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A guerra no controle do tabagismo continua

Apesar do arsenal de medicamentos disponíveis no mercado, o hábito de fumar continua sendo uma das maiores ameaças à saúde pública no Brasil e no mundo

As primeiras tragadas costumam acontecer na adolescência por curiosidade, rebeldia, farra, imitação dos pais ou simplesmente para se integrar a determinado grupo. O problema é que esse “inocente” ato durante apenas três meses já é capaz de promover dependência, alerta a psicóloga e coordenadora do Programa Vida sem Cigarro do Hospital do Coração (HCor), Silvia Cury Ismael.

“O jovem nunca acha que vai ficar dependente e, muitas vezes, por fumar apenas nos fins de semana, acredita que pode parar quando quiser. A questão é que o cigarro não causa apenas dependência física, mas também emocional, por isso é tão complicado abandoná-lo de uma hora para outra.”

A farmacêutica responsável pela Farmácia Universitária da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (USP), Maria Aparecida Nicoletti, acrescenta que a nicotina presente em qualquer derivado do tabaco é uma droga psicoativa com potencial de produzir alteração no Sistema Nervoso Central (SNC) e, consequentemente, modificar o estado emocional e comportamental, podendo induzir ao abuso e à dependência.

“E os malefícios não se restringem apenas a quem de fato traga. A exposição involuntária à fumaça do cigarro (fumante passivo) também é um grande problema de saúde pública, causando desde reações alérgicas até câncer de pulmão, quando, por exemplo, algum familiar fuma diariamente dentro de casa.”

Doença pediátrica

O tabagismo é considerado uma doença pediátrica, já que 80% dos fumantes começam com o péssimo hábito antes dos 18 anos de idades. No Brasil, 20% dos tabagistas começaram a fumar com menos de 15 anos de idade, de acordo com o Ministério da Saúde (MS).

A frequência de fumantes é menor entre os adultos com 65 anos de idade e mais (7,3%) e aumenta nas faixas etárias de 18 a 24 anos de idade (8,5%) e 35 a 44 anos de idade (11,7%).

A boa notícia é que o consumo do tabaco entre os fumantes nas capitais brasileiras reduziu em 36% entre 2006 e 2017, ou seja, a prevalência caiu de 15,7% para 10,1%, conforme revelou a pesquisa Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel) 2017.

Na opinião da psicóloga Silvia, que trabalha com pacientes tabagistas há 26 anos, essa queda é reflexo da legislação antifumo, que proibiu o consumo de cigarros, cigarrilhas, charutos, cachimbos, narguilés e outros produtos fumígenos, derivados ou não do tabaco, em locais de uso coletivo públicos ou privados, da política de taxação do cigarro e do arsenal de medicamentos para tratar a doença.

“O Brasil é referência no modelo de tratamento e políticas públicas contra o tabagismo, entretanto, é o primeiro exportador do mundo e o segundo maior produtor de tabaco, perdendo apenas para a China.”

Embora o consumo de tabaco seja maior entre os homens (13,2%) do que entre as mulheres (7,5%), o sexo feminino tem mais dificuldade para largar a dependência. Na explicação da psicóloga do HCor, isso se deve ao fator emocional que é mais presente entre as mulheres.

“O homem tem uma relação mais racional com o cigarro e, em muitos casos, o tratamento com reposição de nicotina já é suficiente para ele dar adeus à dependência. Por outro lado, a mulher lida com isso de uma forma mais emocional e, além de serem mais comuns as recaídas, muitas vezes precisamos associar antidepressivos ao tratamento do tabaco.”

Causa de mortalidade

No Brasil, estima-se que morram 157 mil pessoas precocemente devido às doenças causadas pelo tabaco, de acordo com o Instituto Nacional do Câncer (Inca). No mundo, existem mais de 1,1 bilhão de fumantes e 80% deles vivem em países de baixa e média renda, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Ainda de acordo com dados da entidade, o tabaco mata mais de sete milhões de pessoas a cada ano, sendo que cerca de seis milhões destas mortes são resultado do uso direto do cigarro, enquanto 890 mil são resultado de não fumantes expostos ao fumo passivo.

Abandono do vício

O tabagismo é considerado uma doença, sendo responsável por vários tipos de câncer, problemas do aparelho respiratório e do coração, úlceras, osteoporose, catarata, impotência sexual no homem, infertilidade na mulher, menopausa precoce, complicações na gravidez, entre outras tantas enfermidades.

Além disso, os fumantes adoecem duas vezes mais que os não fumantes, assim como também apresentam menor resistência física, menos fôlego e pior desempenho nos esportes e na vida sexual. Sem falar que também envelhecem mais rapidamente e ficam com os dentes amarelados, cabelos opacos, pele enrugada e impregnada pelo odor do fumo.

