
A Beauty Fair encerrou a 21ª edição com cerca de 500 expositores, mais de 2 mil marcas e 190 mil visitações ao longo de cinco dias. Realizado no Expo Center Norte, em São Paulo (SP), o evento projetou R$ 1,5 bilhão em negócios realizados e iniciados durante a feira e reforçou sua posição como uma das principais plataformas de negócios, relacionamento e conhecimento do mercado de beleza das Américas.
Entre as novidades estiveram a estreia da Arena Live Shop, o novo setor de Embalagens e a expansão do espaço dedicado à perfumaria.
Mais do que apresentar lançamentos, a edição 2026 colocou em pauta transformações que já estão impactando a cadeia de beleza. Para o CEO da Beauty Fair Co., Cesar Tsukuda, a digitalização deixou de ser uma tendência para se tornar uma necessidade, especialmente diante de um consumidor que muda rapidamente seus hábitos de compra e relacionamento com as marcas.
Ao mesmo tempo, o executivo aponta um cenário econômico desafiador, marcado por pressão sobre a renda, mudanças tributárias e dificuldades para empresas planejarem seus próximos passos.
Em entrevista exclusiva ao Guia da Farmácia, Tsukuda também analisa o avanço da K-Beauty e dos perfumes árabes, a ascensão dos body splashes, o potencial do mercado brasileiro para marcas internacionais e a oportunidade de expansão das marcas nacionais no exterior. O executivo ainda comenta os riscos da falsificação no ambiente digital e o papel das farmácias na categoria de beleza.
Acompanhe, a seguir, os melhores momentos desse bate-papo.
Guia da Farmácia • Quais foram as principais novidades exploradas na Beauty Fair neste ano e quais as principais mensagens transmitidas aos visitantes nesta edição?
Cesar Tsukuda • Podemos dividir essa resposta em dois grupos. O primeiro é o das atividades novas que apareceram mais diretamente dentro da feira. Tivemos, por exemplo, uma área de embalagens, que foi uma iniciativa inédita. Fizemos também um encontro de representantes comerciais, com fórum de discussão, palestras e apresentação de tendências. E tivemos a consolidação, pelo segundo ano, da área de perfumes.
Do ponto de vista de mensagem, claramente trouxemos uma preocupação da Beauty Fair com a digitalização do consumidor e, mais do que isso, movimentos que vamos fazer em função dessa transformação.
Quando olhamos para os hábitos de consumo nas categorias de beleza, percebemos que a indústria e o varejo, de maneira geral, ainda estão atrasados em relação ao que as demandas do consumidor estão pedindo.
Os varejistas tradicionais estão perdendo espaço e as indústrias que não estão movimentando suas marcas não apenas para a venda, mas também para os canais de comunicação digitais, estão ficando defasadas. Portanto, uma das principais mensagens da feira foi justamente a digitalização do setor.
Guia • E quais devem ser as iniciativas da Beauty Fair para auxiliar as empresas nesse momento de transformação digital?
Tsukuda • O digital já é uma realidade. É um canal de vendas extremamente relevante, principalmente no mercado de beleza. Nossa iniciativa nessa frente não se limita a um evento. Temos uma jornada ao longo do ano e um calendário paralelo de pequenos encontros e fóruns específicos de discussão.
A intenção é praticamente “pegar na mão” da empresa e mostrar como encurtar os caminhos para a digitalização, tanto na retaguarda quanto na frente, envolvendo marketing e vendas. Queremos ajudar o mercado a entender que essa transformação precisa acontecer de maneira prática.
Guia • Além da digitalização, outro ponto de atenção no País é o cenário econômico, que tem pressionado o consumidor. De que maneira essa realidade impacta o mercado de beleza?
Tsukuda • Impacta diretamente. Se olharmos de forma macro, o segmento de beleza está diretamente ligado à renda. Quando temos aumento do endividamento das famílias e queda do poder de consumo, isso acaba retirando dinheiro da economia e, principalmente, do consumo, o que impacta diretamente o setor.
Nos meus 30 anos de mercado, provavelmente este é um dos anos mais desafiadores. Além da conjuntura econômica, temos mudanças tributárias, alterações de ICMS em alguns estados e uma reforma tributária que ainda traz muitas incertezas. As empresas precisam fazer planejamento sem ter todas as alíquotas definidas. Isso gera dificuldade para crescimento, melhoria de resultados, manutenção de margens e geração de caixa. O ambiente de negócios para o setor de beleza em 2026 foi impactado negativamente por esse conjunto de fatores.
