Qual é o futuro das farmácias pós-coronavírus?

Farmácias precisam se adaptar ao "novo normal", exigindo novas atribuições do farmacêuticos. Veja quais são elas

A transformação causada pela Covid-19 foi muito mais profunda do que se imagina e as farmácias, pós-coronavírus, precisarão se adaptar ao “novo normal”.

Capaz de mobilizar o mundo no isolamento social em prol da vida, esse vírus, que ainda não tem cura ou tratamento, tem trazido uma série de reflexões e alterações no canal.

Consequentemente, os farmacêuticos tiveram de:

Acompanhe, a seguir, o que dizem os especialistas sobre as mudanças no canal farma, as atribuições do farmacêutico nesta realidade e o comportamento do público-alvo dessas lojas.

O papel das farmácias frente ao novo coronavírus

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A pandemia reforçou a importância de colocar o ser humano no centro das decisões. “Empatia, solidariedade e colaboração ganham destaque neste cenário”, comenta o cofundador da in360, Olegário Araújo.

Nesse sentido, o farmacêutico tem exercido um papel fundamental não só durante a pandemia, como também dentro da atividade de farmácia e drogaria de um modo geral.

“Neste momento, há muita especulação sobre possíveis medicamentos que podem prevenir e tratar a Covid-19, mas nenhum ainda teve eficácia comprovada. O esclarecimento do profissional farmacêutico sobre esses medicamentos para os consumidores é fundamental”, reforça o presidente da Associação do Comércio Farmacêutico do Estado do Rio de Janeiro (Ascoferj), Luis Carlos Marins.

“O farmacêutico tem assumido um papel central na adesão ao tratamento e prevenção. Se já considerávamos a relevância dele até agora, muito por conta da Lei 13.021/14, que dispõe sobre serviços farmacêuticos, depois da pandemia, essa importância fica mais forte e aumenta-se a consciência sobre o papel que esse profissional exerce”, afirma o CEO da Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma), Sergio Mena Barreto.

Ele acrescenta que após a atualização da RDC 44/2009, que dispõe sobre Boas Práticas Farmacêuticas, o papel desses profissionais tende a ser ainda maior.

Para o presidente da Federação Brasileira das Redes Associativistas e Independentes de Farmácias (Febrafar) e da Farmarcas, Edison Tamascia, a valorização da farmácia e destes profissionais também se estende às lojas independentes.

É a atenção farmacêutica que faz as farmácias independentes sobreviverem até hoje. Fazemos isso de forma empírica e vamos continuar fazendo. As farmácias de bairro têm essa característica e são referência para orientação de atendimentos básicos”, acrescenta.

Como a assistência farmacêutica evoluiu e o que os farmacêuticos tiveram de aprender

Muitas farmácias, com destaque para as grandes redes, já tinham abraçado a assistência farmacêutica e, pós-coronavírus, esses serviços ganharam ainda mais relevância. Portanto, é uma atividade na qual os farmacêuticos precisam estar atentos.

Aliás, novos serviços nasceram ou se reforçaram com ele, como é o caso das vacinas e dos testes rápidos para detecção do vírus.

“Até o dia 1º de junho, realizamos 20 mil testes em 300 farmácias e isso tende a decolar uma vez que as farmácias aprendam os protocolos”, analisa Mena Barreto.

Ademais, neste momento, o consumidor passa a ter uma visão de que a farmácia é uma unidade de saúde e não somente um estabelecimento comercial, segundo afirma o executivo da Ascoferj.

“Muitas pessoas não sabiam que a farmácia e os farmacêuticos podem atuar tão intensamente. Trazer para esses estabelecimentos os testes rápidos de Covid-19 e a vacinação contra a Influenza traz diversos benefícios, inclusive ajudando a desafogar o Sistema Único de Saúde (SUS), sobrecarregado neste momento”, pondera Marins.

Leituras complementares sobre assistência farmacêutica

1. Leia mais sobre vacinas nas farmácias neste artigo: Vacinas em farmácias começam a ser realidade 
2. Leia mais sobre teste de Covid-19 na farmácia neste artigo: Teste rápido em farmácias fortalece luta contra Covid-19
3. Leia mais sobre como um farmacêutico pode dispensar um Medicamento Isento de Prescrição (MIP) neste artigo: Quando o uso de MIPs exige uma consulta médica prévia?

A farmácia como um novo estabelecimento de saúde

futuro farmacias pos coronavirus estabelecimento de saude

Já não é de hoje que o canal farma têm se fortalecido como estabelecimento para a prevenção de doenças. Mas com o advento do pandemia, é fundamental que as farmácias se fortaleçam ainda mais para o pós-coronavírus.

