fbpx

A indústria farmacêutica em foco

Análise da EMIS Insights aponta que o Brasil deve se tornar o quinto maior mercado farmacêutico do mundo até 2022, superando a França

O Brasil está, ao poucos, deixando para trás a maior crise econômica de sua história. Desde 2014, o País vive um verdadeiro “salve-se quem puder” com taxas crescentes de desemprego, quedas bruscas e importantes no poder de compra do consumidor e consequente queda nas receitas da indústria, do comércio e do setor de serviços.

Embora imprescindível, o setor farmacêutico não passou ileso por esse processo. Um estudo divulgado em janeiro deste ano pela EMIS Insights – empresa que fornece informações estratégicas de empresas, setores e países dos mercados emergentes –, batizado de Brazil Pharma and Healthcare Sector 2017/2021, apontou, entre outros, que a indústria farmacêutica foi uma das mais afetadas pela recessão econômica no Brasil no período 2015-2016.

“Os laboratórios enfrentaram uma desaceleração do mercado doméstico, menor demanda no exterior e intensificação da concorrência, que provocaram um aumento dos estoques e dos descontos médios praticados”, avalia o editor da EMIS Insights na América Latina, Svetoslav Mladenov.

Segundo ele, do lado da oferta, o desempenho da indústria foi impactado negativamente pelo aumento dos custos de produção, principalmente da eletricidade e dos insumos importados, devido à desvalorização de 32% do real frente ao dólar em 2015.

Em 2017, o Brasil exportou produtos farmacêuticos por US$ 1,2 bilhão, uma alta de 3,6% frente ao ano anterior, com os principais destinos das exportações sendo os Estados Unidos, a Dinamarca, a França e os países da América Latina

“O aumento da carga tributária sobre os medicamentos, que já é a mais alta do mundo, juntamente com os reajustes de preços dos medicamentos abaixo da inflação em 2015 e 2017, foram fatores adicionais que comprimiram as margens do lucro”, diz.

O estudo da EMIS Insight revelou ainda que os laboratórios no País responderam a esse cenário com medidas para aumentar a eficiência operacional e obter economias de escala por meio de crescimento orgânico, fusões e aquisições, e internacionalização de suas operações.

“Por outro lado, algumas empresas decidiram adiar planos de investimento e colocar ativos à venda, o que desencadeou um intenso processo de reestruturação da indústria. No entanto, a EMIS Insights avalia que esse processo é positivo, pois oferece oportunidades para os laboratórios nacionais acumularem capacidades tecnológicas, ganharem economias de escala e diversificarem seu portfólio com produtos inovadores, como medicamentos biológicos e vacinas. Além disso, vai contribuir para o aumento da competitividade dos produtos nacionais no mercado internacional”, afirma Mladenov.

Em 2017, o Brasil exportou produtos farmacêuticos por 1,2 bilhão de dólares, uma alta de 3,6% frente ao ano anterior, com os principais destinos das exportações sendo os Estados Unidos, a Dinamarca, a França e os países da América Latina.

Mudança de ritmo

O mercado farmacêutico no Brasil tem desacelerado, aparentemente, desde o princípio de 2017. Fato que foi atribuído à lenta recuperação do poder de compra das famílias e aos apertados gastos públicos com medicamentos.

“Um fator adicional foi o baixo reajuste de preço dos medicamentos aprovado pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED) de 2,6%, em março de 2017. Ao mesmo tempo, os produtores de medicamentos no País continuaram a oferecer descontos comerciais altos, de 40,6% em média, em um cenário de estoques elevados e alto poder de barganha das redes de farmácias, reduzindo ainda mais as margens de lucro”, comenta Mladenov.

Segundo ele, em 2017, as vendas de medicamentos no mercado brasileiro, com base no preço de compra da farmácia (PPP), aumentaram 11,8% para R$ 56,9 bilhões, de acordo com o Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos no Estado de São Paulo (Sindusfarma).

Em unidades, o mercado subiu apenas 6,1%, abaixo do crescimento de 8,7% em 2016. “O mercado continuou a desacelerar no primeiro trimestre de 2018, com as vendas de medicamentos crescendo 8,6% em receita e apenas 3,6% em unidades. “A  EMIS Insights estima que o mercado continue a enfraquecer até o fim do ano, dado o baixo reajuste de preço dos medicamentos aprovado pela CMED de 2,4% em março de 2018, que ficou abaixo da inflação pelo segundo ano consecutivo, e a maior incerteza sobre as eleições de outubro próximo”, avalia Mladenov.

Subindo no ranking

Apesar da crise e com vendas estimadas em US$ 33,1 bilhões em 2017 (com base nos preços fábrica), o Brasil subiu duas posições no ranking global, tornando-se o sexto maior mercado farmacêutico do mundo, atrás dos Estados Unidos, da China, do Japão, da Alemanha e da França, segundo a IQVIA.

