
A gravidez traz desafios e transformação no corpo, visto que vários órgãos e sistemas serão mais exigidos e, para uma gestação saudável, precisam estar em adequado funcionamento. Isso significa que o ideal, para uma boa gravidez, é estar saudável já antes de engravidar.
“Tanto a gestação quanto o parto também vão exigir maior preparo físico. O bebê, a placenta, entre outros, associados ao acúmulo de líquido, tornam o corpo mais pesado. Portanto, estar em bom preparo físico pode minimizar os desconfortos. O excesso de peso tem relação com mais complicações, como: abortamentos, malformações, hipertensão, diabetes, entre outras. Soma-se a isso o fato de a gestação não ser período recomendado para perda de peso. Dessa forma, o ideal é minimizar esse problema antes da concepção”, explica o coordenador médico de obstetrícia do Hospital Albert Einstein, Dr. Romulo Negrini.
A ginecologista especialista em medicina fetal do Salomão Zoppi, Dra. Rita de Cássia Alam Machado, complementa que faz parte da avaliação inicial rever o histórico de saúde da mulher e realizar alguns exames básicos. É importante ter os exames ginecológicos em dia, além de excluir, por meio de exames complementares, eventuais alterações da tireóide, anemia e diabetes mellitus, além da pesquisa de doenças infectocontagiosas, como rubéola, toxoplasmose e HIV.
Algumas orientações são pertinentes nesta avaliação pré-concepcional. Entre elas, a revisão de medicamentos de uso prolongado, hábitos de saúde e orientações sobre o uso do ácido fólico.
“O ácido fólico é uma vitamina do complexo B e é importante, principalmente, nos três primeiros meses de gestação, quando ocorre a formação do bebê. Estudos têm associado à suplementação de ácido fólico à redução de risco de eventos, como anencefalia, meningomielocele e encefalocele”, afirma a médica.
NA GRAVIDEZ
Uma vez que a gravidez seja reconhecida, é preciso se iniciar imediatamente o pré-natal. “Parece algo um tanto quanto abstrato, mas o pré-natal consiste em conjunto de avaliações periódicas estruturadas, variável conforme cada condição, que permite assegurar, tanto quanto possível, a saúde da mãe e do bebê”, explica o Dr. Negrini.
Mais que nunca, diz ele, atenção à alimentação é fundamental. Na gravidez, os nutrientes são absorvidos de forma muito rápida e longos períodos sem ingestão alimentar podem vir acompanhados de queda da glicemia e consequente sensação de mal-estar. Então, além das refeições principais, é preciso ingerir algo nos intervalos.
Isso não significa comer em grande quantidade. Diferentemente do que muitos afirmam, gravidez não significa “comer por dois”. Não obstante a isso, o ganho excessivo de peso pode ter consequências, sendo que as mais frequentes são diabetes gestacional e aumento da pressão arterial.
O consumo de alimentos variados, como carnes, peixes e leguminosas, ampliam a gama de nutrientes disponíveis.
“Sabemos que 88% das gestações evoluem de forma normal, necessitando apenas de acompanhamento acolhedor e multidisciplinar, com foco nos cuidados e orientações de saúde. A gestação é um momento de profundas alterações fisiológicas e emocionais, necessitando de apoio e suporte. Os cuidados e orientações básicos incluem informações sobre a alimentação, atividades físicas adequadas ao período e perfil da mulher, uso adequado de medicações e outros. Além disso, também é função do pré-natal avaliar a gestante e identificar doenças crônicas prévias eventualmente desconhecidas, bem como identificar fatores de risco para complicações específicas da gestação”, complementa a Dra. Rita de Cássia.
De acordo com o Dr. Negrini, a prática de exercícios, aeróbicos ou não, em carga não superior ao habitual pré–gestação, é bem-vinda (salvo contraindicação médica), pois melhora a respiração, o tônus muscular e a função cardíaca de modo a reduzir dores da gravidez e facilitar o processo de parto.
“Algumas vacinas podem e devem ser atualizadas na gravidez, como a da hepatite B. Também é aconselhável que todas as gestantes recebam dose de vacina tríplice bacteriana acelular para transmissão de anticorpos contra coqueluche ao bebê, a fim de melhorar sua proteção nos primeiros meses de vida”, alerta o médico.
