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Saúde na América Latina em debate

Tema foi discutido durante convenção organizada pelo Financial Times, em Miami, nos Estados Unidos. Líderes do mercado apontaram os desafios do sistema que atenderá uma população que tende a viver cada vez mais 

Companhias internacionais estão expandindo seus negócios para a América Latina como uma forma de tentar aumentar o acesso da classe média à saúde. Os custos pagos pelo sistema público não suprem as necessidades e muitas alternativas apresentadas pelo sistema privado estão crescendo de forma vertiginosa, seja por meio de convênios ou, ainda, de forma mais elaborada, seguros que oferecem uma solução completa ao paciente: consulta médica, exame de diagnóstico, resultado e, por fim, o medicamento, para a garantia de adesão ao tratamento.

As apostas das indústrias farmacêuticas estão voltadas para doenças infecciosas, relacionadas à pobreza e/ou ao estilo de vida e envelhecimento, fatores que requerem medicamentos e tratamentos mais customizados. Existem muitos desafios e necessidades a ser atendidos, como desenvolvimento e pesquisa de novos fármacos, regulamentação e, principalmente, preço.

Os temas citados foram discutidos durante um dia inteiro, por executivos e autoridades do Chile, Colômbia, Venezuela, Bolívia, Peru, Estados Unidos, Alemanha, Argentina e Brasil, no FT Latin America Healthcare and Life Sciences Summit, que aconteceu em Miami, Estados Unidos, em setembro último.

De acordo com o presidente da Universidade de Miami, Julio Frenk, a América Latina tem sido inexplicavelmente ausente do debate sobre o desenvolvimento global. O executivo explica que, quando se fala em sucesso do desenvolvimento, os olhares estão voltados para os tigres asiáticos, China e Coreia; já no que diz respeito ao desafio do desenvolvimento, ouve-se falar da África. Mas por que não falar da América Latina? “Eu acho que uma das razões é que há a percepção de que temos conquistado muitos dos desafios de desenvolvimento. Bem, isso é verdade, não há dúvida, a América Latina é uma das regiões em desenvolvimento com maior progresso. O fato é que continua a ser uma das regiões mais desiguais do mundo, ou seja, há diferenças graves entre seus países. Se você analisar os números de uma parte da população indígena que habita essa região, você encontrará taxas de mortalidade vistas em muitos países africanos.”

De acordo com Frenk, as inovações dos últimos 20 anos estão posicionando a América Latina como uma das primeiras regiões em desenvolvimento no mundo no que diz respeito à cobertura de saúde, sobretudo, ao desenvolvimento sustentável. “O grande problema a ser enfrentado está no envelhecimento da população e na transmissão de doenças que acabam se tornando uma condição crônica, as pessoas vivem com câncer, vivem com HIV/aids, vivem com diabetes, por um longo período de tempo. Os casos agudos em que se recupera ou morre estão diminuindo.”

Frenk ressalta que isso tudo gera problemas graves, pois há uma lacuna entre inovação e acesso. “Poder cuidar da saúde não é um privilégio, mas um direito universal das pessoas e isso, naturalmente, coloca uma enorme pressão política sobre os sistemas de saúde.”

Ele comentou sobre o caso do México, que passou por uma reforma de saúde, com financiamento público. “Foi criado seguro de saúde público, que abrangeu 50 milhões de pessoas, metade da população, as mais pobres, que haviam sido excluídas do regime de segurança social convencionais, garantindo acesso a mais de 250 serviços essenciais e mais de 60 de alto custo, intervenções de alta tecnologia, tratamento para o câncer, HIV/aids, entre outros.” Frenk complementa: “Uma das lições políticas que se podem obter é que mover recursos do implícito para benefícios explícitos pode ser um instrumento muito poderoso porque permite recursos de prestação de contas. Permite a tomada de decisões que otimiza investimentos públicos e privados na área da saúde”.

Para ele, em vez de uma reforma abrangente, que cobre todos os tipos de inovação, é preciso pensar primeiro na inovação tecnológica, que é considerada como uma área central, aproveitando a promessa revolucionária da tecnologia, da informação e da comunicação para as ciências da vida, pelo uso, por exemplo, de plataformas móveis que ofereçam resultados personalizados.