Guia • Diante desse cenário, o consumidor está migrando para produtos mais baratos ou continua disposto a pagar mais por itens de maior valor agregado?
Tsukuda • Temos as duas situações. Em regiões e públicos de menor poder aquisitivo, percebemos um movimento de redução do valor do consumo, com substituição de produtos por alternativas mais econômicas.
Por outro lado, existe uma consumidora que ainda busca performance e gosta de produtos de qualidade, mas que já não tem dinheiro para fazer apostas. Ela está mais restritiva ao experimentar marcas desconhecidas e procura produtos e marcas que ofereçam segurança de que vão entregar aquilo que ela precisa no dia a dia.
Guia • Entre pele, cabelos e unhas, quais movimentos ganharam mais força na Beauty Fair?
Tsukuda • Na pele, incluindo maquiagem, existe uma consolidação crescente do mercado. Já não é mais uma tendência, é uma realidade. Temos empresas relativamente novas entrando com boa distribuição e volume de vendas. No mercado de unhas, profissionalmente, vemos a consolidação das unhas em gel e dos serviços relacionados. No consumo, existe cada vez mais o efeito das coleções de esmaltes e das tendências sazonais de cores.
Já cabelos são um mercado extremamente consolidado no Brasil e, provavelmente, o mais concorrido de todo o segmento. A penetração de categorias como xampu é muito alta, o que gera uma disputa grande entre os participantes, pressiona margens e aumenta o desafio de inovar. É preciso equilibrar performance e custo.
Também temos a consolidação da K-Beauty. Há uma quantidade muito grande de novos importadores entrando no mercado, principalmente com marcas coreanas, mas também chinesas e japonesas.
Esse movimento, especialmente em skincare, traz propostas diferentes das que estávamos acostumados a ver com marcas europeias, americanas e brasileiras. Provavelmente será uma alavanca de crescimento nos próximos dois ou três anos.
Guia • O fenômeno dos medicamentos para tratamento da obesidade também começa a repercutir na beleza?
Tsukuda • Existe o movimento dos produtos associados ao chamado “pós-GLP-1”, voltados a consumidores que passaram por processos de emagrecimento e podem perceber mudanças em cabelo e pele. Algumas marcas já estão desenvolvendo produtos para esse momento. Acredito que esse será um tema bastante discutido no fim de 2026 e ao longo de 2027.
Guia • Olhando para o cenário internacional: como está a presença de expositores e marcas estrangeiras nesta edição? O Brasil está conseguindo se posicionar como mercado estratégico para essas empresas?
Tsukuda • O Brasil é um país estratégico para qualquer marca que queira ter presença mundial. Somos o terceiro maior país do mundo em consumo, e isso, por si só, já nos torna relevantes.
Além disso, o Brasil é uma vitrine importante. Temos uma diversidade muito grande de tipos de pele e cabelo, de raças e etnias, o que cria uma condição bastante particular para testar e desenvolver produtos.
Mas existe também uma oportunidade enorme para as marcas brasileiras. Somos um dos principais países em consumo e temos uma indústria capaz de desenvolver princípios ativos e produtos para beleza, mas ainda temos uma participação muito pequena entre os grandes países exportadores de produtos e marcas.
Existe uma janela de oportunidade gigantesca para que marcas brasileiras também ganhem o mundo.
Guia • A perfumaria foi uma das grandes apostas da Beauty Fair. Como você avalia o momento da categoria no Brasil?
Tsukuda • O Brasil tem uma tradição muito importante em perfumes e fragrâncias. Tivemos, recentemente, o fenômeno dos perfumes árabes, que ganharam muita força não apenas aqui, mas no mundo inteiro. Acredito que estamos chegando ao pico dessa relevância. Os que chegaram bem-posicionados vão permanecer, enquanto aqueles que entraram de maneira mais precipitada terão mais dificuldade.
De qualquer maneira, os perfumes árabes puxaram a categoria para cima em consumo e volume, o que é muito positivo. E essa movimentação também ajudou a despertar uma categoria que estava meio adormecida: os body splashes.
