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Farmácias perdem até R$ 1,4 bi por ano com medicamentos vencidos; veja soluções

Kathlen Ramos Por Kathlen Ramos 31 de agosto de 2026 Atualizado em: 17 de agosto de 2026 Nenhum comentário 7 Minutos de leitura
medicamentos

O vencimento de medicamentos é o principal fator de perda operacional no varejo farmacêutico brasileiro. Dados da Pesquisa Abrappe 2025, realizada pela Associação Brasileira de Prevenção de Perdas (Abrappe), mostram que 78,98% das quebras operacionais registradas em farmácias e drogarias estão relacionadas à validade de produtos. O número coloca a gestão de vencimento no centro da estratégia de prevenção de perdas do setor.

Em entrevista ao Guia da Farmácia, o presidente da Abrappe, Carlos Eduardo Santos, detalhou os dados da pesquisa, os impactos financeiros do problema e os caminhos para uma gestão mais eficaz.

Perdas por vencimento em números

O setor farmacêutico apresentou índice de perda total de 1,24% do faturamento em 2025, praticamente estável em relação aos 1,25% registrados em 2024 e abaixo da média do varejo brasileiro, de 1,65%. Dentro dessa composição, as quebras operacionais respondem por 0,75 ponto percentual, e o vencimento de medicamentos concentra a parcela majoritária desse resultado.

“Quando quase 8 em cada 10 reais de quebra operacional estão relacionados ao vencimento, validade deixa de ser apenas uma questão operacional e passa a ser uma questão estratégica de rentabilidade”, afirma o presidente da Abrappe, Carlos Eduardo Santos.

Com base nos dados da pesquisa e no faturamento de aproximadamente R$ 241,6 bilhões registrado pelo varejo farmacêutico em 2025, segundo levantamento da consultoria IQVIA encomendado pela Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma), Santos estima que as perdas por vencimento possam representar uma ordem de grandeza de R$ 1,4 bilhão ao ano. “Esse valor é uma estimativa estatística, obtida pela extrapolação dos índices da pesquisa para o faturamento total do setor, e não um valor diretamente auditado pela Abrappe”, ressalva o executivo.

Por derivação dos números da pesquisa, o vencimento responderia por cerca de 48% de toda a perda total do segmento, não apenas das quebras operacionais.

As causas do problema

A Pesquisa Abrappe mensura a dimensão do problema, mas a explicação de suas causas envolve análise técnica de gestão. Santos aponta um conjunto de fatores recorrentes: compras acima da demanda real, erros de previsão, excesso de cobertura de estoque, baixa velocidade de venda, falhas na gestão do sortimento, ausência de controle sistemático de lote e validade, erros na rotação de estoque e baixa integração entre as áreas de compras, supply chain, operação e prevenção de perdas.

Há também um componente frequentemente subestimado pelas farmácias: o momento da decisão de compra. “Muitas vezes, o produto não vence na loja. Ele começa a vencer na decisão de compra”, diz Santos. Segundo o executivo, condições comerciais atrativas podem se transformar em prejuízo se o volume adquirido ultrapassar a capacidade de venda dentro do prazo de validade.

Gestão preventiva e regulamentação

A prevenção de perdas por vencimento de medicamentos pressupõe um ciclo de gestão estruturado. Santos organiza as etapas em sete frentes: planejamento, compra, recebimento, armazenamento, monitoramento, ação e mensuração.

Na prática, isso significa trabalhar com janelas preventivas de validade ajustadas ao giro de cada produto, cruzando data de vencimento, estoque disponível, velocidade de venda e cobertura. “Um produto que vence daqui a seis meses e possui estoque para apenas 30 dias não representa o mesmo risco de outro que também vence daqui a seis meses, mas possui cobertura para dez meses”, exemplifica.

A gestão preventiva também tem respaldo regulatório. A Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) 44/2009, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), determina que a política para produtos próximos ao vencimento esteja prevista nos procedimentos internos da farmácia, incluindo o Manual de Boas Práticas e o Procedimento Operacional Padrão (POP). A norma exige ainda a verificação de validade no momento da dispensação e estabelece regras específicas para a destinação de produtos próximos do vencimento³.

