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Canabidiol: Planta polêmica vira medicamento

Desenvolvendo um produto derivado da Cannabis, Prati-Donaduzzi se prepara para lançar o primeiro tratamento nacional para epilepsia refratária

Em dezembro de 2016, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) atualizou a Portaria 344/98, que traz a lista das plantas e substâncias sob controle especial no Brasil. A mudança foi promovida com o intuito de incluir derivados de canabidiol – um dos princípios ativos presentes na Cannabis, a planta da maconha – na lista de psicotrópicos com venda permitida no Brasil.

De acordo com a  Anvisa, a liberação de registro de medicamentos à base de Cannabis foi baseada em estudos e informações que comprovaram a eficácia, segurança e qualidade da substância. Até o momento, está permitida a venda de medicamentos registrados na Anvisa que possuam em sua formulação derivados de Cannabis sativa em concentração de no máximo 30 mg de Tetrahidrocannabinol (THC) por mililitro e 30 mg de canabidiol por mililitro.

“Caso novos pedidos de registro de medicamento sejam apresentados e sejam comprovadas eficácia, segurança e qualidade de tais produtos, este dispositivo legal pode ser alterado de forma a contemplar novos  produtos”, destaca a Anvisa, em resposta enviada por meio da assessoria de imprensa.

Prós e contras

Aspectos positivos

Sob o ponto de vista científico, não se pode ignorar as ações farmacológicas já estudadas e positivas para algumas enfermidades onde os pacientes não respondem satisfatoriamente a outros medicamentos. O canabidiol não apresenta efeitos psicoativos e, portanto, isoladamente, certamente poderá trazer muitos benefícios à melhoria de qualidade de vida de pacientes. Não é sem razão que medicamentos estão sendo desenvolvidos para tal finalidade, além dos já disponíveis no mercado internacional. Confira alguns dos benefícios:

  • Alívio da dor.
  • Controle dos movimentos.
  • Redução de crises de doenças neurológicas.
  • Melhora na resposta imunológica.
  • Formação e arquivamento de memórias.

 

Aspectos negativos

Seu uso racional e controlado como medicamento já passou por todas as fases de estudos necessárias para o registro e a comercialização e deve ser entendido como uma possibilidade terapêutica viável. No entanto, usuários comuns geralmente consomem a Cannabis em quantidades maiores que as recomendadas para fins terapêuticos, sem qualquer controle sobre o volume de tetrahidrocanabinol (THC), o componente ativo alucinógeno.
Nesses casos, os canabinoides podem provocar efeitos nocivos, como:

  • Dependência.
  • Alterações cerebrais.
  • Ser porta de entrada para outras drogas.
  • Transtornos mentais.
  • Redução da performance escolar.
  • Acidentes.
  • Câncer e doenças pulmonares.

Fonte: farmacêutica responsável pela Farmácia Universitária da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (USP), Maria Aparecida Nicoletti

Dentro dos parâmetros atualmente permitidos, o Mevatyl, indicado para o tratamento clínico de pacientes não responsivos a medicamentos antiespásticos usados nos espasmos da esclerose múltipla, foi o primeiro medicamento registrado no Brasil à base de Cannabis. Apesar de ser comercializado no País, a fabricação ocorre no Reino Unido, pela farmacêutica GW Pharma Limited.

O primeiro medicamento de produção nacional derivado de Cannabis deve ser lançado pela Prati-Donaduzzi, indústria farmacêutica de capital 100% brasileiro. Há quatro anos, a companhia decidiu investir no desenvolvimento de um tratamento para epilepsia refratária – forma mais severa da doença –, antes mesmo da Anvisa autorizar a comercialização de produtos derivados de canabinoides no Brasil.

De acordo com o presidente da Prati-Donaduzzi, Eder Maffissoni, boa parte da disposição de entrar em uma área de regulação recente e ainda polêmica surgiu a partir da observação da necessidade de muitas famílias de pacientes com epilepsia refratária. A doença atinge cerca de 750 mil pessoas no País, a maioria delas crianças. O medicamento a base do extrato vegetal da Cannabis é capaz de diminuir em até 80% as convulsões – alguns paciente chegam a ter 50 crises em apenas um único dia.

Atualmente, não há no Brasil nenhum medicamento derivado de canabidiol disponível para o tratamento de epilepsia refratária. Para obter o produto, é necessário importar de outros países. O gasto mensal como tratamento pode chegar a R$ 4 mil. Devido ao trâmite custoso e burocrático, a maioria dos pacientes que sofrem com a doença não tem acesso ao medicamento.

Além da dificuldade de trazer o produto para o Brasil, a segurança não é garantida. Os produtos estrangeiros não são registrados como medicamentos em seus países de origem e, sim, como suplementos. Logo, têm regras de fabricação menos rígidas, não possuem controle de qualidade lote a lote e não passam por estudos de estabilidade para as condições climáticas do Brasil.

Devido a esse processo de fabricação pouco controlado, a maioria dos produtos importados não conta com o canabidiol na forma pura. Possuem traços de THC, que é o principal psicoativo da Cannabis que provoca alucinações e inclusive pode causar um efeito contrário ao desejado no tratamento de doenças neurológicas.

Investimentos necessários

O projeto recebeu o investimento de R$ 11 milhões inicialmente, e parte deste valor foi obtida com o aporte da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). Desse montante, R$ 3 milhões foram aplicados na construção do Centro de Pesquisas em Canabinoides – primeiro local exclusivo para o estudo dessas substâncias.

Apesar da sede da Prati-Donaduzzi estar localizada em Toledo (RS), o prédio foi erguido em Ribeirão Preto (SP), onde atuam os pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP). Com experiência de mais de 20 anos no estudo de canabinoides, eles aceitaram traçar uma parceria com a indústria para desenvolver o primeiro medicamento nacional para o controle de crises de epilepsia refratária.

