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A vida após o diagnóstico da Diabetes

Os pacientes com diabetes precisam encarar uma mudança no estilo de vida, envolvendo dieta equilibrada e uso de terapia indicada pelo médico. Mas a qualidade de vida pode ser preservada

No mundo, um em cada 11 adultos tem diabetes, totalizando, aproximadamente, 415 milhões de pessoas, segundo dados do International Diabetes Federation (IDF), divulgados em 2015. No Brasil, as estatísticas são igualmente alarmantes: o País figura no quarto lugar no ranking mundial da doença, contabilizando 14,3 milhões de pessoas com diabetes. “Além da população estar envelhecendo (o que por si só aumenta o risco), há um aumento da prevalência de excesso de peso (sobrepeso e obesidade), bem como maior inatividade física das pessoas, e ingestão de alimentos altamente concentrados em carboidratos. Vemos, assim, uma relação com o estilo de vida e o aumento do diabetes entre essas pessoas”, sinaliza a endocrinologista e professora de Endocrinologia & Metabologia da Universidade Estácio de Sá (UNESA), Dra. Dhiãnah Santini de Oliveira Chachamovitz. Essa realidade faz com que os dados do IDF já indiquem que, até 2040, a projeção do número de pessoas com diabetes no País salte para 23 milhões de casos.

Apesar de todo o risco que a enfermidade envolve – como doença arterial coronariana, neuropatia diabética, lesões nos rins e problemas na visão –, até que seja feito o diagnóstico e seguido o tratamento, o caminho pode ser longo. “O diagnóstico, por vezes, é feito muito tardiamente. Em alguns casos, o paciente já tem a doença, mas não apresenta sintomas. Enquanto isso, o diabetes vai se desenvolvendo e trazendo complicações”, adverte o coordenador do grupo de educação e controle do diabetes do Hospital do Rim da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e coordenador do site da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), Dr. Augusto Pimazoni Netto.

Diante das complicações do diabetes e da importância da adesão ao tratamento, é muito importante que os profissionais de saúde, a exemplo dos farmacêuticos, adotem estratégias efetivas para enfrentar esse problema e trazer mais qualidade de vida a esses pacientes.

Outra grande preocupação da classe médica e que também é responsável pelo crescimento dos índices da doença de forma global é a aceitação do diagnóstico, que nem sempre é tão fácil. “O sentimento de fracasso pessoal, atrelado à sensação de culpa pela progressão ou falta de controle da doença, é relatado com frequência por pacientes não aderentes à terapia. As barreiras como a dificuldade de conciliar a rotina de medicações com as demandas diárias e a falta de conhecimento sobre a doença e sobre as metas a ser alcançadas são importantes fatores para a baixa adesão ao tratamento”, sinaliza a gerente médica de Trulicity, Dra. Maria Cristina Valzachi.

O fato é que quanto maior a complexidade terapêutica, o número de medicamentos prescritos e as complicações associadas, tem-se uma forte tendência à falta de adesão. Para o endocrinologista e gerente médico de diabetes da Novo Nordisk, Dr. Rodrigo Mendes de Carvalho, para garantirmos uma boa adesão no tratamento do diabetes é importante individualizar a história de cada paciente, idade, tipo de diabetes, tempo de doença, comorbidades e complicações associadas, fatores socioeconômicos, entre outros. “Indubitavelmente, a individualização e humanização do tratamento do paciente com diabetes conjugadas a terapias mais modernas impacta, positivamente, na boa adesão do paciente”, adverte.

Atenção farmacêutica

Diante das complicações do diabetes e da importância da adesão ao tratamento, é muito importante que os profissionais de saúde, a exemplo dos farmacêuticos, adotem estratégias efetivas para enfrentar esse problema e trazer mais qualidade de vida a esses pacientes. Neste sentido, algumas farmácias pelo País passam a prestar um atendimento diferenciado aos pacientes, e pessoas com diabetes são algumas das contempladas.

Na Drogaria São Bento, por exemplo, há o programa Saúde em Dia, no qual as lojas da rede preparam o paciente para compreender o que é o diabetes, como prevenir e evitar complicações. “São trabalhadas as dificuldades com os medicamentos, otimizando, por meio desse processo de compreensão e autonomia, a adesão ao tratamento. O paciente é encaminhado ao médico para retomar o controle da doença, caso esteja sem acompanhamento desse profissional”, lembra a superintendente farmacêutica e superintendente da Rede de Drogarias São Bento, Flávia Buainain Thomazi França, reforçando que o paciente sempre será estimulado a seguir corretamente a prescrição médica e comparecer aos retornos. “Os pacientes do programa monitoram os parâmetros bioquímicos e fisiológicos periodicamente e recebem, ao fim do acompanhamento, um relatório para entregar ao médico”, acrescenta. Também são contempladas as orientações quanto à rotina de tomada dos medicamentos, e a distribuição de diários da saúde e cartilhas educativas para trazer mais esclarecimentos sobre a doença.