O ministro da Saúde da Colômbia, Fernando Ruíz, acredita que, para cada sistema de saúde, a sustentabilidade financeira é um marco importante, porém os recursos de saúde são limitados e é fundamental manter os baixos níveis de despesas “fora do bolso”, ou seja, pagos pelo governo. “Para garantir a sustentabilidade financeira do sistema de saúde, temos de abordar a pressão econômica tecnológica, demográfica e social. Na Colômbia, a classe média cresceu 14% nos últimos 15 anos. Lá, se gasta um quinto das despesas de saúde que a maioria dos países desenvolvidos gasta por pessoa, mas a inclusão de novas tecnologias é essencial para manter a legitimidade do sistema, tornando a sustentabilidade um desafio real.”

Ruíz ressalta que, na Colômbia, na segunda metade da década passada, novos medicamentos, não inclusos no pacote de benefícios cobertos pelo seguro, começaram a ser pagos com fundos públicos. “O estado estava disposto a pagar por quase tudo, a qualquer preço. Os pagamentos para novos medicamentos aumentaram e, consequentemente, as dívidas com fornecedores cresceram rapidamente. A fim de equilibrar as pressões financeiras e melhorar o desempenho do sistema de saúde da Colômbia, estamos implementando um pacote abrangente de estratégias.”

Segundo relata o ministro da Saúde, a política farmacêutica nacional é que contempla uma resposta direta à pressão tecnológica. Segundo ele, é preciso dizer “sim” à inovação tecnológica. “Devemos identificar e priorizar novas tecnologias que realmente contribuam para a saúde e o bem-estar da população. O sistema não pode pagar por tecnologias ineficazes.”

Outro destaque fica por conta da atenção primária à saúde, aumentando a disponibilidade dos serviços básicos. “Em resumo, precisamos de um sistema de saúde que trabalha no atendimento-base, um sistema de promoção de saúde, que exige: liderança política, regulamentação eficaz e tecnologias de baixo custo, a preços acessíveis.” Ruíz falou ainda sobre a importância da regularização de preços dos medicamentos genéricos e similares.

Para o laboratório Takeda, representado no evento por seu atual presidente no Brasil, que assumiu a posição de Head LATAM, Ricardo Marek, as necessidades de saúde específicas dos países latino-americanos ganham ainda mais força nas discussões estratégicas da companhia. “Na América Latina, por exemplo, a vacina contra a dengue é uma questão emergencial e, por isso, queremos buscar soluções que atendam plenamente às necessidade reais das pessoas que vivem em regiões que são mais afetadas.”

A importância do Brasil

Brasil e México são os dois maiores países da América Latina, até mesmo por uma questão de demanda. O diretor da Deloitte Brasil, Enrico de Vettori, enfatizou que o Brasil responde por 50% desse mercado, desta forma, será sempre área prioritária de investimentos. Segundo ele, o País terá mais investimentos vindo de fora do que exportará. “Estamos em promoção. Antes você tinha um câmbio de dois e hoje tem um câmbio de quatro, isso tudo aconteceu de maneira muito rápida. Então você ainda quer separar o pouco dessa economia gerada em função do câmbio, para que possa ter disponibilidade de caixa a fim de atravessar a crise, ainda assim, estará na vantagem, porque o investimento necessário para vir ao Brasil dois anos atrás será feito com a metade dele.”

Vettori acredita que um evento desta magnitude é muito importante para mostrar as forças da região. “O Brasil não é nem tão bom, nem tão frágil, como a própria mídia passou a explorar nesse passado recente. Temos problemas, mas a crise vai passar. A corrupção se dá muito no que tange o privado com o público, mas no privado com o privado não existe. Está havendo um entendimento maior de que não adianta abrir o bolso e sair gastando indiscriminadamente porque, além da criatividade de pedaladas, chega um momento em que é muito pior do que o anterior, primeiro, porque tem de se retirar o que se deu e, segundo, porque se tem um país completamente fragilizado e desacreditado.”

