
O varejo farmacêutico brasileiro vive um momento de alerta: os furtos e roubos em farmácias estão crescendo e se tornando mais sofisticados. Dados recentes de pesquisas setoriais apontam que as farmácias estão entre os principais alvos de perdas no varejo, com destaque para furtos internos, externos e até ações coordenadas de quadrilhas.
“No varejo farma, as perdas, em 2024, chegaram a 1,25%, segundo a 8ª Pesquisa de Perdas no Varejo Brasileiro, elaborada pela Associação Brasileira de Prevenção de Perdas (Abrappe) em parceria com a KPMG. Esse percentual é superior ao registrado em 2023, que foi de 0,90%. O setor, impulsionado pelos furtos de medicamentos de alto valor como o Ozempic e similares, registrou aumento de 38,93% nas perdas totais e de 29,02% nos furtos”, conta o CEO da AOzawa Consultoria, especialista em Prevenção de Perdas e Governança, Anderson Ozawa.
Exposição de produtos atrativos contribui com o crescimento dos furtos
Segundo Ozawa, esse crescimento está diretamente ligado à exposição de produtos atrativos, ao fácil acesso a itens de alto valor unitário e, em muitos casos, à ausência de um modelo de gestão estruturado de prevenção de perdas. “Muitos estabelecimentos ainda enxergam o furto como um “custo inevitável”, quando na verdade se trata de um risco que pode – e deve – ser controlado com estratégia”, pontua.

CEO da AOzawa Consultoria, Anderson Ozawa.
Além disso, o ambiente urbano mais vulnerável, o aumento da informalidade e a venda ilegal de medicamentos e cosméticos em plataformas não reguladas impulsionam esse cenário. “As farmácias estão sendo constantemente testadas, e somente com processos inteligentes é possível manter a segurança sem perder o foco no cliente”, afirma.
Os fatores que favorecem os furtos em farmácias são diversos e geralmente se conectam entre si:
- Exposição desprotegida de produtos caros e pequenos;
- Layouts que criam pontos cegos e dificultam a vigilância visual;
- Falta de treinamento da equipe para reconhecer sinais de comportamento suspeito;
- Excesso de estoques em razão de falhas na gestão de abastecimento das lojas;
- Processos operacionais falhos no controle de recebimento, reposição e inventário;
- Tecnologia de segurança obsoleta ou inexistente;
- Ausência de cultura de prevenção integrada à rotina.
“Esses elementos, quando combinados, criam oportunidades que são exploradas com frequência. Um exemplo clássico é o excesso de confiança em sistemas de câmera sem acompanhamento em tempo real, que antenas antifurto sozinhas afastam os furtantes, ou a crença de que apenas a presença de um fiscal resolverá todos os problemas”, destaca Ozawa.
Prevenção de perdas
A prevenção de perdas exige uma atuação sistêmica, onde pessoas estejam preparadas, os processos sejam padronizados, a tecnologia seja bem aplicada, os resultados sejam auditáveis e as decisões orientadas por indicadores consistentes, pilares que sustentam toda operação rentável.
De acordo com Ozawa, os itens mais visados seguem um padrão claro: são de pequeno volume, alto valor agregado e rápida revenda. Entre os principais produtos furtados nas farmácias brasileiras, destacam-se:
- Dermocosméticos e cosméticos premium (Vichy, La Roche-Posay, Eucerin, etc.);
- Suplementos e vitaminas, como polivitamínicos, colágeno, Whey Protein;
- Perfumes e desodorantes de marca;
- Autotestes (gravidez, glicemia, HIV);
- Cartelas avulsas de medicamentos controlados;
- Maquiagens, esmaltes e produtos de beleza de alto giro;
- Medicamentos para controle de diabetes com efeito secundário de emagrecimento, como Ozempic (semaglutida) e Trulicity (dulaglutida).
Grupo visado
O grupo de medicamentos popularmente conhecido como canetas emagrecedoras passou a ser especialmente visado com o aumento da sua procura para uso estético e off-label, criando uma demanda paralela alimentada por furtos e desvios. “São produtos caros, com alto valor percebido, e que costumam ser expostos de forma pouco protegida em muitas farmácias”, diz.