As Farmácias Pague Menos fazem um trabalho similar. A rede iniciou, em 2014, a implantação do Clinic Farma, para a prestação de serviços de Atenção Farmacêutica, como acompanhamento do tratamento prescrito pelo médico, revisão da medicação, esclarecimento de dúvidas e, contemplando o acompanhamento para clientes com diabetes, que hoje respondem por quase 14% de todos os atendimentos realizados pelo programa. “O atendimento clínico ao diabético no Clinic Farma está direcionado para a prevenção, detecção precoce, acompanhamento de tratamento medicamentoso e monitorização do paciente diabético por meio da medição da glicemia”, afirma a coordenadora técnica farmacêutica das Farmácias Pague Menos, Cristiane Macêdo Feijó. Na Clinic Farma, também há envolvimento entre farmacêuticos e outros profissionais de saúde, garantindo uma maior segurança na adesão ao tratamento. “As orientações fornecidas estão voltadas para o estímulo de mudanças de hábito, como prática de exercícios físicos e controle da dieta, redução do índice glicêmico, hidratação e cumprimento dos horários de tomada dos hipoglicemiantes orais ou insulina”, resume a farmacêutica do SAC Farma da Pague Menos, Vanessa Maria de Souza Fernandes Vieira.

Medicamentos inovadores

O avanço da medicina é notável para o tratamento do diabetes. A Dra. Dhiãnah, da UNESA, cita, por exemplo, as insulinas de ação ultralonga, que dão menos hipoglicemia e são mais estáveis; e os inibidores do cotransportador de sódio-glicose, que além de controlarem a glicemia somente quando ela estiver alta, trazem outros benefícios. “Eles levam à diminuição da pressão arterial, do peso e ainda protegem quanto ao risco de morte, insuficiência cardíaca, doença renal e eventos cardiovasculares, como derrame e infarto do miocárdio”, diz. A especialista também menciona os agonistas do GLP-1, um hormônio intestinal sintético injetável, que age de forma efetiva para o controle do diabetes, sem causar hipoglicemia, e ainda leva à diminuição da fome, perda de peso, diminuição da pressão arterial, entre outros benefícios.

A Lilly, por exemplo, trouxe, ao Brasil, uma nova alternativa ao tratamento do diabetes, o Trulicity, usando a dulaglutida. Este ativo é um agonista do receptor de GLP-1, de ação prolongada, que atua aumentando a liberação de insulina na presença de altos níveis de glicose e diminuindo a quantidade de glucagon, além de apresentar várias outras ações anti-hiperglicêmicas do GLP-1. “O Trulicity vem em uma caneta aplicadora pronta para uso, que permite a confirmação da aplicação da dose, e conta com uma agulha de pequeno calibre que não fica exposta ao paciente”, explica a Dra. Maria Cristina. Um dos grandes ganhos deste medicamento é a possibilidade de uso semanal, substituindo a necessidade de injeções diárias. “Essa facilidade tende a contribuir para a adesão do paciente ao tratamento”, projeta.

Diabetes: entenda a rotina

Dia possível de um paciente com diabetes que usa medicação e insulina

  • Ao despertar, o paciente deve fazer o teste da ponta do dedo (glicemia capilar). Com essa medida, o paciente contabiliza o que vai comer por meio da contagem de carboidratos e decide a dose da insulina, imaginando se irá realizar atividade física ou não.
  • Na hora em que for almoçar, deve repetir o mesmo procedimento para poder decidir se irá aplicar nova dose de insulina. Se o paciente utiliza esquema de insulina em cada refeição, o paciente deve se alimentar e tomar os medicamentos indicados pelo médico.
  • No meio da tarde, deve-se medir, novamente, a glicemia e, se for comer um lanche, verificar se precisa aplicar nova dose de insulina. É por meio desse resultado que o paciente verá como ajustar o que vai comer e seu controle glicêmico.
  • Ao dormir, o mesmo processo deve ser repetido. A rotina é muito importante e precisa ser individualizada.

