Os medicamentos GLP-1 na forma de canetas injetáveis — Ozempic, Wegovy e Mounjaro — continuam entre os produtos de maior valor unitário no varejo farmacêutico brasileiro. Um levantamento inédito realizado pela InfoPrice, empresa especializada em inteligência comercial para o varejo, revelou variações expressivas de preço entre marcas, dosagens e regiões do país no trimestre março–maio de 2026.
A pesquisa monitorou 13 GTINs (códigos de produto) distribuídos entre as três marcas — seis do Mounjaro, dois do Ozempic e cinco do Wegovy — em 13.392 farmácias de 924 redes varejistas. Ao todo, foram registradas 6,27 milhões de capturas de preço, incluindo dados de aplicativos e sites próprios das redes, pontos de venda físicos, aplicativos de entrega e notas fiscais eletrônicas. A metodologia considera o preço efetivamente pago pelo consumidor.
Métricas de preço de GLP-1 no Brasil (mar–mai/2026)
Os dados consolidados do trimestre, considerando todas as marcas e dosagens, revelam uma ampla dispersão de preços no varejo farmacêutico nacional:
- Preço médio (mix, ponderado por capturas): R$ 1.731,36
- Preço mais frequente (moda do período): R$ 999,00
- Q1 – Quartil inferior (P25): R$ 1.514,81
- Q3 – Quartil superior (P75): R$ 1.889,34
- Menor preço registrado: R$ 649,50 (Wegovy 0,25mg)
- Maior preço registrado: R$ 4.006,82 (Mounjaro 25mg)
Destaques do levantamento
- Mounjaro lidera o mercado com aproximadamente 57% de participação entre os GLP-1 farmacêuticos no Brasil em 2026, segundo projeções do UBS BB, contra cerca de 43% da semaglutida (Ozempic + Wegovy combinados).
- O Mounjaro 25mg registrou o maior preço do levantamento: R$ 4.006,82 por caneta, tornando-o um dos produtos de maior valor unitário em todo o varejo farmacêutico nacional.
- O mercado brasileiro de GLP-1 deve movimentar R$ 20 bilhões em 2026, de acordo com projeções do banco UBS BB, impulsionado pela crescente demanda por tratamentos de obesidade e controle glicêmico.
- Desde agosto de 2025, o Mounjaro (tirzepatida) detinha 49,6% de participação nas vendas de GLP-1 em farmácias brasileiras, liderança confirmada pelos dados coletados no primeiro semestre de 2026.
Evolução semanal de preços
O acompanhamento semana a semana do Mounjaro 2,5mg revela um comportamento dinâmico ao longo do trimestre, com dois picos distintos e tendência de recuo em maio:
- Início do período (02/mar): preço médio de aproximadamente R$ 1.706, com queda até o vale do trimestre em 16/mar (R$ 1.654).
- Primeira recuperação expressiva, com pico em 30/mar (R$ 1.782).
- Novo pico em 20/abr (R$ 1.800) — o mais alto do período —, seguido de retração consistente ao longo de maio.
- Encerramento do período (25/mai): R$ 1.722, nível próximo ao início, sinalizando estabilização.
Nota: valores estimados a partir do gráfico de evolução semanal da plataforma InfoPanel.
Ranking por preço médio e comparativo por canal de venda
O ranking de preço médio por produto confirma a predominância do Mounjaro nas faixas mais altas: as quatro dosagens mais caras do levantamento (30mg, 25mg, 20mg e 15mg) são todas da linha tirzepatida. O Wegovy 2,4mg aparece como o produto da semaglutida com maior preço médio. Os produtos do Ozempic e as dosagens iniciais do Wegovy ocupam as últimas posições, com preços abaixo de R$ 1.500.
O comparativo por canal de venda revela que os aplicativos de entrega consistentemente registram os preços mais elevados para praticamente todos os 13 SKUs monitorados. As notas fiscais eletrônicas tendem a apresentar os menores valores — especialmente nas dosagens mais altas do Mounjaro, onde a diferença entre canais pode superar R$ 1.000 por unidade. Pontos de venda físicos e apps/sites próprios das redes apresentam preços intermediários e próximos entre si.
Cenário competitivo e regulatório
O período analisado coincide com uma virada relevante para o mercado: em março de 2026, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) negou a extensão de patente à Novo Nordisk para a semaglutida, abrindo caminho para a entrada de versões genéricas no Brasil. O país se posiciona ao lado de Índia, China e Canadá como um dos primeiros mercados a permitir essa concorrência.
Segundo análise do Itaú BBA, a competição pós-patente deve provocar redução de 30% a 50% nos preços de referência da semaglutida nos próximos 12 a 18 meses. Laboratórios nacionais já anteciparam esse movimento: a EMS lançou os produtos Olire e Lirux, enquanto a Eurofarma trouxe Poviztra e Extensior ao mercado. A capacidade combinada estimada é de 750 mil canetas por mês, o que deve reduzir a dependência de importação e pressionar os preços do Ozempic original.
No plano regulatório, a ANVISA passou a exigir, desde abril de 2025, a retenção de receita médica para a dispensação de canetas GLP-1 em farmácias, medida que visa coibir o uso sem prescrição e representa uma barreira relevante à expansão do canal de venda livre.
“O monitoramento contínuo de preços em mais de 13 mil pontos de venda permite compreender com precisão como fatores regulatórios, entrada de concorrentes e variações regionais impactam o bolso do consumidor. No caso dos GLP-1, estamos diante de um mercado em rápida transformação”, afirma Paulo Garcia Neto, CEO da InfoPrice.
Foto: Shutterstock
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