
A Febre do Nilo Ocidental (FNO) é uma arbovirose que tem ganhado atenção crescente no cenário da saúde pública brasileira. Transmitida principalmente por mosquitos do gênero Culex, a doença, embora muitas vezes assintomática, pode evoluir para quadros neurológicos graves, exigindo atenção e estratégias de prevenção eficazes.
Neste contexto, as farmácias e seus profissionais emergem como pontos cruciais na linha de frente da informação, orientação e suporte à vigilância epidemiológica da febre do Nilo Ocidental.
A relevância da doença reside na sua capacidade de causar um espectro de manifestações clínicas. A maioria das pessoas infectadas (cerca de 80%) não desenvolve sintomas. No entanto, aproximadamente 20% dos indivíduos podem apresentar sintomas leves a moderados, como febre, dor de cabeça, dores no corpo, fadiga, náuseas, vômitos e, em alguns casos, erupções cutâneas e inchaço dos gânglios linfáticos¹.
Em uma pequena parcela dos casos (menos de 1%), a FNO pode progredir para quadros neuroinvasivos, como encefalite, meningite ou paralisia flácida aguda, que demandam intervenção médica urgente e podem deixar sequelas permanentes ou até mesmo levar a óbito¹.
Número de casos no Brasil
Em Santa Catarina, foram confirmados dois casos. O primeiro evoluiu para o óbito de uma paciente de 77 anos, moradora de Imbituba. O segundo registro foi de um homem de 56 anos, residente em Caçador, que chegou a ser internado, mas recebeu alta médica2.
Ambos os pacientes apresentaram graves manifestações neurológicas associadas à infecção2.
Já no estado de São Paulo, as autoridades confirmaram dois casos em território paulista. Os registros ocorreram no interior, sendo de uma mulher de 34 anos, moradora de Ribeirão Preto, e uma jovem, de São José do Rio Preto, que está internada sob cuidados médicos2.
A origem do contágio nos dois casos paulistas segue sob investigação pelas equipes de saúde, com diagnósticos confirmados por exames laborais realizados pelo Instituto Adolfo Lutz2.
O ciclo de transmissão e a importância da vigilância
O vírus da Febre do Nilo Ocidental circula naturalmente entre aves silvestres, que atuam como hospedeiros amplificadores, e mosquitos. Os seres humanos e outros mamíferos, como cavalos, são considerados hospedeiros acidentais, o que significa que, embora possam ser infectados, não desenvolvem viremia suficiente para transmitir o vírus a outros mosquitos, interrompendo o ciclo de transmissão².
A vigilância epidemiológica é fundamental para o controle da FNO, especialmente em áreas onde a doença é endêmica ou em surtos. A identificação precoce de casos suspeitos e a realização de testes diagnósticos são etapas essenciais para monitorar a circulação do vírus e implementar medidas de controle vetorial¹.
O diagnóstico específico de cada paciente é crucial, tanto para casos isolados quanto para situações de surtos, permitindo uma resposta rápida e direcionada das autoridades de saúde¹.
Diagnóstico: desafios e especificidades
O diagnóstico da febre do Nilo Ocidental pode ser complexo devido à sobreposição de sintomas com outras arboviroses e doenças febris agudas. O teste mais comum é a detecção de anticorpos IgM contra o vírus do Nilo Ocidental em soro (coletado a partir do 5º dia após o início dos sintomas) ou em líquido cefalorraquidiano (LCR), utilizando a técnica de captura de anticorpos IgM (ELISA)¹.
É importante ressaltar que pacientes recentemente vacinados (contra febre amarela, por exemplo) ou infectados com outros Flavivírus (como Dengue, Zika, Febre Amarela, Saint Louis, Rocio e Ilhéus) podem apresentar resultados de IgM-ELISA positivos devido a reações cruzadas. Nesses casos, outras provas, como a inibição da hemaglutinação, detecção do genoma viral (PCR), isolamento viral e PRNT (Teste de Redução de Placas por Neutralização), podem ser utilizadas para confirmar o diagnóstico¹.
