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A síndrome do olho seco atinge 20% da população mundial

Cerca de 340 milhões de indivíduos já foram diagnosticados com a doença no mundo

A Síndrome do Olho Seco é uma doença multifatorial das lágrimas e da superfície ocular (pálpebras, conjuntiva e córnea) que causa sintomas de desconforto, alterações visuais, instabilidade do filme lacrimal e inflamação da superfície ocular, ou seja, é provocada por alterações na composição ou produção das lágrimas que prejudicam a lubrificação dos olhos.

Segundo o médico oftalmologista do Hospital Santa Cruz, Dr. Gustavo Mori Gabriel, atualmente, adicionou-se à definição de olhos secos a agressão inflamatória crônica desta superfície associada à hiperosmolaridade (concentração anormal dos componentes superficiais), que cria um círculo vicioso entre lesão e inflamação com sequelas neurossensoriais, ou seja, pode gerar sintomas de dor a longo prazo por si só ao afetar receptores de dor e frio.

A oftalmologista do Hospital de Olhos (H.Olhos), Dra. Luciana Olivalves, afirma que a Síndrome do Olho Seco surge por uma deficiência da lágrima (diminuição da quantidade), por evaporação (alteração da qualidade) ou por uma associação dos dois fatores. “Há uma alteração inicial no filme lacrimal, quantitativa e/ou qualitativa, que associada aos fatores ambientais, variações hormonais e condições sistêmicas, desencadeia o quadro do olho seco.”

Incidência no Brasil e no mundo

A doença afeta em torno de 10% a 20% da população mundial, podendo chegar a 33% entre os orientais. Segundo dados divulgados durante o 1º Simpósio sobre a Síndrome do Olho Seco, realizado no fim de 2018, na cidade de Cuarnavaca, no México, 337 milhões de indivíduos já foram diagnosticados com a doença no mundo.

As mulheres são as mais afetadas, com probabilidade dez vezes maior de sofrer o incômodo do que os homens e mais aptas a adquirir os sintomas a partir dos 50 anos de idade, devido às mudanças hormonais. Só no Brasil, cerca de dois milhões de pessoas são diagnosticadas com a Síndrome do Olho Seco por ano.

“O tema é relevante visto que a prevalência varia de 14,5% a 18% em países, como Estados Unidos e Espanha, e entre 20% e 50% em países asiáticos, fator de risco étnico. Há incidência maior em faixas etárias maiores com sua menor reserva funcional e entre as mulheres, pelos efeitos dos esteroides sexuais, como os androgênios, que estão estabelecidos como tratamento da unidade funcional lacrimal, e o perfil hormonal ímpar como dos glicocorticoides, além de fatores de crescimento no sexo feminino. Os números são muito variáveis já que os sinais e sintomas também os são, assim como os critérios diagnósticos. Imaginando o Brasil com seus 200 milhões de habitantes, 10% representariam 20 milhões de afetados”, explica o Dr. Gabriel.

Sintomas e prevenção

Entre os sintomas da doença, estão o de sensação de corpo estranho no olho; olho seco; irritação, prurido ou queimação; e sintomas visuais, como flutuação e visão borrada durante o dia, problemas para assistir à televisão ou dirigir à noite associados a lidar com a luz.

“Um estudo realizado no Japão mediu o índice de felicidade e satisfação cotidiano, e os ‘menos’ felizes apresentavam mais sintomas de olho seco, mostrando uma faceta psicológica do problema. Incomoda e estigmatiza. Outro ponto é o uso de aparelhos eletrônicos, em que se passam horas com uma frequência baixa do piscar, além de exposição rotineira à poluição e a fatores ambientais, como ar condicionado”, revela o especialista.

Segundo a Dra. Luciana, estudos indicam que mulheres e idosos possuem maiores riscos para o olho seco, portanto, podem e devem usar lubrificantes oculares, as chamadas lágrimas artificiais.

“Doenças sistêmicas, como artrite reumatoide, diabetes mellitus e alterações da tireoide elevam o risco para desenvolver o olho seco, sendo importante o controle das mesmas. Os usuários de lentes de contato, de medicações sistêmicas (anti-histamínicos, anti-hipertensivos, antidepressivos e hormônios) apresentam sintomas de olho seco com maior frequência, devendo lubrificar mais os olhos.”