Fonte: endocrinologista e diretora da Associação Diabetes Brasil (ADJ), Dra. Denise Reis Franco

FREQUÊNCIA DO TESTE DE GLICEMIA

No início do tratamento

Nesse estágio, ou em ajustes dos medicamentos, ou intercorrências clínicas (exemplo infecções) ou, ainda, em episódios de hipoglicemia graves, existe a necessidade de maior frequência de medidas (glicemias pré-prandiais e pós-prandiais).

Em condições estáveis

Se a condição clínica do paciente for estável, com baixa variabilidade nos resultados dos testes e glicemias próximas às metas estabelecidas [Diabetes Melitus 1 e 2 (DM1 e DM2)], e usuário de insulina, recomenda-se, pelo menos, dois testes por dia em diferentes horários. Se o paciente for portador de DM2, com tratamento via oral, a recomendação é de, pelo menos, dois testes por semana, em diferentes horários.
Fonte: médica com atuação em endocrinologia e clínica médica, Dra. Vanessa Mateus Scalfi Favoretto

Formas de tratamento para…

DM1

O uso de insulina é imprescindível no tratamento do DM1 e deve ser instituído assim que o diagnóstico for realizado. O tratamento intensivo do DM1, com três ou mais doses diárias de insulina de ações diferentes ou sistema de infusão contínua de insulina, é eficaz em reduzir a frequência de complicações crônicas do DM.

DM2

De maneira geral, o tratamento do DM2 inicia-se com modificações do estilo de vida, associado à metformina em monoterapia, segundo explica a Dra. Vanessa. Porém, se o paciente apresenta descompensação importante da glicemia (> 200 mg/dL) e sintomas clínicos importantes, como aumento da sede e volume urinário e perda de peso, a Dra. Vanessa recomenda iniciar tratamento com terapia medicamentosa dupla (combinação de duas drogas via oral) ou até a segunda droga podendo ser a insulina.

Principais mudanças após o diagnóstico

Acompanhamento médico regular
Pacientes com diabetes precisam adotar uma rotina de consultas médicas e serem tratados por especialista da área, atentos quanto às novidades para o diagnóstico, controle e tratamento da doença – tornando o tratamento do paciente mais efetivo, seguro e fácil, conforme indica a médica com atuação em endocrinologia e clínica médica, Dra. Vanessa Mateus Scalfi Favoretto. “O bom controle metabólico do diabetes previne o surgimento ou retarda a progressão de suas complicações crônicas.”

Dieta equilibrada

Portadores de DM tipos 1 e 2 e seus familiares devem ser inseridos em programa de educação nutricional a partir do diagnóstico. “A ingestão dietética de carboidratos para pessoas com diabetes segue recomendações semelhantes às definidas para a população geral, respeitando concentrações entre 45% e 60% do requerimento energético”, esclarece a Dra. Vanessa, lembrando que para quem tem diabetes, uma ferramenta muito importante é a contagem de carboidratos. “Essa é uma terapia nutricional, onde contabilizamos os gramas de carboidratos consumidos nas refeições e nos lanches, com o objetivo de manter a glicemia dentro de limites convenientes”, sugere.

A professora e coordenadora da Unidade de Diabetes do Serviço de Endocrinologia e Metabologia do Hospital de Clínicas da UFPR (SEMPR), Dra. Rosângela Réa, lembra, ainda, o benefício dos inibidores da SGLT2. “Eles agem, principalmente, por meio da perda de glicose na urina, não causam queda excessiva no nível de açúcar no sangue e podem auxiliar na diminuição do peso e pressão arterial”, destaca.

E as inovações não param de chegar ao Brasil. A Sanofi recebeu a aprovação de registro do medicamento Soliqua pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Trata-se de um novo produto, que deve estar disponível no mercado em 2018, e que se constitui em uma combinação fixa de insulina glargina (U100) e lixisenatida, em dose única diária. A indicação é para pacientes adultos que precisam melhorar o controle glicêmico com DM2, inadequadamente controlado com medicamentos hipoglicemiantes orais isolados ou combinados com insulina basal, ou insulina basal utilizada isoladamente. “Além de reduzir o nível de açúcar no sangue em pacientes que têm dificuldade de manter o controle com insulinas ou medicamentos orais, essa opção terapêutica tem demonstrado redução de efeitos adversos que causam muitas queixas do paciente, como ganho de peso e risco de hipoglicemia”, comentou o vice-presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), Dr. Alexandre Hohl.

Marco histórico

Edição 300 - 2017-11-01 Marco histórico

Essa matéria faz parte da Edição 300 da Revista Guia da Farmácia.