Além disso, conforme a pesquisa, espera-se que as vendas de medicamentos no País continuem a crescer a uma taxa anual composta entre 5% e 8% no período 2018-2022, bem acima do aumento dos gastos globais com medicamentos. “Como resultado, o Brasil deve se tornar o quinto maior mercado farmacêutico do mundo até 2022, superando a França”, afirma Mladenov.

Ainda de acordo com a pesquisa, ao mesmo tempo em que o País ganhou posições no ranking global, as vendas de medicamentos genéricos também cresceram 15,7% (dados do Sindusfarma). “Em unidades, as vendas subiram 11,7%, atingindo uma participação de 32% do mercado farmacêutico. Isso se deve ao seu preço competitivo (são pelo menos 35% mais baratos que os medicamentos de referência, de acordo com a lei), ao aumento do número de classes terapêuticas e à maior confiança do consumidor em medicamentos genéricos”, acredita.

Segundo ele, fatores adicionais foram as políticas do governo para fomentar as vendas de genéricos e ampliar o acesso ao tratamento médico para a população de baixa renda (por exemplo, o Programa Farmácia Popular do Brasil) e para apoiar a indústria farmacêutica nacional, que é em grande parte voltada à produção desse tipo de medicamentos.

Apesar da crise e com vendas estimadas em US$ 33,1 bilhões em 2017 (com base nos preços fábrica), o Brasil subiu duas posições no ranking global, tornando-se o 6º maior mercado farmacêutico do mundo.

“No primeiro trimestre de 2018, os genéricos continuaram sendo o principal motor do mercado, com aumento anual das vendas de 12,6% e 6,8% em receita e em unidades, respectivamente”, diz.

O Brazil Pharma and Healthcare Sector 2017/2021 apontou ainda que os Medicamentos Isentos de Prescrição (MIPs), incluindo dermocosméticos, foram outro segmento relativamente protegido da desaceleração do mercado. Algumas das razões destacadas para esse resultado são: a crescente conscientização da população sobre sua saúde; o lançamento de novos produtos, como alimentos funcionais e nutracêuticos; a cultura da automedicação no Brasil; e a contínua expansão das modernas redes de farmácias.

Em termos de medicamentos prescritos, a EMIS Insights também destaca o crescimento robusto das vendas de medicamentos biológicos, produzidos a partir de moléculas mais complexas (material genético ou alteração de genes) para o tratamento de doenças crônicas e câncer.

“Isso é apoiado pela acelerada mudança do perfil epidemiológico do País, pelo envelhecimento da população e pela crescente incidência de doenças crônicas não transmissíveis”, explica Mladenov.

Desafios a superar

Quando se fala em vendas, a pesquisa aponta que vários segmentos apresentam potencial de crescimento. A EMIS Insights estima que a demanda interna por medicamentos de referência permaneça forte, dadas as rápidas mudanças nos perfis demográfico e epidemiológico do País.

Não obstante, os medicamentos genéricos continuarão sendo o principal motor do mercado, devido ao seu preço competitivo, às medidas para contenção das despesas do governo e ao vencimento de patentes de vários medicamentos essenciais até 2020.

“Também existem oportunidades de crescimento em alguns segmentos de MIPs de nicho, como suplementos dietéticos, nutracêuticos, probióticos e dermocosméticos, em consonância com a crescente conscientização da população sobre sua saúde”, destaca Mladenov.

Ainda falando em oportunidades, em termos de produção, além dos medicamentos genéricos, em que o Brasil tem uma clara vantagem competitiva, a indústria farmacêutica nacional tem potencial significativo para diversificar seu portfólio com produtos inovadores, como medicamentos biológicos, vacinas e produtos biossimilares.

“Também existem fortes oportunidades de investimento no desenvolvimento do parque industrial de farmoquímicos, dada a alta dependência de importações de ingredientes farmacêuticos ativos (API)”, avalia Mladenov.

Para ele, cabe destacar que o Brasil continua sendo altamente dependente das importações de insumos farmacêuticos e produtos acabados para atender às necessidades de sua base industrial e população. Segundo a EMIS Insights, em 2017, as importações de produtos farmacêuticos no País atingiram 6,6 bilhões de dólares, uma alta de 2,6% em relação ao ano anterior.

Oportunidades identificadas

A transição demográfica e epidemiológica que o País vive inclui a demanda por medicamentos mais sofisticados, produtos biotecnológicos e vacinas.

“Isso cria desafios significativos para a indústria farmacêutica nacional, que é voltada à produção de medicamentos genéricos. Por outro lado, essa transição também oferece novas oportunidades. Nos últimos dois anos, vários laboratórios no País anunciaram planos de investimento em pesquisa e desenvolvimento e em produção de produtos inovadores, como antibióticos, vacinas, biossimilares e medicamentos biotecnológicos”, diz Mladenov.

O editor da EMIS cita exemplos de laboratórios que vêm investindo em suas operações como o Aché Laboratórios Farmacêuticos, que está construindo uma nova planta de R$ 500 milhões no estado de Pernambuco; além da Cimed Indústria Farmacêutica, que está fazendo um investimento de R$ 100 milhões em uma nova planta de medicamentos genéricos, similares e MIPs, incluindo dermocosméticos, em Minas Gerais.