O papel da tecnologia

A tecnologia tem função central na transformação da gestão de vencimento de reativa em preditiva. Segundo Santos, sistemas de gestão com rastreamento de lote, validade, estoque, cobertura e velocidade de venda permitem gerar alertas antes que a perda ocorra. Ferramentas analíticas e de inteligência artificial vão além: em vez de informar apenas que um produto vence em determinado prazo, podem indicar quantas unidades correm risco real de não serem vendidas dentro do prazo, dado o ritmo atual de saída.

“O objetivo é sair da gestão do produto vencido para a gestão do produto com risco de vencer”, define o presidente da Abrappe. Tecnologias como RFID e o Código 2D da GS1 também são citadas pelo executivo como recursos que ampliam o controle e a rastreabilidade, apoiando decisões preventivas com mais precisão.

Indicadores para acompanhar

Santos recomenda que a farmácia acompanhe um conjunto abrangente de indicadores, indo além da simples apuração do que já venceu. Entre os principais estão: perda total sobre vendas; quebra operacional sobre vendas; perda por vencimento sobre vendas; vencimento sobre quebra operacional; valor financeiro das perdas por vencimento; estoque próximo e em risco de vencimento; cobertura de estoque; giro; aging; SKUs sem venda ou de baixo giro; transferências preventivas entre lojas; recuperação por devoluções quando aplicável; e reincidência de SKUs com vencimento.

A pesquisa traz dois indicadores complementares que ampliam a visão sobre o estoque: acurácia quantitativa, que chegou a 97,39% nas farmácias pesquisadas, e ruptura, registrada em 11,17%, sendo 7,27% comercial e 3,90% operacional. A combinação revela um paradoxo frequente no setor: uma mesma farmácia pode perder produtos por vencimento e, simultaneamente, perder vendas por falta de produto. “Boa gestão de estoque não significa necessariamente reduzir estoque. Significa ter o produto correto, na quantidade correta, na loja correta e no momento correto”, conclui Santos.

Checklist de boas práticas com medicamentos

A seguir, Santos apresenta as principais boas práticas para prevenção de perdas por vencimento, organizadas por etapa:

  • Antes de o produto chegar: melhorar a previsão de demanda; parametrizar estoques mínimo e máximo; revisar a cobertura; avaliar histórico de vendas e sazonalidade; controlar compras extraordinárias; avaliar prazo de validade na negociação com fornecedores.
  • Na entrada e no estoque: conferir lote e validade no recebimento; definir prazo mínimo aceitável para recebimento; registrar corretamente lote e validade no sistema; organizar o estoque priorizando a saída dos produtos com vencimento mais próximo; realizar verificações periódicas e manter boa acurácia de inventário.
  • Antes do vencimento: trabalhar com alertas preventivos; cruzar validade, estoque disponível e velocidade de venda; identificar SKUs sem venda e de baixo giro; bloquear ou reduzir novas compras quando necessário; avaliar transferências entre lojas; negociar devoluções com fornecedores quando previsto em contrato; definir responsáveis pelas ações e registrar as decisões.
  • Na gestão contínua: acompanhar o vencimento em reais e em percentual das vendas; fazer análise de Pareto dos maiores ofensores; investigar a causa-raiz de vencimentos recorrentes; monitorar por loja, categoria, SKU e fornecedor; medir reincidências; e manter procedimentos formalizados, com equipe treinada para executá-los.

Para Santos, o número que resume o desafio do setor é o próprio dado da pesquisa: 78,98%. “Ele traduz de maneira muito clara por que a gestão de validade precisa estar no centro da estratégia de prevenção de perdas do setor”, afirma. E o indicador mais relevante, na avaliação do presidente da Abrappe, não é quanto a farmácia perdeu por vencimento, mas quanto do estoque apresenta hoje risco de vencer. “Quando medimos apenas o vencido, estamos olhando para uma perda que já aconteceu. Quando identificamos antecipadamente o estoque em risco, ainda temos tempo para agir e preservar margem.”

Foto: Shutterstock

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Gestão de estoque em farmácias: erros, indicadores e boas práticas

 

Kathlen Ramos
Kathlen Ramos

Formada em jornalismo pela Universidade Metodista de São Paulo, atua na área há mais de mais de 25 anos, sendo especializada nas áreas de saúde, varejo, beleza e negócios.

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