O portal de Assistência Farmacêutica Avançada, da Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma), reforça a importância de o canal:

  • Ser porta de entrada para tratamentos de saúde

As farmácias são, frequentemente, o primeiro ponto de contato com o sistema de saúde para quem tem preocupações relacionadas à saúde ou, simplesmente, necessita de informação e aconselhamento confiável.

Além disso, elas tornaram-se parte importante, às vezes indispensáveis, ao Sistema Público de Saúde (SUS).

  • Garantir o abastecimento

As farmácias devem buscar garantir o suprimento de medicamentos e materiais de proteção individual necessários e colaborar para a educação em saúde e gerenciamento colaborativo com hospitais e unidades de saúde em momentos de crise em saúde pública.

  • Ter responsabilidade em proteger a população e seus colaboradores

Quando uma epidemia acontece, a farmácia é o estabelecimento que está na linha de frente e tem uma responsabilidade crucial na proteção à saúde da população.

Como as farmácias têm um grande fluxo de pessoas, e muitas delas podem ser doentes assintomáticos, várias medidas importantes devem ser tomadas (confira, nesta reportagem, as principais medidas que as farmácias podem desenvolver para prevenir o novo coronavírus).

  • Identificar pacientes suspeitos por Covid-19 e os encaminhar

É natural que pessoas com sintomas respiratórios busquem a farmácia para atendimento ou compra de medicamentos. A equipe deve estar, assim, apta a acolher, identificar, avaliar, orientar e encaminhar esse paciente.

Lojas físicas exigem rapidez e conveniência

futuro farmacias pos coronavirus convenienciaOutra palavra de ordem nessa pandemia foi conveniência. Receber seus produtos em casa, via delivery, sem ter de passar pela loja física, foi uma das escolhas do consumidor nesse período e traz novas atribuições aos farmacêuticos responsáveis por estes serviços.

“A pandemia acelerou a tendência de busca por conveniência e praticidade, agregando a segurança”, analisa Araújo, que visualiza outras possibilidades.

Nesse sentido, o proprietário da Mix Mais Farma, Flavio Bueno,  que possui três lojas em São Luís, no Maranhão, afirma que, em todas elas, a compra on-line é a que mais tem se destacado entre os seus clientes. Contudo, ele lembra da importância da capacitação dos farmacêuticos e outros colaboradores envolvidos.

“Minha equipe recebeu treinamento específico para o atendimento aos clientes on-line. Investimos em funcionários para cuidar somente do e-commerce, WhatsApp, telefone e das divulgações dos produtos nas redes sociais. Estamos confiantes que após o período da pandemia, as vendas on-line e o delivery permanecerão constantes”, completa.

Valorização à saudabilidade e prevenção de doenças impactam as farmácias no pós-coronavírus

Higiene e saúde nunca foram tão relevantes. Afinal, desde que a pandemia foi anunciada, a população passou a ser “bombardeada” com mensagens sobre questões relacionadas com imunidade.

“Notamos que o consumidor com diabetes ou hipertensão, que havia abandonado seus tratamentos, voltou a fazê-lo por receio de contrair a forma mais grave do Covid-19. Pessoas vão parar para pensar que a grande riqueza é a vida”, reflete Mena Barreto.

Nesse sentido, os farmacêuticos precisam estar atentos para orientações dos produtos que tende a ter alta demanda nas farmácias, mesmo pós-coronavírus.

Ao passo que a população se torna mais consciente sobre a sua saúde, todo o sortimento da farmácia que valoriza a prevenção passa a ganhar destaque. E a lista vai muito além do álcool em gel (hábito que deve seguir pós-pandemia) e máscaras (que também devem passar a ser usadas por aqueles que se sentem resfriados).

“Entre as categorias em alta, podemos destacar os Medicamentos Isentos de Prescrição (MIPs), sobretudo aqueles voltados para gripes e resfriados (analgésicos e antitérmicos), vitaminas C e D e polivitamínicos; assim como  o álcool gel, em perfumaria”, constata o diretor-executivo da Associação Brasileira de Distribuição e Logística de Produtos Farmacêuticos (Abradilan), Ivan Coimbra.

O presidente da Febrafar, Edison Tamascia, reforça a força das categorias voltadas à suplementação. “O Brasil tinha uma aderência muito baixa de suplementação. Menos de 6% da população toma vitaminas. Essa é uma base que deve crescer”, projeta.