Outro exemplo citado no estudo é o da Eurofarma Laboratórios que planeja investir R$ 600 milhões em uma nova fábrica de antibióticos, enquanto a Biolab Farmacêutica vai construir um novo complexo industrial de R$ 450 milhões.

“A Hypera Pharma também está considerando expandir suas operações com uma nova planta de R$ 500 milhões em Goiás”, afirma Mladenov. Para ele, a especialização da indústria nacional na produção de medicamentos com alto valor agregado também é apoiada pelo programa Parceria para o Desenvolvimento Produtivo (PDP) do Ministério da Saúde (MS), uma iniciativa público-privada que visa promover a transferência de tecnologia, fortalecer a base de produção doméstica e reduzir a dependência das importações de produtos farmacêuticos.

Produto nacional

Entre todas as análises apresentadas no estudo, uma das que mais chamam a atenção é o fato de que os brasileiros estão comprando cada vez mais medicamentos produzidos no País, o que sugere uma alta confiança na qualidade do parque industrial nacional, especialmente para a produção de medicamentos genéricos.

“Cabe destacar que, entre 2003 e 2017, a participação dos laboratórios de capital nacional no mercado farmacêutico no País subiu de 33,6% para 47,6%”, diz Mladenov.

Ele afirma que, em termos de unidades, a tendência de substituição de medicamentos estrangeiros com produtos de origem nacional é ainda mais evidente (aumento de 37,5% em 2003 para 65,3% em 2017).

“Isso foi apoiado pelo aumento robusto das vendas de medicamentos genéricos, uma vez que as empresas nacionais são amplamente especializadas na produção deste tipo de medicamentos. Além disso, a EMIS Insights espera que as empresas brasileiras continuem elevando sua participação de mercado graças à contínua expansão da sua capacidade de inovação e de produção”, comenta.

O estudo ainda conclui que a indústria farmacêutica do Brasil apresenta forte potencial de crescimento. De acordo com a EMIS Insights, as mudanças rápidas nos perfis demográfico e epidemiológico do País, combinadas com a recuperação econômica e a melhoria do mercado de trabalho, vão incentivar a demanda interna por medicamentos.

“Do lado da oferta, a reestruturação da indústria desencadeou um processo de redução de linhas de produção ineficientes e de diversificação do portfólio de produtos com medicamentos com alto valor agregado”, analisa Mladenov.

Segundo ele, como resultado, estima-se que os laboratórios brasileiros aumentem gradualmente suas posições competitivas na produção de produtos mais complexos. De acordo com a EMIS Insights, a produção de medicamentos no Brasil vai aumentar a uma taxa de crescimento anual composta de 6,6% em termos de valor no período 2017-2021, apoiada, principalmente, pela transição da indústria nacional para produtos com maior valor agregado.

Adicionalmente, as vendas dos laboratórios no País vão subir a uma taxa de crescimento anual composta de 5,3% no mesmo período, favorecidas tanto pela maior demanda interna quanto pela internacionalização das suas operações.

No primeiro trimestre de 2018, os genéricos continuaram sendo o principal motor do mercado, com aumento anual das vendas de 12,6% e 6,8% em receita e em unidades, respectivamente.

“Os laboratórios nacionais vão continuar a expandir suas posições internacionais por meio de crescimento orgânico e aquisições. Embora os principais mercados-alvo sejam os países da América Latina, vários laboratórios brasileiros conseguiram entrar em mercados maduros, altamente competitivos, como os Estados Unidos, o Canadá e a França, oferecendo medicamentos inovadores”, analisa Mladenov.

A EMIS Insights estima que as exportações de produtos farmacêuticos do Brasil vão subir a uma taxa de crescimento anual composta de 3,3% e 1,9% em volume e valor, respectivamente, no período 2017-2021.

Por outro lado, vários fatores estruturais continuarão a dificultar a competitividade da indústria farmacêutica brasileira no mercado internacional, como a elevada carga tributária, a alta burocracia e as deficiências na infraestrutura nacional de transporte.

“Como a transição da indústria farmacêutica nacional para produtos com maior valor agregado levará tempo para se materializar, o Brasil continuará a depender de importações de produtos farmacêuticos no médio prazo”, afirma Mladenov.

Ainda segundo a EMIS Insights, as importações de produtos farmacêuticos vão subir a uma taxa de crescimento anual composta de 8,2% e 2,1% em volume e valor, respectivamente, no período 2017-2021, impulsionadas principalmente pela alta demanda por medicamentos inovadores não produzidos no País. “Consequentemente, o déficit comercial em produtos farmacêuticos permanecerá alto, entre cinco bilhões e seis bilhões de dólares por ano”, finaliza Mladenov.

Foto: Shutterstock

Terceira idade em destaque

Edição 307 - 2018-06-01 Terceira idade em destaque

Essa matéria faz parte da Edição 307 da Revista Guia da Farmácia.