Outro destaque ficou por conta da importância do capital humano. O sócio sênior – Ciências da Vida, da Korn Ferry, Rodrigo Araújo, informou que todo mundo está falando em reduzir o custo, em proporcionar maior qualidade de tratamento aos pacientes, uma maior efetividade aos meios influenciadores e de agentes da cadeia. “Há aderência daquilo que precisa ser feito. O grande desafio está em como isso vai ser implementado, o que passa por discussões complexas que passam pela forma com a qual os diferentes agentes da cadeia de saúde irão trabalhar essas questões de maneira mais abonativa, talvez movimentando uma agenda mais setorial e menos individual.”

O executivo explicou que existem jogadores, empresas e lideranças extremamente ativos nesse processo. Entretanto, essa é uma indústria que viveu muito pouco a revolução em sua história. “Então, você olha para o farmacêutico e ele basicamente opera há anos, dezenas de décadas, num formato ainda bastante pouco evolutivo. Você olha para o prestador de serviço, os hospitais, muitas vezes também. Eles fazem algumas inovações, o que chamamos de inovação incremental, por exemplo, um hospital generalista passa a ser especialista. Esse setor ainda não passou por aquilo que chamamos de inovação disruptiva. Como serão os hospitais daqui há alguns anos? De que forma eles atuarão? A única certeza que temos é de que o paciente não deverá estar lá.”

Araújo reforçou dizendo que a grande maioria das pessoas chegará aos seus 80 anos de idade com boa saúde; segundo ele, há indicadores que mostram essa evolução. “Mas a pergunta que fica é: qual o custo desse processo? Essa é a grande discussão da história. Sem dúvida, nós vamos encontrar a fórmula. Assim, precisamos definir o perfil de líderes que atuarão nesse contexto de muita ruptura, de muita inovação, de elementos digitais. Os novos profissionais irão liderar este processo de transformação.”

Ele acredita que a indústria, provavelmente, será muito diferente do modelo atual, com a tendência de acoplar uma série de características de gerações que estão à frente e que a geração seguinte não vivenciou.

Marek, da Takeda, enfatizou dizendo que o mercado precisa de pessoas flexíveis e ao mesmo tempo resilientes, para lidar com os altos e baixos de um mercado emergente.

Custo, acesso e alternativas disponíveis

Nos últimos anos, um número maior de pacientes da América Latina tem tido maior acesso aos cuidados de saúde, mais pacientes são tratados de forma adequada, mais pacientes são tratados melhor. Mas, ainda assim, é preciso reconhecer que muitos não são capazes de acessar tratamentos inovadores, e pior, tratamentos de doenças corriqueiras. E isso é um problema.

“Pela crescente demanda dos consumidores da América Latina, nota-se a tendência do aumento de produtos de saúde e tendência para bens de consumo, que tornem a vida cotidiana mais conveniente”, disse a CEO Global da divisão Consumer Health da Merck, Uta Kemmerich-Keil, durante sua apresentação.

A executiva ressaltou que os negócios da empresa estão voltados para antecipar as rápidas mudanças demográficas da região e disponibilizar aos consumidores o que eles precisam para suas necessidades de saúde. Segundo ela, a América Latina é a região que tem apresentado um dos maiores crescimentos para o laboratório.

Uta revelou que um dos maiores trunfos é possuir marcas com cerca de 80 anos de mercado, como a vitamina C, Cebion, por exemplo, o que faz com que haja um relacionamento de confiança construído entre a empresa e seus consumidores.

Foco no consumidor

Após as discussões apresentadas durante a convenção, a CEO Global da divisão Consumer Health da Merck, Uta Kemmerich-Keil, recebeu um seleto grupo de jornalistas para uma entrevista exclusiva.

Lígia Favoretto: Os suplementos vitamínicos e alimentares têm ganhado cada vez mais espaço no mercado, por atuarem como alternativas preventivas. Isso tende a crescer?

Uta Kemmerich-Keil: Eu acho que quando você olha para o mercado, produtos Over The Counter (OTC), eles desempenharão papéis importantes e as vitaminas têm um pedaço relevante. Alguns mercados, como a Europa, são mais maduros. Mas o que se percebe é que é possível trabalhar para o bem-estar. Esse é um sinal de que depois de cobrir suas necessidades básicas, você cuidará de seu bem-estar, ou seja, os investimentos em estilo de vida aumentarão. Mas para que todos tenham hábitos preventivos, é preciso investir mais em educação. As noções básicas de prevenção exigem um certo nível educacional, por exemplo: o frio está chegando e, por isso, vou tomar algo que me proteja, como uma vitamina C e zinco. As pessoas precisam saber como essas coisas funcionam e que é parte do que empresas, como nós, fazemos. Educamos, ajudamos as pessoas a entender o que fazer.