Por isso, segundo Ozawa, é fundamental tratá-los com critérios de controle rigorosos: exposição com travas, rastreabilidade em estoque, limitação de unidades por cliente e acompanhamento do inventário cíclico. “Prevenir a perda desses itens é preservar a margem da operação e garantir segurança no abastecimento regular ao público que realmente precisa”, comenta.
Como as farmácias podem se proteger?
A prevenção de furtos começa com uma análise crítica do layout da loja, da movimentação dos clientes e da rotina operacional. “Produtos de alto valor devem ser posicionados de forma estratégica: próximos aos caixas, sob vigilância ou com algum nível de controle no acesso — como vitrines fechadas, mock-ups ou exposição limitada por cliente”, explica Ozawa.
É preciso também adotar práticas claras de controle, como:
- Reposição de estoque com acompanhamento;
- Inventário cíclico para itens críticos;
- Registros diários de quebras e perdas visíveis;
- Acompanhamento da performance de vendas x movimentação de estoque.
Essas práticas devem estar integradas ao fluxo da loja e contar com a participação ativa da equipe. “Não basta ter o processo — é necessário garantir sua aplicação diária, com auditoria, correção de desvios e atualização contínua. Isso significa ter uma cultura de prevenção de perdas forte na empresa, com reforços constantes”, afirma Ozawa.
Como a tecnologia contribui com a prevenção de perdas e furtos?
A tecnologia é um dos grandes aliados na prevenção de perdas, desde que aplicada de forma inteligente e conectada à realidade da loja. De acordo com Ozawa, as principais soluções disponíveis são:
- CFTV com inteligência analítica
- Câmeras que analisam comportamento, detectam padrões suspeitos e emitem alertas em tempo real.
- Devem ser instaladas em áreas de risco, caixas, corredores e sobre os produtos mais sensíveis.
- Etiquetas eletrônicas (EAS)
- Adesivas ou rígidas, disparam alarme ao tentar sair da loja sem passar pela desativação no caixa.
- Indicadas para dermocosméticos, suplementos e fragrâncias.
- Espelhos convexos
- Baratos e eficazes, ajudam a eliminar pontos cegos e ampliar a percepção de vigilância.
- Controle de acesso eletrônico
- Garante que apenas pessoas autorizadas entrem em áreas críticas como estoques, salas de apoio e área de medicamentos controlados.
- RFID e inventário digital
- Aplicável a redes com maior volume, permite controle de movimentações em tempo real.
“O mais importante é que a tecnologia esteja acompanhada de treinamento, manutenção e análise de resultados. Sistemas desconectados da operação não produzem o efeito esperado”, enfatiza.
Fator humano não pode ser desconsiderado
O colaborador é o principal agente de prevenção de perdas da farmácia. Quando bem treinado, ele enxerga além da função operacional e passa a atuar como guardião da loja, identificando sinais, orientando clientes e evitando perdas com atitudes simples e eficazes.
Treinar é mais do que repassar procedimentos: é formar cultura preventiva. Isso inclui:
- Sensibilização sobre o impacto das perdas no negócio;
- Capacitação para identificar e relatar comportamentos suspeitos;
- Abordagem correta e segura de situações críticas;
- Conhecimento dos procedimentos de segurança e conferência de estoque;
- Participação nos inventários e nas rotinas de prevenção.
“A equipe bem treinada atua de forma discreta, educada e eficiente. Torna-se parte da solução e não apenas executora de tarefas”, complementa Ozawa.
Impactos no negócio
As perdas por furtos afetam diretamente o caixa, a margem e a reputação da farmácia. Quando um produto é furtado, a empresa não perde apenas o item, perde a venda, o giro de estoque, a confiança do cliente e o equilíbrio financeiro.
Além disso, perdas constantes geram:
- Redução da rentabilidade e necessidade de compensar com aumentos de preço;
- Ruptura de itens estratégicos, afetando a imagem com o consumidor;
- Desconforto da equipe e clima organizacional de desconfiança;
- Dificuldade de manter um controle de estoque confiável;
- Maior pressão sobre a operação, logística e relacionamento com fornecedores.
“Em um mercado cada vez mais competitivo, permitir que as perdas avancem é comprometer o futuro do negócio. A prevenção, por outro lado, aumenta a eficiência, melhora a lucratividade e protege o ativo mais importante da empresa: sua reputação”, finaliza Ozawa.
Foto: Shutterastock
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