A coleta de amostras de sangue, soro e LCR deve ser realizada o mais precocemente possível para viabilizar o diagnóstico etiológico, que pode ser feito por meio de provas moleculares (RT-PCR) e isolamento viral. Estudos indicam que a IgM pode se formar primeiro no LCR, antes do soro, o que reforça a importância da coleta de diferentes tipos de amostras¹.
Tratamento para a Febre do Nilo
Não existe vacina ou tratamento antiviral específico para a Febre do Nilo Ocidental. É preconizado apenas o tratamento sintomático, com cuidadosa assistência ao paciente, que, sob hospitalização, deve permanecer em repouso e com reposição de líquidos, quando indicado1.
Nas formas graves, com envolvimento do SNC, o paciente deve ser atendido em uma unidade de terapia intensiva (UTI), com o intuito de se reduzirem as complicações e o risco de óbito. O tratamento é de suporte, frequentemente envolvendo hospitalização, reposição intravenosa de fluídos, suporte respiratório e prevenção de infecções secundárias1.
Formas de prevenção
Atualmente no Brasil não há vacinas recomendadas contra Febre do Nilo Ocidental. Como proteção individual, recomendam-se usar repelentes e evitar exposição aos vetores, principalmente ao amanhecer e ao entardecer. O uso de tela em janelas e portas pode ser indicado1.
Algumas medidas podem ajudar a reduzir os riscos1:
- Evite água parada e locais sem saneamento básico.
- Trabalhadores em risco são aqueles que trabalham ao ar livre, que incluem: médicos veterinários, agrônomos, zootecnistas, biólogos, agricultores, paisagistas, jardineiros, trabalhadores da construção civil, entomologistas e outros.
- Não despeje lixo em valas, valetas, margens de córrego, rios e riachos.
- Evite manusear animais mortos quando possível.
Ao poder público, cabe dar ênfase aos setores com atuação nas áreas de controle integrado de vetores, visando ao controle, que inclui1:
- Redução dos criadouros: eliminar todos os recipientes descartáveis que possam acumular água. Atenção especial deve ser dada aos pneus.
- Manejo ambiental: alterações no meio ambiente que reduzam os criadouros potenciais de Aedes e de Culex.
- Melhoria de saneamento básico: mosquitos do gênero Culex criam-se em fossas e em remansos de rios e/ou em lagoas poluídas.
- Controle químico e biológico dos criadouros que não possam ser descartados.
- O controle químico de mosquitos adultos deve ser reservado para situações de surto, com o objetivo de bloqueio da transmissão.
Conclusão
A Febre do Nilo Ocidental reforça a importância da vigilância epidemiológica, do diagnóstico adequado e da adoção de medidas de prevenção, especialmente diante da possibilidade de evolução para formas neurológicas graves. Embora não exista, atualmente, vacina ou tratamento antiviral específico disponível no Brasil, a identificação precoce de casos suspeitos, a assistência adequada e o controle dos vetores são estratégias fundamentais para reduzir complicações e limitar a circulação do vírus.
Nesse cenário, as farmácias e os profissionais farmacêuticos podem contribuir de forma relevante para a saúde pública, ampliando o acesso à informação, orientando sobre medidas de proteção individual e coletiva e reconhecendo sinais que indiquem a necessidade de avaliação médica. A atuação integrada entre população, profissionais de saúde e autoridades sanitárias é essencial para fortalecer a prevenção e a resposta diante da circulação da Febre do Nilo Ocidental no país.
Referências
- Febre do Nilo Ocidental. Ministério da Saúde. Disponível em: www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/f/febre-do-nilo-ocidental. Acesso em: 28/08/2026.
- O que se sabe sobre Febre do Nilo Ocidental: SP e SC já registraram casos. Associação Paulista de Medicina (APM). Disponível em: www.apm.org.br/o-que-se-sabe-sobre-febre-do-nilo-ocidental-sp-e-sc-ja-registraram-casos/. Acesso em: 28/08/2026.
Foto: Shutterstock
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