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Azia e má digestão: Presente indigesto

Guia da Farmácia Por Guia da Farmácia 14 de dezembro de 2020 Nenhum comentário 8 Minutos de leitura
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Em um ano tão difícil e atípico como 2020, as festas de fim de ano devem ganhar um colorido diferente. Ainda que celebradas com um grupo menor de familiares e amigos, a vontade de aproveitar os últimos dias do ano deve ganhar ainda mais força. Na maioria dos lares, isto significa muita comida, muita bebida, muito lazer e menos horas de sono. Esses fatores podem acarretar a azia e má digestão.

Para um olhar superficial, o tradicional “ritual” das festas de fim de ano parece divertido, mas o organismo costuma sofrer consequências não tão agradáveis. Nessa época do ano, a ocorrência de problemas gastrointestinais, como azia e má digestão, tornam-se mais frequentes. Ainda mais desagradável, outra ocorrência comum nessa época é a diarreia, principalmente associada a intoxicações alimentares.

A combinação de excesso de alimentos e bebidas alcoólicas com praia, sol, calor e rotina alterada costuma cobrar um preço alto. “Costumamos confraternizar com festas, grandes jantares, happy hours e viagens. E toda essa abundância de alimentos gordurosos, doces e bebidas alcoólicas pode trazer problemas de má digestão”, concorda o gastroenterologista do Hospital 9 de Julho, Dr Rafael Bandeira Lages.

Especialmente em 2020, é possível que esses problemas sejam ainda mais frequentes. “Devemos ter especial atenção a exageros ao celebrar este ano. Vivemos uma pandemia e, em geral, estamos mais ansiosos com a situação. Esse estresse nos deixa ainda mais propensos a apresentar dor de estômago, queimação e náuseas”, alerta.

Além de sobrecarregar o sistema digestório com excessos, no período de férias, é também comum que o ato de comer fora de casa aumente e ainda seja agravado pelo clima quente do Brasil nessa época do ano. A combinação de fatores é uma receita perigosa para a saúde intestinal.

Os vilões das festas de fim de ano

Açúcares

Quando consumido em grande quantidade, as enzimas intestinais podem não ser suficientes para realizar a completa digestão, acarretando o acúmulo de açúcares não absorvíveis no intestino. Isto promove formação de gases, distensão abdominal e alteração da microbiota intestinal, podendo, inclusive, causar diarreia.

Gorduras

O consumo de gorduras na dieta estimula a produção de hormônios, como colecistocinina, Peptídeo YY e GLP-1, que reduzem o esvaziamento gástrico e, com isso, promovem maior sensação de empachamento e saciedade.

Além disso, promovem a redução das pressões do esfíncter inferior do esôfago, uma barreira que ajuda a impedir o refluxo do conteúdo gástrico para o esôfago. Em quantidades excessivas, podem desencadear náuseas, vômitos, diarreia e sobrecarregar o funcionamento do fígado e da vesícula.

Carboidratos

Principalmente em pacientes sensíveis e predispostos, ingerir carboidratos refinados em excesso tem o efeito de elevar inicialmente de forma rápida a glicemia. A seguir, pode ocorrer uma queda também abrupta, chamada hipoglicemia que, dependendo da gravidade, pode causar sensação de desmaio, mal-estar, sudorese, palpitação e até mesmo convulsões e riscos de vida.

Existe ainda uma família de carboidratos chamada de FODMAPs (oligossacarídeos, dissacarídeos, monossacarídeos e poliois) que podem causar desconforto (flatulência, dor e distensão abdominal).

Carne vermelha

Por ser um alimento rico em proteínas e gorduras, a ingestão de carne vermelha em excesso pode causar náuseas, vômitos e dor epigástrica e até mesmo gastrite em pacientes predispostos.

Sódio

Dietas ricas em sódio podem modificar a flora intestinal, provocando ações inflamatórias locais e quebra da homeostase imunológica intestinal.

Fontes: gastroenterologista do Hospital 9 de Julho, Dr Rafael Bandeira Lages; e especialista em homeopatia e acupuntura pela Associação Médica Brasileira (AMB), Dr. Roberto Debski

“A questão da conservação dos alimentos também pode ser a causa dos transtornos digestivos, assim como comer em excesso, ultrapassando a capacidade do organismo. Alimentos gordurosos, ricos em carboidratos refinados, junto a líquidos em excesso, bebidas alcoólicas ou refrigerantes podem sobrecarregar o sistema digestório, dificultando a digestão, causando dor, náuseas e vômitos, diarreia, e até mesmo gastrite”, alerta especialista em homeopatia e acupuntura pela Associação Médica Brasileira (AMB), Dr. Roberto Debski.

