
A Peers Consulting + Technology divulgou sua análise de resultados do 2º Trimestre de 2026 das grandes redes do varejo farmacêutico, elaborada por Admar Corrêa, sócio-diretor da consultoria.
O segundo trimestre de 2026 confirmou a maturação do ciclo dos medicamentos GLP-1 no varejo farmacêutico: a quebra da patente da semaglutida, em março, derrubou o preço médio dos análogos em cerca de 40% e reduziu a contribuição da categoria para o crescimento total das redes — de 6,5 p.p. para 3,2 p.p. na Pague Menos, por exemplo — ainda que o volume vendido tenha mais que compensado, com a Panvel registrando alta de 63,6% nas vendas de GLP-1 no período.
Com isso, RD Saúde, Pague Menos e Panvel entregaram mais um trimestre de crescimento de dois dígitos em receita e ganhos de rentabilidade, ainda que em ritmo mais moderado que no 1T26, com destaque para o avanço continuado da penetração digital e para a redução generalizada da alavancagem financeira nas três companhias.
Desempenho dos principais players
RD Saúde – Crescimento acelerado e recorde de participação, com pressão pontual na margem líquida
- A receita bruta somou R$ 12.777,7 milhões no 2T26 (+18,3% a/a), com vendas em mesmas lojas de 12,5% e lojas maduras crescendo 10,9% — 8,1 p.p. acima do reajuste da CMED (2,8%) — sustentando o 11º trimestre consecutivo de ganho de participação: market share nacional de 19,7% (+1,7 p.p. a/a), com avanço em todas as regiões do país. O crescimento veio equilibrado entre categorias: medicamentos de marca +24,3% (puxados por GLP-1), genéricos +14,5%, higiene e beleza +13,8% e itens sem prescrição (OTC) +13,0%.
- A margem bruta ficou em 28,9% (-0,1 p.p. a/a), pressionada pela maior penetração de GLP-1 — de margem estruturalmente mais baixa — e por menor ganho inflacionário em estoques, compensada por ganhos comerciais. O EBITDA ajustado cresceu 17,9%, para R$ 1.017,3 milhões, com margem estável em 8,0%.
- O lucro líquido ajustado somou R$ 432,7 milhões (+7,4% a/a), com margem de 3,4% (-0,3 p.p.) pressionada por uma alíquota efetiva mais alta; excluindo o efeito da venda da 4Bio na base de comparação, o lucro ajustado cresceu 23,4% (R$ 424,4 milhões). A companhia gerou fluxo de caixa livre de R$ 550 milhões — revertendo o consumo do 2T25 — e reduziu a alavancagem para 0,8x EBITDA (-0,5x a/a). As vendas digitais ultrapassaram R$ 3,9 bilhões (+52%, 31,0% de penetração) e a companhia concluiu a aquisição dos 100% da Stix, programa de fidelidade que já soma 15 milhões de clientes ativos.
Pague Menos – Trimestre recorde de rentabilidade, com desaceleração natural do crescimento
A receita bruta somou R$ 4.343,1 milhões no 2T26 (+9,3% a/a), puxada por vendas em mesmas lojas de 8,0% — desaceleração ante os 13,0% do 1T26, refletindo base de comparação mais forte e menor contribuição do GLP-1, cuja participação no crescimento total caiu de 6,5 p.p. para 3,2 p.p. após a quebra de patente da semaglutida (queda de ~40% no preço médio, compensada por maior volume e mais clientes).
- A margem bruta ficou praticamente estável em 30,6% (-0,1 p.p.), e a diluição das despesas com vendas (-0,4 p.p.) sustentou o EBITDA ajustado em R$ 281,7 milhões (+15,4% a/a), com margem recorde histórica de 6,5% (+0,4 p.p.).
- O lucro líquido ajustado avançou 22,2%, para R$ 73,6 milhões, com fluxo de caixa operacional triplicando na comparação anual (R$ 188,8 milhões) e alavancagem recuando para 1,8x EBITDA (-0,8x) — 12º trimestre consecutivo de desalavancagem. As vendas digitais superaram R$ 1 bilhão pela primeira vez em um trimestre (+40,6% a/a), passando a representar 24,1% da receita total.