No quesito da alimentação, muitas vezes, a suplementação é necessária, principalmente de ferro. Matéria-prima para o desenvolvimento fetal e para os glóbulos vermelhos em formação e aumento no sangue da mãe, seus estoques são mobilizados, todavia precisam estar disponíveis para compensação do sangramento que ocorre no momento do parto, segundo o Dr. Negrini.
Minimamente, deve-se consumir 60 mg de ferro diariamente, além da alimentação. Muita atenção deve ser dada a desejos de ingestão de coisas estranhas, não relacionadas a alimentos, como: areia, tijolo ou sabonete. Essa situação pode indicar falta grave de nutrientes neste período.
“Os alimentos em geral não são contraindicados na gravidez. Obviamente não se deve ingerir bebidas alcoólicas nem fazer uso de cigarros, pois não há quantidades comprovadamente seguras dessas substâncias. Bebidas com xantinas, como café, chás e refrigerantes, devem ser evitadas pelo desconforto que causam e, se consumidas, que isso seja feito em quantidade moderada. Alimentos crus, como verduras e legumes, devem ser muito bem lavados para evitar infecções. As carnes precisam estar, preferencialmente, bem passadas”, comenta o Dr. Negrini.
PERIGOS NA GESTAÇÃO
De acordo com a Dra. Rita de Cássia, episódios de sangramento, como a ameaça de abortamento, que costuma ser caracterizada por dor e sangramento, podem ocorrer durante o primeiro trimestre de gestação. A avaliação obstétrica e ultrassonográfica criteriosa e a condução clínica adequada podem reverter estes quadros.
“No início da gestação (até o terceiro mês), o que mais comumente afeta as mulheres são as náuseas e os vômitos. Apesar de desconfortáveis, indicam que as mudanças hormonais estão acontecendo e o prognóstico da gestação é melhor. Alimentação fracionada e alimentos frios e secos, especialmente pela manhã, ajudam a minimizar o problema. Algumas vezes pode ser necessário o uso de medicamentos antieméticos. É preciso procurar atendimento médico se houver perda de peso ou dificuldade de realizar atividades diárias”, complementa o Dr. Negrini.
A partir do quinto mês de gravidez, pode ocorrer a pré-eclâmpsia, doença em que há aumento dos níveis de pressão arterial e acometimento variável de alguns órgãos.
A cura da doença ocorre apenas com o parto, todavia é possível mantê-la controlada com medicações. Entre as possíveis consequências dessa doença estão as convulsões (eclâmpsia), mas elas são precedidas de sintomas, como dor na nuca, desconforto gástrico ou alterações visuais, situações que, em mulheres com pressão elevada, devem indicar procura de atendimento médico imediato.
“As síndromes hipertensivas durante a gestação têm um papel importante nas intercorrências gestacionais. A hipertensão arterial crônica pode complicar cerca de 6% a 8% das gestações e pode ser agravada pela pré-eclâmpsia, sobreposta em 13% a 40% dos casos”, comenta a médica do Salomão Zoppi.
Entre o sexto e o sétimo meses, pode aparecer a diabetes gestacional, diz o Dr. Negrini. Sendo em sua maioria assintomático, o diagnóstico depende de exames complementares, como glicemia ou curva glicêmica, aplicado a todas as gestantes. A adequação da dieta é suficiente para o controle em mais de 50% dos casos, mas é imprescindível o acompanhamento de um médico e um nutricionista. Se bem controlada, a doença não traz grandes consequências.
Finalmente, sangramentos vaginais em fases avançadas da gravidez (após o quinto mês) podem indicar problemas importantes envolvendo a placenta, como inserção em local não habitual (placenta prévia) ou descolamento, devendo ser imediata a procura de atendimento.
“Quadros infecciosos, como infecções do trato urinário, são relativamente frequentes durante a gravidez. As alterações anatômicas e fisiológicas da gestação configuram um ambiente propício à proliferação de microrganismos, sendo importantes a brevidade no diagnóstico e o tratamento”, finaliza a Dra. Rita de Cássia.