeste, pitavastatina e dois novos compostos feitos com a associação estradiol e didrogesterona. Genéricos inéditos são medicamentos que substituem os produtos de referência para os quais, até então, não havia concorrentes desse tipo. Esta parece ser uma nova forma de atuação da Anvisa a fim de agilizar o acesso da população a produtos inovadores. “Há algum tempo a Anvisa vem trabalhando com o intuito de priorizar os medicamentos mais relevantes para a população. Está muito claro que registrar um genérico inédito é mais importante que aprovar um produto que já possui diversos concorrentes no mercado”, afirma a Anvisa. “É importante esclarecer que o conceito de prioridade para genéricos inéditos não engloba apenas o primeiro produto, mas os três primeiros, o que permite que em pouco tempo um mercado tenha quatro concorrentes em vez de apenas um”, completa a assessoria da Anvisa.