Panvel – Lucro recorde e GLP-1 como principal vetor de crescimento
- O Grupo Panvel registrou lucro líquido ajustado recorde de R$ 38,9 milhões no 2T26, alta de 39,1% a/a, com receita bruta do varejo de R$ 1,63 bilhão (+15,8%). O crescimento em mesmas lojas acelerou para +13,5% a/a (ante +11,5% no 1T26), com lojas maduras crescendo 11,4%, e a venda média mensal por loja atingiu R$ 819 mil (+13,1% a/a).
- O EBITDA ajustado somou R$ 88,5 milhões (+26,4% a/a), com margem de 5,4%. O mix de vendas foi puxado por medicamentos de marca (+20,3%) e genéricos (+18,1%), mas o destaque absoluto ficou com o GLP-1: vendas em alta de 63,6% no trimestre, já respondendo por 11,3% da receita bruta do varejo — a maior penetração relativa da categoria entre os três pares.
- Higiene e Beleza cresceu 13,9%, com os Produtos Panvel (marca própria) mantendo 19,2% de participação na categoria. A companhia não havia detalhado, até o fechamento desta análise, indicadores como número de lojas, market share regional e alavancagem do 2T26 — no 1T26 operava com 661 unidades, 13,3% de market share na Região Sul e alavancagem de 0,88x EBITDA, patamares que devem ter seguido a trajetória de melhora observada nos trimestres anteriores.
Perspectivas e tendências para o setor
GLP-1 muda de motor de receita para motor de volume
A quebra da patente da semaglutida em março de 2026 derrubou o preço médio dos análogos em cerca de 40%, e o efeito já aparece nos três resultados: a contribuição da categoria para o crescimento caiu na Pague Menos e perdeu força na base comparável da RD, mas o volume vendido cresceu com força — a Panvel viu suas vendas de GLP-1 saltarem 63,6% no trimestre.
Com os genéricos ainda ganhando escala, a tendência é de um mercado maior em unidades e clientes, e mais neutro (ou levemente pressionado) em margem bruta.
Consolidação e digital seguem como eixos estruturais
A RD Saúde emendou o 11º trimestre consecutivo de ganho de participação de mercado nacional (19,7%); as vendas digitais já representam 31,0% da receita da RD e 24,1% da Pague Menos, com ambas ultrapassando a marca de R$ 1 bilhão em vendas digitais no trimestre. A aquisição da Stix pela RD Saúde reforça a aposta em fidelização como parte da estratégia digital.
Desalavancagem abre espaço para nova rodada de expansão
As três companhias reduziram endividamento no trimestre (RD a 0,8x, Pague Menos a 1,8x, Panvel em 0,88x ao fim do 1T26), o que deve sustentar aceleração gradual do ritmo de abertura de lojas a partir de 2027 — a Pague Menos já sinaliza pipeline represado, enquanto a Panvel projeta alcançar cerca de 1.000 lojas até 2030, ante as atuais ~661.
Desafios e Oportunidades – visão macro
- Oportunidades: A popularização dos genéricos de GLP-1 amplia o mercado endereçável via elasticidade de volume e deve melhorar margens brutas na categoria à medida que ganham escala; o avanço de programas de fidelidade e monetização de dados (Stix, Panvel Ads, CRM próprio) abre uma nova frente de receita ainda pouco explorada pelos players menores do setor.
- Desafios: O efeito de base mais forte do GLP-1 já reduz o crescimento marginal em todos os players e deve se intensificar nos próximos trimestres; o reajuste de preços autorizado pela CMED segue abaixo da inflação de estoques, pressionando margem bruta; e o consumo discricionário (higiene, perfumaria) permanece sensível ao cenário de juros reais elevados e ao endividamento das famílias. Some-se a isso a lacuna de divulgação operacional da Panvel neste trimestre, que exige checagem do release oficial antes de qualquer decisão apoiada nesses indicadores.
Fonte: Peers Consulting + Technology
Foto: Shutterstock
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