Muito impulsionado por influenciadoras e pelas redes sociais, o body splash se tornou uma categoria extremamente relevante. É um fenômeno principalmente entre os jovens e adolescentes e, provavelmente, isso vai ampliar ainda mais o consumo de fragrâncias.
Guia • Outra novidade foi o setor de embalagens. Por que a Beauty Fair decidiu investir nessa frente?
Tsukuda • Estive na China em maio, visitando uma feira, e fiquei muito impressionado com a evolução das embalagens em relação ao que temos no Brasil. Não significa que o Brasil não tenha boas embalagens, mas a variedade e a velocidade com que China e Coreia estão desenvolvendo soluções são impressionantes.
E não estamos falando apenas de design. A embalagem também pode ser uma solução de uso, um facilitador da aplicação no dia a dia. Entendemos que precisávamos ajudar o mercado brasileiro a se atualizar.
Essa distância é especialmente significativa em segmentos como pele, maquiagem e fragrâncias. Como a embalagem é, muitas vezes, o primeiro contato do consumidor com a marca, ela ganha ainda mais importância em um momento em que os produtos evoluíram muito e as diferenças de qualidade entre eles se tornaram menores. Todo o “envelopamento” do produto e da marca passa a ser um fator cada vez mais relevante.
Guia • A digitalização também amplia a preocupação com a falsifificação. Como o mercado deve lidar com esse problema?
Tsukuda • A falsificação infelizmente sempre existiu no Brasil. O que acontece agora é que as redes sociais e a velocidade do ambiente digital fazem com que esse problema fique mais evidente e se espalhe com mais rapidez.
Temos conversado bastante com as plataformas e percebo uma preocupação clara de toda a cadeia em conter e coibir esse tipo de situação. Ainda existem desafios importantes, mas vejo movimentos positivos nesse sentido.
O problema é que produtos de qualidade questionável podem prejudicar uma categoria inteira. Imagine um consumidor que compra um perfume ou um body splash e tem uma experiência ruim. Primeiro ele pode trocar de marca, mas, no extremo, pode concluir que aquela categoria não serve para ele.
Guia • Como você enxerga o avanço das farmácias no universo da beleza?
Tsukuda • Tudo o que o canal farma faz é observado com muita atenção por qualquer segmento que tenha seus produtos vendidos nesse canal. Isso acontece pela relevância e pela capilaridade das farmácias, mas também pelo alto nível de estruturação e gestão do setor.
É um canal extremamente organizado e que trabalha dados de maneira muito relevante, tanto do ponto de vista da gestão quanto do conhecimento do consumidor.
O fortalecimento das farmácias em produtos de beleza não é um fenômeno recente, mas vem sendo potencializado de maneira bastante inteligente. Estamos vendo movimentos que posicionam a beleza em outro patamar, com categorias e produtos que habitualmente não estariam em uma prateleira tradicional de farmácia.
É claro que existe uma preocupação com o conflito entre canais. A perfumaria tradicional e as lojas especializadas podem sentir esse movimento, considerando todo o avanço da gestão de varejo do canal farma. Mas olhando para o mercado de forma ampla, vejo o fortalecimento das farmácias em beleza como um movimento positivo para o consumidor.
Guia • Para finalizar: já é possível antecipar alguma novidade para a Beauty Fair 2027?
Tsukuda • A data já está definida: de 4 a 7 de setembro de 2027, novamente no Expo Center Norte, em São Paulo (SP). O mercado está muito dinâmico. As mudanças são tão rápidas que, às vezes, você dá um spoiler hoje e precisa mudá-lo amanhã porque o cenário já é outro.
Acho que nosso papel já não é simplesmente acompanhar. Precisamos ter pessoas que acompanhem essas mudanças e, de certa forma, sermos padrinhos e patrocinadores delas.
A Beauty Fair assume cada vez mais o compromisso de ajudar e facilitar essas transformações, especialmente nesse momento de digitalização, e de fortalecer todos os elos da cadeia.
O movimento de novos canais, digital, marcas nativas digitais e influenciadores, no fim do dia, pode fortalecer o mercado. O desafio é equilibrar tudo isso para que cada canal faça sua melhor entrega e o mercado de beleza continue relevante para o consumidor.
Para 2027, posso adiantar que Inteligência Artificial (IA) e as mudanças tributárias estarão entre os temas que deverão receber bastante atenção antes e durante a feira.
Fonte: Guia da Farmacia
Foto: Beauty Fair