
A Eli Lilly and Company anunciou, nesta quinta-feira (16 de julho de 2026), um acordo definitivo para a aquisição da AtaiBeckley Inc., empresa biofarmacêutica em estágio clínico especializada no desenvolvimento de terapias inovadoras para condições de saúde mental.
O movimento expande o pipeline de neurociência da Lilly e mira diretamente um dos desafios mais persistentes da psiquiatria: a depressão resistente ao tratamento, condição que acomete milhões de pessoas nos Estados Unidos e no mundo.
O ativo central da aquisição
O principal programa da AtaiBeckley é o BPL-003 (mebufotenin benzoate), uma forma sintética do composto 5-MeO-DMT administrada via spray nasal, desenvolvida especificamente para pacientes com depressão resistente ao tratamento. Trata-se de um caso clínico distinto das formas convencionais da doença: os pacientes com essa condição não respondem satisfatoriamente a múltiplas linhas de tratamento disponíveis no mercado.
Em um estudo de Fase 2b, o BPL-003 demonstrou reduções rápidas e duradouras nos sintomas depressivos após uma única sessão clínica de aproximadamente duas horas, com efeitos benéficos que persistiram por meses. O medicamento já recebeu a designação de Terapia Inovadora (Breakthrough Therapy Designation) da Food and Drug Administration (FDA), dos Estados Unidos, e deu início às atividades de Fase 3.
O segundo ativo mais avançado da plataforma é o VLS-01, uma formulação em filme bucal de DMT que segue em estudo de Fase 2b. A empresa conta ainda com o EMP-01, em desenvolvimento para transtorno de ansiedade social, e um programa de descoberta de novos compostos agonistas de 5-HT2AR sem efeito alucinogênico.
Mecanismo diferenciado
A hipótese científica que sustenta os programas da AtaiBeckley distingue-se das abordagens tradicionais. Pesquisas emergentes indicam que a depressão resistente e outras condições graves de saúde mental podem envolver perda de plasticidade sináptica, ou seja, a capacidade do cérebro de formar e fortalecer conexões em regiões críticas para a regulação do humor.
Os compostos da empresa, classificados como neuroplastogênios de ação rápida, foram desenvolvidos para restaurar essa conectividade sináptica e estimular o crescimento de novas conexões neurais, funcionamento distinto dos antidepressivos convencionais, que atuam principalmente nos níveis de neurotransmissores.
“A depressão resistente ao tratamento persiste mesmo depois que múltiplas terapias fracassaram. Milhões de pessoas ainda buscam alívio e precisam desesperadamente de um tratamento que funcione”, afirmou a vice-presidente executiva e presidente da Lilly Neuroscience, Carole Ho. “Avançar com as terapias investigacionais da AtaiBeckley nos dá uma chance real de mudar esse cenário”, completou.
Termos financeiros da operação
Sob os termos do acordo, a Lilly adquirirá todas as ações ordinárias da AtaiBeckley em circulação por US$ 6,75 por ação em dinheiro no fechamento da transação. Adicionalmente, os acionistas poderão receber até US$ 2,50 por ação na forma de um Direito de Valor Contingente (CVR), vinculado ao cumprimento de marcos específicos de desenvolvimento e aprovação regulatória dos programas BPL-003 e VLS-01.
O valor em dinheiro representa uma capitalização total de mercado de aproximadamente US$ 2,8 bilhões, com potencial adicional de até US$ 1 bilhão pelo CVR. O preço representa um prêmio de aproximadamente 40% em relação ao preço médio ponderado por volume dos últimos 30 pregões das ações da AtaiBeckley.
A operação não está condicionada a financiamento externo e deve ser concluída no terceiro trimestre de 2026, após aprovação dos acionistas da AtaiBeckley e satisfação das condições regulatórias habituais. Os conselhos de administração de ambas as empresas já aprovaram o acordo.
Visão estratégica da Lilly
A aquisição reforça a estratégia da Lilly de expandir sua atuação em neurociência com ativos que atuam nas causas biológicas das doenças psiquiátricas, e não apenas no controle de sintomas. O presidente e cofundador da AtaiBeckley, Srinivas Rao, destacou a convergência de propósitos entre as duas companhias.
“Em todo o nosso portfólio, buscamos demonstrar que as doenças psiquiátricas são tratáveis em sua raiz biológica, não apenas em seus sintomas”, disse Rao. “A expertise e o alcance da Lilly devem acelerar esse trabalho para pessoas cujas condições não responderam aos tratamentos existentes”, acrescentou.
Para o fundador e presidente do conselho da AtaiBeckley, Christian Angermayer, a transação representa o caminho mais estratégico para levar os tratamentos aos pacientes com maior velocidade. “Desde a fundação da Atai, nossa missão foi trazer tratamentos transformadores de saúde mental aos pacientes que mais precisam deles. Integrar-se à Lilly dá a esse pipeline, e aos pacientes que aguardam por ele, o benefício dos recursos e da escala da Lilly para potencialmente avançar as terapias mais rapidamente do que poderíamos sozinhos”, afirmou Angermayer.
O fechamento da operação está previsto para o terceiro trimestre de 2026.
Fonte: Eli Lilly
Foto: Shutterstock
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