Cai o desempenho do varejo farmacêutico

Vendas do comércio caíram, em abril, 3,5%, pior resultado para o mês desde 2003. Segmento farmacêutico foi um dos poucos que tiveram resultado positivo, e as grandes redes apostam na ampliação do número de lojas para manter o crescimento

Levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) demonstra que as vendas no comércio caíram pelo terceiro mês seguido, sendo que abril registrou o pior resultado: queda de 3,5% em comparação com o mesmo mês do ano passado. Na comparação com março, o indicador recuou 0,4% e, no acumulado do ano, até abril, a queda é de 1,5%.

Dos dez setores pesquisados pelo IBGE, sete tiveram queda nas vendas. O pior desempenho foi do setor de móveis e eletrodomésticos, em que as vendas caíram 16%. Já o Índice Nacional de Confiança da Associação Comercial de São Paulo (INC – ACSP) referente a maio mostra que a confiança do consumidor brasileiro segue em patamares baixos, nunca antes registrados desde que a pesquisa começou a ser feita, em 2005. O INC marcou 106 pontos em maio contra 104 em abril.

Para se ter ideia do que isso representa, em maio do ano passado, o INC marcou 137 pontos e, no mesmo mês de 2013, foram 153 pontos. “O INC de maio nos mostra um cenário bastante preocupante para o varejo. E mesmo com o atual quadro econômico desfavorável, o Banco Central tornou a subir a taxa do Sistema Especial de Liquidação e de Custódia (Selic) e não sinalizou intenção de finalizar o ciclo de alta dos juros”, critica o presidente da ACSP, Alencar Burti.

Para os analistas do IBGE, a queda do varejo é resultado da conjuntura atual, em que a renda está caindo, o orçamento das famílias está mais comprometido e o crédito está em baixa por conta dos juros elevados. Dois segmentos, contudo, têm conseguido resistir ao momento ruim do comércio – papelaria e informática, que cresceu 2,7%, e principalmente o ramo farmacêutico, que inclui também perfumaria, cosméticos e produtos ortopédicos, que teve as vendas elevadas em 6,2%.

“De maneira geral, o consumidor adia a troca do carro ou da geladeira porque os juros estão mais altos, mas não deixa de comprar um produto de beleza ou um medicamento”, observa o assessor econômico da Federação do Comércio do Estado de São Paulo (Fecomercio-SP), Thiago Carvalho. “Porém, esses tipos de bens são sensíveis à renda, e com a inflação elevada e a diminuição do poder de compra, eles também são afetados, como já observamos em São Paulo. Ainda que mantenham o consumo desses bens, os consumidores migram de produtos mais caros para outros mais baratos”, revela.

Estabilidade do setor

Há mais de uma década que o ramo farmacêutico é um dos principais contribuintes para a taxa de crescimento global do varejo, sendo que, em momentos de baixa como agora, ele se torna um dos pilares do comércio. “A demanda do varejo farmacêutico é maior do que a oferta, ou seja, a elevação do faturamento do setor é maior do que o crescimento da quantidade de lojas”, informa o vice-presidente de operações de varejo da Drogasil, Antonio Carlos de Freitas. “Por comercializar produtos de primeira necessidade – medicamentos e itens de perfumaria –, o varejo farmacêutico é um setor defensivo, que não percebe mudanças de comportamento significativas em períodos de crise”, observa Freitas.

O vetor mais importante desse desempenho, segundo ele, é o envelhecimento da população que, de acordo com o Banco Mundial, deve passar de 7% para 14% do total até 2032. “Com o envelhecimento, a demanda por medicamentos será cada vez maior, e aquele que conseguir entregar o melhor nível de serviço para os clientes se sobressairá”, sustenta.

O crescimento do varejo farmacêutico tanto em faturamento quanto em número de lojas pode ser explicado, segundo Carvalho, pelo crescimento da renda e baixo desemprego observados nos últimos anos, que permitiram a ascensão social das camadas mais pobres da população e também pelo envelhecimento e aumento da expectativa de vida.

“Com maior poder de consumo, milhões de pessoas passaram a se preocupar mais com a saúde e com o bem-estar e o crescimento do mercado de planos de saúde e de cosméticos confirmam tal comportamento.” O presidente do Programa de Administração de Varejo/Fundação Instituto de Administração (Provar/FIA) e do Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo e Mercado de Consumo (Ibevar), Cláudio Felisoni de Ângelo, pondera que a distribuição de renda, aliada à estabilização da economia, permitiu que o varejo crescesse de forma acentuada nos últimos anos.