Lígia: As pessoas acreditam em marcas. De que forma a Merck vem trabalhando suas marcas em farmácias e drogarias?

Uta: Você está absolutamente certa. As pessoas pesquisam, navegam na internet, conferem se este ou aquele é o produto de que precisam, para depois, sair e comprá-lo. Algumas pessoas consultam amigos. Algumas vão à farmácia. Nós preferimos trabalhar com as farmácias, porque acreditamos que os farmacêuticos são profissionais de alta qualidade. Nós gastamos muito esforço em formação não só de farmacêuticos, mas também dos balconistas, para que possam ser bons conselheiros e entendam as necessidades dos consumidores. Você quer ter certeza de que o seu consumidor está feliz com o que ele está comprando? Espere ele voltar. Com o conselho certo, ele sempre voltará.

Lígia: Você acredita que os consumidores estão preparados para escolher pelos medicamentos isentos de prescrição?

Uta: Depende. Se o paciente tem uma dor de garanta recorrente, já sabe o que irá curá-lo, ou seja, passa a ser um usuário leal de determinada marca. Mas os farmacêuticos também podem identificar algumas deficiências da saúde e auxiliar na compra. A farmácia é o lugar onde todos nós iremos, a longo prazo.

Lígia: De que forma a Merck fornece educação a esses profissionais?

Uta: Promovemos educação continuada de diversas formas para toda a cadeia. Temos utilizado muito treinamentos on-line, que o profissional pode escolher quando fazer. Queremos ajudar as pessoas a fazer escolhas. 

 

Ela reforçou a necessidade de oferecer opções de autodemanda para a população. Ter marcas Over The Counter (OTC) faz com que as pessoas não precisem ir ao médico, consigam fazer suas escolhas e resolvam problemas de primeira necessidade. “Isso nos permite falar diretamente com os consumidores e o foco está em entender as necessidades desses consumidores, baseando nosso trabalho neles.”

Ao olhar para o mercado de OTC, a executiva afirma que é a categoria mais forte. “Eu acredito, fortemente, que a América Latina é uma enorme oportunidade para as empresas que querem atuar nesse nicho. As pessoas estão cada vez mais conscientes de que precisam manter a saúde e estão atuando de forma ativa contra o envelhecimento.”

Os debates estão sempre mais focados no orçamento, mas é fundamental que se discuta de que forma a população se comporta e está educada para a saúde. Muitas vezes, as pessoas têm pequenas dúvidas em relação aos cuidados, dúvidas que poderiam ser respondidas de forma rápida e eficaz, sem onerar postos, clínicas e hospitais. A conta dos convênios aumenta cada vez mais e houve uma percepção de que é possível oferecer um novo benefício para o empregado e sua família: uma equipe de saúde on-line para discutir e coordenar o cuidado.

O fundador da Quasar Telemedicina, Ricardo Pessoa, apresentou de que forma isso pode ser feito. Ele falou sobre o GlicOnline, um aplicativo que calcula as doses de insulina que um paciente diabético deve aplicar, esse é só um exemplo; dentro da gama de serviços prestados pela empresa, há a consultoria, via website, que responde perguntas da população. “Nós não precisamos vender isso apenas para as companhias de seguros de saúde ou para o governo. Nós podemos fazer parceria com a indústria farmacêutica, uma nova forma de a indústria de medicina colocar dinheiro e marketing, como a insulina ou drogas cardiovasculares desta indústria, para poder ensinar as pessoas, a sociedade, como lidar e como prevenir diabetes, como promover sua saúde e como lidar com esta condição. E a maneira de fazer isso é por meio da interatividade, dando voz às pessoas e interagindo com elas.”

A editora-chefe do Guia da Farmácia, Lígia Favoretto, viajou a Miami para acompanhar o evento, a convite da Merck Consumer.


Autor: 
Lígia Favoretto

Saúde na América Latina

Edição 277 - 2015-12-01 Saúde na América Latina

Essa matéria faz parte da Edição 277 da Revista Guia da Farmácia.

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