Auxiliar importante

Para entender melhor a doença e seu tratamento, o Dr. Gabriel orienta assumir a lágrima como primeira lente, que muda a cada piscar de olhos. “Ela possui duas camadas principais: a mucoaquosa em contato íntimo com a primeira interface do olho (córnea e conjuntiva), e a segunda mais externa, a camada lipídica (óleo). As glândulas lacrimais principais e acessórias produzem o componente aquoso, responsável pela hidratação, que possui componentes imunológicos de proteção. Compõe-se junto à camada de muco produzida por glândulas conjuntivais, permitindo a formação de um filme sobre as estruturas do glicocálice da superfície de modo estável, eficiente na ‘limpeza’ de microrganismos, de células inflamatórias e de restos celulares. Já a camada de lipídeos é produzida principalmente pelas glândulas de Meibomius, situadas na borda palpebral, e permite a tensão superficial necessária para que a lágrima não se desestabilize precocemente.”

Cuidados para quem usa lentes de contato

As lentes de contato são muito utilizadas para a correção de problemas da visão e também para tratamentos de doenças oculares, mas são necessários cuidados importantes no manuseio e preservação.

“É importante lembrar ao pacientes dos cuidados básicos, como lavar bem as mãos antes de manusear as lentes, usar soluções multiuso adequadas para limpeza, manter o estojo limpo e com troca frequente. O regime de uso das lentes (quantidade de horas por dia) e o descarte correto devem ser rigorosos. E o fundamental: nunca dormir com as lentes. Por fim, durante o uso das lentes de contato, usar lubrificantes oculares ou lágrimas artificiais, que ajudam na diluição do filme lacrimal, na composição e estabilidade do mesmo. O piscar é muito importante, pois faz com que haja a troca do filme lacrimal entre a córnea e as lentes de contato”, diz a oftalmologista do Hospital de Olhos (H.Olhos), Dra. Luciana Olivalves.

Para o oftalmologista do Hospital Santa Cruz, Dr. Gustavo Mori Gabriel, as lentes de contato são ótimas opções, se usadas com cuidado. “Na sensação de corpo estranho ou olho vermelho, sintomas de olho seco que podem ser causados pelas lentes, é preciso retirá-las. Nas caixas das lentes estão descritos os prazos de validade e os prazos de segurança para minimizar riscos de complicação. Não é indicado dormir com as lentes, já que durante a noite, a oxigenação da superfície ocular é bem mais baixa que de dia e o sistema imune com os olhos fechados tem sua eficiência reduzida, o que pode ser uma porta de entrada para bactérias de difícil tratamento e gerar inflamações. As águas da piscina ou do mar também possuem microrganismos, como amebas, capazes de causar infecções graves.”

Segundo o Dr. Gabriel, o problema dos olhos secos pode ser dividido em deficiência de produção aquosa, primária, pela Síndrome de Sjögren, em geral, associada também à boca seca, em que ocorre destruição celular das glândulas lacrimais por células T ativadas, uma lesão autoimune, agressão causada pelo sistema imunológico do próprio paciente; secundária, com a Síndrome de Sjögren associada a outras doenças autoimunes, mais comumente à artrite reumatoide, não associada à Síndrome de Sjögren, relacionada, por exemplo, à redução da produção com o avançar da idade de modo intrínseco, ou por doenças inflamatórias, infecciosas ou neurológicas que lesam ou deixam de estimular a produção das glândulas.

“A síndrome também pode ser causada pela instabilidade da lágrima e evaporação anormal do componente aquoso, sendo intrínsecos, como disfunção da glândula de meibomius, produtora do componente lipídico e a causa mais comum de olho seco, podendo estar associada a doenças, como acne rosácea e dermatite seborreica; desordens do fechamento palpebral por iatrogenias cirúrgicas; efeitos colaterais de medicamentos de uso sistêmico; baixa frequência do piscar; e extrínsecos, como a deficiência de vitamina A; medicações oculares; uso de lentes de contato; doença da superfície, como conjuntivites alérgicas; e cirurgias oculares”, explica o Dr. Gabriel.