Com local e equipe de trabalho definidos, em 2015, se iniciaram os trabalhos de pesquisa do Myalo® – nome escolhido para o produto inovador. Três anos depois, o medicamento se encontra na Fase III (etapa final) dos testes clínicos, em que a droga é administrada em pacientes portadores da doença. Cerca de 100 crianças foram convocadas como voluntárias da pesquisa. A expectativa é de que os testes terminem ainda no primeiro semestre de 2018.

Ação do canabinoide no cérebro

• Canabinoides são substâncias derivadas da planta Cannabis sativa capazes de atuar direta ou indiretamente em receptores canabinoides existentes na membrana celular dos neurônios.
• Ao se ligar a esses receptores, os canabinoides produzem efeitos ansiolíticos, antipsicóticos, antidepressivos e neuroprotetores.
• Com essa atuação direta no cérebro, podem ter efeitos terapêuticos em diversas condições de enfermidade, como: câncer, ansiedade, doenças imunológicas, doenças cardiovasculares, epilepsia, esclerose múltipla, Doença de Parkinson, neuralgia do trigêmeo, enxaqueca, síndrome da dor ardente e dor orofacial persistente.

Fonte: farmacêutica responsável pela Farmácia Universitária da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (USP), Maria Aparecida Nicoletti

A patente do medicamento já está garantida no Brasil e em mais 12 países, incluindo Estados Unidos, China, Japão e alguns locais da Europa. Já o processo de registro do medicamento na Anvisa poderá ser iniciado somente após a conclusão da pesquisa.

“Toda a construção dos estudos clínicos foi feita a quatro mãos com a Agência. Tudo está alinhado com todas as exigências deles, então a tendência é de que a aprovação ocorra um pouco mais rápido. A ideia é estarmos com o produto disponível no mercado até o fim do ano”, espera Maffissoni.

Para que o medicamento chegue, enfim, às prateleiras da farmácia, o investimento total da Prati-Donaduzzi deve ultrapassar R$ 30 milhões. Por enquanto, não há negociações para que o Ministério da Saúde (MS) adote o medicamento no rol do Sistema Único de Saúde (SUS), mas a companhia considera a possibilidade. “Imagino que seja uma tendência natural. Sabemos que será pesado para o orçamento do governo, então deve levar um tempo”, pondera Maffissoni.

Processo longo e custoso

O caminho para o desenvolvimento do Myalo® se mostrou desafiador desde o início. Apesar da comercialização de produtos derivados de canabidiol ter sido liberada no Brasil, o plantio da Cannabis é proibido no País, mesmo para fins terapêuticos. Logo, toda a matéria-prima precisa ser importada.

“Não é qualquer lugar do mundo em que o cultivo da maconha é permitido. Também são poucas empresas que conseguem obter o nível de pureza do canabidiol de que precisamos. Os equipamentos são caríssimos. Por isso, tivemos de ir buscar um parceiro na Europa”, conta Maffissoni.

De acordo com a Anvisa, a liberação do plantio de maconha para fins terapêuticos já está em pauta no Brasil. “Estamos realizando, no momento, discussões preliminares internas sobre o tema em um grupo de trabalho, com vistas a uma proposta de regulamentação. Essa discussão ainda envolverá a criação de um grupo de trabalho com outros órgãos, antes que uma proposta de iniciativa de regulamentação seja apresentada pela Agência. Não há maiores detalhes ou previsões possíveis para o momento”, explica o órgão.

Enquanto o plantio não é aprovado, o processo de importar a matéria-prima deve encarecer a produção nacional dos medicamentos à base de Cannabis. Mesmo com o medicamento sendo feito no Brasil, o tratamento para epilepsia refratária deve permanecer de alto custo. A estimativa da empresa é de que o gasto mensal fique em torno de R$ 1.800 a R$ 2.500. No entanto, a empresa fabricante já tem uma estratégia para tornar o medicamento mais viável em um médio prazo.

“Junto a nossa equipe de especialistas, queremos desenvolver o canabidiol na forma sintética, sem ter de plantar um só pé de maconha. Vamos ter um produto feito somente com a molécula do canabidiol, isento de qualquer outro canabinoide. Um grau de pureza fantástico e segurança farmacêutica assegurada. Isso, sim, vai permitir baratear o preço do medicamento”, revela Maffissoni.

Outras possibilidades

Diante de tamanho investimento, a Prati-Donaduzzi pretende ir muito além do Myalo® e de tratamentos para epilepsia refratária. A intenção da companhia é pesquisar a fundo as propriedades de todos os princípios ativos da Cannabis. A parceria com a USP visa desenvolver outros medicamentos.

“Não vamos parar por aqui. Queremos pesquisar outras patologias e outros canabinoides que possam ter efeitos interessantes”, afirma Maffissoni. Estudos já têm evidências concretas de que a molécula pode ser usada para Mal de Parkinson, autismo e câncer.

Outras alternativas de tratamentos à base de Cannabis também devem surgir de laboratórios internacionais. A americana Knox Medical apresentou ao MS a proposta de montar uma fábrica de medicamentos derivados de canabidioides no País, mediante investimentos de US$ 20 milhões.

O plano inicial da empresa é instalar a unidade produtiva no estado de São Paulo e montar uma plataforma para exportação a outros mercados latino-americanos. Na planta, deverão ser produzidos medicamentos para tratamento de epilepsia e para pacientes terminais de câncer, que devem entrar em estudos clínicos no País em breve.

Foto: Shutterstock

Polêmica nos fármacos

Edição 306 - 2018-05-01 Polêmica nos fármacos

Essa matéria faz parte da Edição 306 da Revista Guia da Farmácia.

Sobre o autor

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