“Observamos uma queda gradual das vendas no varejo no último ano. Já o segmento farmacêutico é mais resistente, pois atua com produtos essenciais. O consumidor evita cortar não apenas medicamentos, mas também produtos de higiene e beleza, pois eles já estão incorporados ao seu dia a dia”, diz Felisoni de Ângelo.

Destaque para as redes

De acordo com levantamento da Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma), o grande varejo farmacêutico comercializou mais de 3,1 bilhões de unidades em 2014, um incremento de 8,1% em relação ao ano anterior. As grandes redes de farmácias fecharam o ano com um faturamento de R$ 32,39 bilhões em vendas, 12,81% maior do que no ano anterior. Desde 2010, o faturamento cresceu 90,34% ou cerca de R$ 15,37 bilhões. Apesar de representarem 7,9% do total de farmácias existentes no País (estima-se que o Brasil tenha 71 mil farmácias), as grandes redes respondem por 44,5% das vendas de medicamentos no País. Já as farmácias independentes têm uma participação de 40,1% e as pequenas redes, 15,4%.

“Muito da expansão das redes deve-se à abertura de novas lojas – cerca de 450 a 500 novas unidades todos os anos”, afirma o presidente executivo da Abrafarma, Sergio Mena Barreto, destacando que o segmento de higiene, beleza e dermocosmético mantém crescimento forte, o que tem feito expandir a categoria destes produtos nas vendas.

“Como esses itens não têm preço controlado e são premium, sob o ponto de vista de preço, o seu crescimento tem peso importante no resultado final. Para 2015, esperamos manter o mesmo desempenho do ano passado, ou seja, crescer por volta de 12% a 13%, acima das expectativas do mercado, que está menos otimista, avaliando alta na casa dos 7%. Esperamos mais uma vez nos descolarmos da média”, afirma Barreto.

Apesar de representarem um pouco menos de 8% do total de farmácias existentes no País, as grandes redes respondem pela maioria das vendas. “Dois fatores combinados explicam o bom desempenho das redes”, avalia o presidente da Drogaria Onofre, Mario Ramos. “O primeiro está relacionado ao mix de produtos – as redes independentes possuem um sortimento maior de produtos com margem alta, mas valor unitário menor. E o segundo é a localização. As grandes redes estão, em sua maioria, nos grandes centros urbanos com densidade maior, com isso, a venda por loja também aumenta, há uma capilaridade maior de consumidores atendidos”, afirma.

Para Mena Barreto, uma palavra explica a vantagem competitiva das redes: gestão. “O resultado expressivo é fruto de sistemas cada vez melhores de gestão de estoques, que evitam rupturas, além de uma política de preços competitivos, que permite repassar ao consumidor os ganhos de escala obtidos em negociações junto à industria”, explica, destacando outros pontos, como o treinamento de pessoal e a introdução de novos produtos, o que atende aos anseios dos consumidores. Isso sem falar no uso de centros de distribuição próprios, o que possibilita o gerenciamento dos estoques com menor interferência de fatores externos e também da escolha de pontos de venda mais bem posicionados.

“Esse é um negócio de baixíssima margem, assim a gestão tem de estar muito bem azeitada para não dar prejuízo”, frisa o presidente da Abrafarma. Para o vice-presidente da Ultrafarma, Marcos Ferreira, as grandes negociações com a indústria são o que tornam as redes mais competitivas. “O poder de barganha das grandes redes permite que elas tenham uma política agressiva de descontos, atraindo os consumidores”, diz.

Competição entre pares

Entre as redes de drogarias, a concorrência é acirrada. Isso faz com que cada uma tenha de aumentar sempre o número de lojas, muitas coladas às concorrentes. Felisoni de Ângelo destaca que o setor trabalha com margens muito pequenas e a forma de aumentar o lucro é vendendo mais. “As margens das farmácias são muito comprimidas, por isso as redes estão sempre ampliando o número de lojas, para que tenham um giro maior.”

Para alguns analistas, contudo, pode haver saturação. Também a rotatividade é considerada alta – em 2014, enquanto fecharam cerca de 10 mil farmácias (15% do mercado), foram abertas 11 mil lojas. Mena Barreto discorda da saturação e diz que a rotatividade é benéfica para depuração do setor. “Há espaço para lojas boas e se elas são abertas próximas a outras é porque há espaço para tal. As novas unidades certamente são mais bem estruturadas que as anteriores, e geralmente se está trocando uma operação menor por uma com mais espaço de exposição, equipamentos melhores e mais conforto para o consumidor”, observa.