Soluções disponíveis

A curto prazo, os excessos das festas de fim de ano podem ser amenizados com o chamado “detox”. O que isso significa? Refeições leves e bastante água, respeitando e percebendo os sinais e sintomas do próprio corpo. Outras modificações que podem ser úteis incluem elevar a cabeceira da cama e evitar deitar-se por duas horas após refeições e evitar lanches antes de dormir.

“A falta de apetite, vontade de repousar, vômitos e diarreia podem indicar que o corpo está sobrecarregado e ainda não poderá retornar ao padrão anterior de alimentação”, orienta o Dr. Debski.

Outra medida de rápido efeito é o uso de medicamentos indicados para o trato de problemas gastrointestinais. “Os mais utilizados são os antiácidos para alívio imediato de sintomas e os inibidores da bomba de prótons (como omeprazol, pantoprazol, rabeprazol, esomeprazol, lansoprazol e dexalansoprazol), que promovem uma inibição mais duradoura da secreção ácida gástrica”, indica Dr. Lages, ressaltando que o cenário ideal é procurar um gastroenterologista clínico para melhor avaliação e prescrição da medicação.

Em casos de sinais e sintomas mais intensos, pode ser necessário buscar ajuda médica para que seja feita medicação ou exames complementares. “Nessas condições, entre em contato com seu médico assistente ou procure um serviço de pronto atendimento para que se tomem as medidas necessárias”, complementa.

Outro ponto de atenção se dá na hora da escolha dos componentes das próximas refeições. Após um período de excessos, é indicado evitar alimentos classicamente mais associados aos sintomas gástricos, como gorduras, chocolates, bebidas cítricas, alimentos condimentados, produtos à base de tomate, café, chá ou bebidas com cola.

Sintomas gastrointestinais x Covid-19

Problemas respiratórios, como dispneia e insuficiência respiratória, combinados com um quadro febril, são os sintomas mais comumente divulgados como consequências do novo Coronavírus. Porém, com o aumento no número de casos ao redor do mundo, foi possível mapear outros sintomas extrapulmonares, entre eles, intercorrências gastrointestinais.

De acordo com o gastroenterologista do Hospital 9 de Julho, Dr. Rafael Bandeira Lages, dados das maiores revisões de diversas séries de casos publicadas associaram a Covid-19 a sintomas, como diarreia (7,7%), náuseas e vômitos (7,8%), dor abdominal (3,6%) e alteração de enzimas hepáticas (15%).

“A diarreia se apresenta como um dos sintomas iniciais em 9,3% dos casos, com duração média de quatro dias e podendo até preceder os sintomas respiratórios. Há inclusive relatos de indivíduos com Covid-19 e manifestações gastrointestinais isoladas”, relata.

No contexto atual de pandemia, é difícil garantir que um quadro diarreico não possa estar associado ao novo Coronavírus. No entanto, se esses sintomas estiverem associados a febre, quadro respiratório ou perda de olfato e paladar, há maior indício de Covid-19. Mas mesmo que raramente, há relatos de quadros gastrointestinais isolados.

“Acredito que o mais importante seja a suspeita, realizando teste para a Covid-19, principalmente entre pacientes com sintomas gastrointestinais que necessitem de internação e naqueles com sintomas há mais de 48 horas. Caso confirmada a suspeita, em pacientes com manifestações gastrointestinais, o tratamento segue o suporte padrão em relação aos demais casos, atentando principalmente para o risco de desidratação”, esclarece o Dr. Lages.

“Contudo, a proibição indiscriminada de alimentos deve ser evitada e, em lugar disso, devemos adaptar a alimentação de acordo com a sensibilidade individual”, lembra o Dr. Lages.

Além das medidas de solução rápida, há algumas orientações que podem representar uma melhor saúde gastrointestinal a médio e longo prazo. Todas costumam envolver uma mudança no estilo de vida.

“Orientações comportamentais, como revisar as áreas e os ciclos de vida mais estressantes; atividade física; práticas de relaxamento, como ioga; procurar temas de lazer; alimentar-se devagar, evitando bebidas gasosas durante a alimentação; e diversas formas de psicoterapia são importantes”, enumera o professor livre-docente de gastroenterologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e diretor de comunicação da Federação de Gastroenterologista Brasileira (FBG), Dr. Joaquim Prado.

Foto: Shutterstock

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