Mesmo com todos esses malefícios, dar adeus ao cigarro exige muito autocontrole, conscientização e força de vontade, reforça a psicóloga.

“Não adianta recorrer apenas ao medicamento porque sozinho ele não faz milagres. Mostrar como funciona a dependência no organismo é uma das estratégias que usamos para a adesão ao tratamento.”

Para Silvia, o primeiro passo é o fumante ter consciência dos malefícios do cigarro, conhecer seu perfil de fumante e querer ser ajudado. A partir daí, o uso de medicamento associado à terapia comportamental formam o combo perfeito para o pontapé inicial.

“O tratamento medicamentoso dura em torno de três meses. Depois disso, orientamos algumas mudanças na rotina, como adaptação no cardápio alimentar, muita hidratação com água e prática regular de atividade física.”

Como orientar o paciente com as crises de abstinência?

Abandonar a dependência do cigarro é um processo e exige muita força de vontade e paciência. As crises de abstinência não podem ser tão temidas pelos fumantes a ponto de estimulá-los a desistir, adverte a psicóloga e diretora executiva do Departamento de Psicologia da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp), Jennifer de França Oliveira Nogueira.

“A intensidade dos sintomas vai variar de pessoa para pessoa e está diretamente relacionada ao tempo de uso do tabaco e nível de dependência, tanto física como emocional. Entretanto, o mais importante nesse momento é saber que esses sintomas são passageiros.”

Em geral, os sinais de abstinência aparecem após as primeiras 24 horas sem fumar e podem durar entre sete e 14 dias, até um mês. Entre os principais, a psicóloga da Socesp cita dificuldade para dormir, dor de cabeça, tontura, tosse, ansiedade, estresse, aumento de apetite, dificuldade de concentração, irritabilidade, tristeza e sinais depressivos.

“Existem também sintomas mais intensos de início abrupto e duração rápida, como a chamada fissura, aquele grande desejo de fumar. No entanto, a duração é de apenas cinco minutos e perde as forças com o passar do tempo sem as tragadas.”

Na opinião da especialista, a fissura é o sintoma mais difícil de lidar, mas algumas estratégias aplicadas nesta situação são eficientes para driblar a vontade pelo cigarro e manter o foco no abandono do vício.

“A orientação é mudar o que está fazendo naquele momento, tomar um copo de água, sair ao ar livre, conversar com alguém ou assistir a algo interessante na televisão, tudo isto para tentar se distrair.”
Outra dica da especialista é ter acompanhamento psicoterápico específico para cessação do tabagismo, “assim o fumante irá compreender o papel do cigarro em sua vida, conhecer seus gatilhos e aprender formas práticas de como lidar com cada situação”, avisa Jennifer.

Ela diz ainda que evitar situações difíceis durante esse processo de parar de fumar, tentar diminuir o seu nível de estresse, reservar tempo para momentos agradáveis, praticar esportes, como caminhada, corrida ou natação, são muito úteis nesta fase.

Para entrar em abstinência, o fumante precisa ficar pelo menos por um ano sem colocar o cigarro na boca, “nem mesmo dar uma tragada porque esse simples ato pode fazê-lo voltar a fumar”, adverte a psicóloga do HCor.

“Consideramos recaída quando o fumante dá apenas uma tragada ou fuma literalmente por sete dias consecutivos. Pesquisas revelam que a cessação acontece depois de três a sete tentativas.”

Nesse processo, é fundamental mudar comportamentos que estejam associados ao cigarro, assim como não substituir o fumo pela comida. Como a nicotina libera o hormônio dopamina, que gera prazer, o tabagista recorre aos alimentos doces para obter a mesma sensação, já que o consumo de açúcar libera serotonina, que traz a mesma sensação de prazer e bem-estar.

“Vem daí o mito de que parar de fumar engorda. Por isso, nesse processo, a orientação é escolher alimentos menos calóricos e que ajudam a driblar o paladar, como frutas cítricas, iogurte desnatado e cenoura cortada em palitos, que lembra o formato do cigarro e exige bastante mastigação.”

Outra dica da especialista é mudar a rotina para desassociar o cigarro a café, bebida alcóolica, almoço, telefone, computador, momentos de estresse, etc. Nesse contexto, a inclusão dos exercícios físicos no dia a dia ajuda não só no alívio do estresse e no processo de emagrecimento, como também na liberação de endorfina e nos benefícios à saúde.

Foto: Shutterstock

Hilab está permitido

Edição 321 - 2019-08-08 Hilab está permitido

Essa matéria faz parte da Edição 321 da Revista Guia da Farmácia.

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