“É uma ilusão achar que dá para tocar um negócio com margens apertadas como as do setor na base do improviso. O lucro líquido das farmácias ligadas à Abrafarma caiu de 1,81%, em 2013, para 0,39% em 2014. Ou seja: de cada cem reais de venda, sobraram 39 centavos. Para um negócio que vende R$ 50 mil mensais, sobram R$ 195 reais.” Mena Barreto destaca ainda que, com base na Lei 13.021/14, é de se esperar que as novas lojas de rede tenham, daqui por diante, salas de serviços farmacêuticos. “É um movimento natural de revitalização, de melhoria e depuração do negócio”, diz.

Uma tendência observada é que as grandes redes têm ido para praças menores. “Os grandes centros estão saturados, mas ainda existem vários locais com oportunidades para uma drogaria bem estruturada”, esclarece Ferreira.

Já Freitas, da Drogasil, complementa que “o varejo farmacêutico brasileiro ainda é muito fragmentado”. Segundo ele, há espaço para crescimento orgânico, que caminha junto com a tendência de consolidação do setor. “A decisão pela abertura de uma loja depende da análise específica do ponto comercial, que leva em consideração o mercado local, o perfil do consumidor, o fluxo de pessoas. Investe-se onde se acredita que há o retorno esperado, seja em um grande centro ou no interior”, salienta.

Na opinião de Ramos, da Drogaria Onofre, as grandes redes estão num momento de grande expansão com a abertura de lojas, e o crescimento do mercado é alavancado por esta expansão. “Elas estão aproveitando as lacunas existentes em alguns mercados para aumentar a participação, principalmente em lugares onde ainda não existiam farmácias de redes. No País, há grandes possibilidades de crescimento do varejo farma”, analisa Ramos.

“O Brasil é muito grande, há boas médias e pequenas cidades que têm capacidade de receber uma farmácia mais bem estruturada”, faz coro Mena Barreto. “Quando uma loja de rede se instala numa cidade menor, todos os consumidores, que não tinham acesso aos melhores produtos, passam a tê-lo. Em uma era de acesso como a que estamos vivendo não faz sentido ter de viajar para um centro maior para comprar produtos comuns”, revela.


Oportunidade de negócios

Sobre a expectativa de nova onda de consolidações no setor, o presidente da Abrafarma descarta. “O crescimento das grandes redes é notadamente orgânico: novas lojas são inauguradas ano após ano. Um crescimento planejado, consistente, pé no chão. Fusões e aquisições não são o padrão. Esse tipo de negócio é oportunidade.”

“O ponto de equilíbrio situa-se mais em relação às redes/independentes do que ao número total de lojas”, pondera o diretor executivo da Associação Brasileira do Atacado Farmacêutico (Abafarma), Jorge Froes de Aguilar. “A concorrência pode gerar aprimoramento e saída da zona de conforto. Nisso, estão incluídos o aproveitamento das oportunidades e a identificação de geração de renda nos municípios menores. Competência e incompetência, gestão e falta de gestão. É a dinâmica da atividade”, completa.

Para o presidente da Federação Brasileira das Redes Associativistas e Independentes de Farmácias (Febrafar), Edison Tamascia, o que define os bons dos maus empreendimentos é a competência ou a falta dela. “Existe gente que se assusta com a concorrência, mas ela não é ruim, faz as pessoas se mexerem. O mercado cresce e surgem as oportunidades. Por isso discordo quando dizem que existem muitas farmácias e que a rotatividade é alta no País. Em todo lugar do mundo, existem empresas que abrem e fecham. Em 1995, quando tínhamos 20 mil farmácias, já se dizia que existiam muitos estabelecimentos.”

Tamascia também destaca que há mercado para todo tipo de negócio. “As farmácias independentes vendem menos porque, por natureza, são estabelecimentos menores, ficam em lugares com menor fluxo de pessoas. São por essência empresas com menor custo de montagem, mix mais limitado e têm posicionamento estratégico voltado para ser uma loja de vizinhança. Esse processo não é exclusivo do segmento farma, o mesmo acontece com o canal alimentar, com as lojas de material de construção e com uma infinidade de outros segmentos. Isso não é um problema, apenas um fato. Não vemos as redes como ‘bichos-papões’. Há espaço para todos”, sustenta.

Nesse cenário de diversificação, uma tendência que deve se consolidar também é a venda on-line. “O e-commerce será um canal bastante explorado nos próximos anos no varejo farmacêutico, tornando-se tendência, como já ocorre em vários países”, acredita Ferreira, da Ultrafarma. 

Autor: Marcelo de Valécio

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Rastreabilidade

Edição 272 - 2015-07-01 Rastreabilidade

Essa matéria faz parte da Edição 272 da Revista Guia da Farmácia.

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