Comércio eletrônico é mais uma realidade às farmácias pós-coronavírus

futuro farmacias pos coronavirus e commerceA aceleração da transformação digital nas empresas se fortaleceu de forma paralela com a pandemia. Afinal, o confinamento social fez com que os brasileiros tivessem, muitas vezes, de aderir ao e-commerce ou m-commerce para fazer suas compras.

E as empresas que não estavam presentes nesses canais, acabaram ficando para trás nas suas vendas. Com as farmácias não foi diferente.

Segundo dados do Farmácias APP, por exemplo, as transações no aplicativo cresceram 938% desde o início da pandemia no Brasil.

Ademais, o aumento também aparece em métricas como receita e número de usuários, que tiveram variação positiva de 662% e 825%, respectivamente. O levantamento compara os períodos de 01/01 a 17/03 com 18/03 a 26/05 de 2020.

Outros dados, da Abrafarma, mostram que, de janeiro a abril desde ano, as vendas das farmácias pelo e-commerce totalizaram R$ 390 milhões, alta aproximada de 72% em relação ao mesmo período do ano anterior, quando contabilizaram R$ 227 milhões.

Mesmo com o final da pandemia, esse canal atingirá um outro patamar”, projeta o CEO da entidade, Sergio Mena Barreto.

Mas vale lembrar que, de acordo com a RDC 44/09, que dispões sobre Boas Práticas Farmacêuticas, somente as farmácias e drogarias abertas ao público, com farmacêutico presente durante todo o horário de funcionamento, poderão realizar dispensação de medicamentos solicitados por meio remoto (telefone, fax e internet).

Aliás, para a dispensação remota de medicamentos sujeitos a prescrição médica, é imprescindível a apresentação e a avaliação da receita pelo farmacêutico.

De que forma a telemedicina e a prescrição digital devem impactar as farmácias

Em caráter excepcional, por conta do Covid-19, o Conselho Federal de Medicina (CFM) liberou a telemedicina no Brasil. E na visão do CEO da Abrafarma, este recurso deve ser um dos grandes legados pós-pandemia.

“Fazer uma consulta on-line é algo que o consumidor tende a se acostumar”, diz Mena Barreto, acrescentando que a telemedicina era algo que deveria estar nas farmácias.

“As lojas poderiam dispor de totens, onde consultariam um médico com suporte farmacêutico e esse profissional, com seu conhecimento, já faria a primeira anamnese para transmitir ao prescritor. Assim, o paciente poderia sair da farmácia, dependendo do caso, com seu problema encaminhado. Esse seria um grande bem para muitas comunidades que estão com sistemas de saúde sobrecarregados”, analisa Barreto.

Já em relação a prescrição eletrônica, esta ainda é ‘uma terra sem lei’, na visão do executivo da Abrafarma. “A prescrição deveria pertencer ao usuário, e não ao médico, farmacêutico ou uma plataforma. Deveria ser um banco de dados público, com poder da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e o usuário ter o poder de escolher a farmácia na qual será atendido”, opina, salientando que essa solução, apesar de benéfica, ainda tem muito a avançar.

Conclusão: lições de aprendizado para as farmácias pós-coronavírus

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Uma pesquisa da Kantar, realizada entre os dias 13 e 16 de março, revelou que os brasileiros esperam que suas marcas:

  • Sirvam de exemplo e guiem a mudança (25%);
  • Sejam práticas e realistas e ajudem consumidores no dia a dia (21%);
  • Ataquem a crise e demonstrem que ela pode ser derrotada (20%);
  • Usem seu conteúdo para explicar e informar (18%);
  • Reduzam a ansiedade e entendam as necessidades dos consumidores (11%);
  • E, por último, sejam otimistas e pensem de formas não convencionais (3%).

Essa descrição mostra como as farmácias devem se portar pós-coronavírus. Por meio dos farmacêuticos, elas devem ser um canal efetivo de informações confiáveis ao consumidor e se atualizarem em relação à prestação se serviços, seja por meio de vacinas ou testes rápidos para Covid-19.

Além disso, também é importante que esses canais estejam de olho na transformação digital e nos novos hábitos de consumo dos clientes, que passaram a valorizar a conveniência e segurança nas compras.

Assim, diante deste cenário, nesta reportagem, você, farmacêutico, pode acompanhar as últimas tendências e legados frente à pandemia, e como os profissionais da área podem se atualizar e se adaptar ao “novo normal”.

Fonte: Guia da Farmácia

Fotos: Shutterstock

Brasileiro vai mais à farmácia durante pandemia da Covid-19, indica pesquisa

 

 

 


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