Lágrimas artificiais e colírios lubrificantes

Antes de falar da importância das lágrimas artificiais, é imprescindível definir a causa ou as causas do olho seco. “As lágrimas artificiais ou lubrificantes oculares ajudam a melhorar o filme lacrimal, tanto na quantidade como na qualidade, dependendo da sua composição. Se for um olho seco leve, o ideal é usar as lágrimas artificiais quatro vezes ao dia e gel lubrificante à noite ao deitar. No caso de olho seco moderado, as lágrimas artificiais não devem conter preservativos para que possam ser usadas várias vezes ao dia e, em algumas situações, associadas a colírios anti-inflamatórios e/ou imunoduladores tópicos. Já no caso de olho seco severo, além do tratamento tópico descrito, existe o colírio de soro autólogo (preparado a partir do soro do próprio paciente) e também procedimentos cirúrgicos”, revela a Dra. Luciana.

O Dr. Gabriel diz que, como o próprio nome diz, a lágrima artificial se propõe a repor ou incrementar a lágrima alterada, com a função de criar um ambiente sem sintomas e propício para uma superfície ocular normal e regular, que permita uma captação regular da luz, como é esperado de uma visão adequada.

“Para pacientes que já possuem olho seco moderado ou grave, ou ainda, que utilizam o colírio mais de quatro vezes ao dia, há também a opção de emulsões a fim de substituir componentes lipídios da lágrima. Qualquer que seja o tipo de colírio, é importante não encostar o aplicador nos olhos, acondicioná-lo em local seco, sem exposição solar direta, e não deixá-lo sobre a pia do toalete em contato com vapores do vaso sanitário e outros, evitando contaminações inesperadas. Comercialmente, há colírios que ‘deixam os olhos brancos’, eles têm função específica, mas os lubrificantes ainda seriam a primeira escolha mais segura para evitar sintomas como esse.”

Atuação das lágrimas artificiais na síndrome do olho seco

Colírios lubrificantes substituem a lubrificação ocular natural por uma sintética.A lágrima artificial se propõe a repor ou incrementar a lágrima alterada, com a função de criar um ambiente sem sintomas e propício para uma superfície ocular normal e regular.

O filme lacrimal é reconstruído, dando a sensação natural de olhos bem lubrificados e protegidos.

A composição é similar à lágrima humana natural.

A aplicação dá conforto, alívio da coceira e protege os olhos com uma camada protetora e lubrificante.

Fonte: oftalmologista do Hospital Santa Cruz, Dr. Gustavo Mori Gabriel

O uso da lágrima artificial é o mais indicado para o problema dos olhos secos, mas existem outras opções de tratamentos. “Por exemplo, em portadores de disfunção de glândula de meibomius (blefarite, inflamação da região de borda palpebral), a causa mais comum de olho seco, existe uma sensação de corpo estranho; coceira, principalmente, nos cantos dos olhos; flutuação da visão e piora após atividades que exijam concentração, como o uso de computadores. O uso de lubrificantes é conveniente para o tratamento sintomático, sim, e para a causa em si, iniciamos com a higiene dos cílios, que pode ser feita com xampu neutro diluído em água e aplicado com cotonete, ou utilizar espumas ou lenços especializados. Diminuímos assim as colônias bacterianas da base da palpebra, que causam degradação dos óleos e inflamação local. Também lançamos mão de compressas quentes (em torno de 45 graus e duração de cinco minutos) para fluidificar as secreções da superfície ocular”, explica o Dr. Gabriel.

Na ineficácia do tratamento simples, com o aumento dos efeitos colaterais, o Dr. Gabriel orienta o uso de anti-inflamatórios, como corticoesteroides e imunossupressores (ciclosporina A, tacrolimus) tópicos; tetraciclinas ou azitromicina com funções imunomoduladoras e não apenas antibióticas; oclusão do ponto lacrimal para aumentar o volume lacrimal, reduzindo sua drenagem; e cuidados noturnos com câmaras úmidas ou pomadas associadas à oclusão.

“Na terceira linha de tratamento, indico o uso de lentes terapêuticas e soro autólogo e, na quarta linha, os anti-inflamatórios sistêmicos e intervenções cirúrgicas, como correção de pálpebras, implante de glândulas salivares ou transplante de membrana amniótica.”

Foto: Shutterstock

Conhecimento é Tudo!

Edição 319 - 2019-06-06 Conhecimento é Tudo!

Essa matéria faz parte da Edição 319 da Revista Guia da Farmácia.

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