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Combinação contraindicada com contraceptivos

O uso concomitante de contraceptivos orais, adesivos ou injetáveis com determinadas classes de medicamentos pode trazer efeitos mais do que indesejáveis, como a diminuição ao até mesmo a anulação do seu efeito

A pílula anticoncepcional é um dos métodos contraceptivos mais usados e difundidos no mundo. Segundo a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), no Brasil, em torno de 25% da população feminina que faz contracepção prefere a pílula. Além disso, a entidade informa que o método é o mais conhecido e popular entre as mulheres, sendo adotado no mundo todo por mais de 100 milhões de usuárias.

Se usada corretamente, a taxa de eficácia da pílula é superior a 99%, mas existe um risco de falha de 0,1% a 8%, atribuído principalmente a erros oriundos da administração do medicamento.

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Diante desse cenário, mulheres que fazem uso de contraceptivos, com exceção daquelas que usam o Dispositivo Intrauterino (DIU), seja ele de cobre ou hormonal, precisam redobrar a atenção ao iniciarem tratamentos com algumas classes de medicamentos. Isso porque o risco de interação medicamentosa do anticoncepcional com outros fármacos é uma realidade que pode passar despercebida.

A ginecologista, obstetra e especialista em reprodução humana da Huntington Medicina Reprodutiva, Dra. Ana Paula Aquino, explica que essa diminuição do efeito acontece porque os anticoncepcionais orais são absorvidos pelo trato gastrointestinal e metabolizados no fígado, assim como alguns medicamentos. Eles podem, por exemplo, alterar as características das paredes intestinais, afetando sua permeabilidade e, como consequência, deixar de absorver corretamente o anticoncepcional.

Drogas que podem diminuir o efeito dos contraceptivos

Anticonvulsionantes

  • Fenitoína
  • Carbamazepina
  • Fenobarbital
  • Primidona
  • Topiramato
  • Oxcarbamazepina
  • Lamotrigina

 

Antidepressivo Fitoterápico

  • Hypericumperforatum

 

Antirretrovirais

  • Efavirenz
  • Nelfinavir
  • Nevirapine
  • Ritonavir
  • Barbitúricos
  • Fenobarbital
  • Tiopental

 

Antibióticos

  • Rifampicina
  • Rifabutina
  • Derivados do ácido retinoico, como a isotretinoína (Roacutan)
  • Corticoides, como a prednisona e a prednisolona, não cortam o efeito, mas podem ter seus efeitos colaterais potencializados pela associação com a pílula anticoncepcional

Fontes: ginecologista da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), Dra. Ilza Maria Urbano Monteiro; e ginecologista, obstetra e especialista em reprodução humana da Huntington Medicina Reprodutiva, Dra Ana Paula Aquino

“Alguns tipos de ervas, especialmente em infusão, também podem colocar o efeito do anticoncepcional em risco. Chás de uso corriqueiro não diminuem o efeito. Porém, a erva-de-são-joão, muito usada no tratamento caseiro de depressão e ansiedade, pode interferir na absorção do hormônio e bloquear o efeito da pílula (a planta também reduz os efeitos de diversas outras drogas ao aumentar o número de enzimas que decompõem as substâncias médicas)”, alerta.

Já a ginecologista da Febrasgo, Dra. Ilza Maria Urbano Monteiro, explica que há muito se reconhece que os medicamentos antiepilépticos podem concorrer com os contraceptivos hormonais, diminuindo seu efeito. “Entre os antibióticos, a rifampicina, utilizada em infecções, como tuberculose, pode reduzir o efeito do contraceptivo hormonal”, alerta.

Medicamentos como os usados para diminuir ou abolir crises convulsivas, alguns fitoterápicos e barbitúricos, como o fenobarbital e a carbamazepina (utilizada em pílulas contra a epilepsia), podem reduzir drasticamente os efeitos do anticoncepcional, alerta o ginecologista Dr. Domingos Mantelli.

“Esses medicamentos diminuem a concentração hormonal na corrente sanguínea da mulher e também competem com ela na metabolização hepática. E isso vale para todas as mulheres que estiverem fazendo uso do contraceptivo, porém, o efeito pode ser potencializado em quem faz uso de mais do que um medicamento”, completa.

Vale dizer que no caso da rifampicina, ela aumenta a velocidade de metabolização de certos anticoncepcionais, reduzindo assim a quantidade de hormônios na corrente sanguínea.

Outros antibióticos podem reduzir o efeito do anticoncepcional porque podem destruir a flora intestinal e provocar diarreia, reduzindo a absorção dos hormônios. “O inverso também pode ocorrer, ou seja, o anticoncepcional oral pode cortar o efeito de um anticoagulante, por exemplo”, explica a Dra. Ana Paula.

Sem exceção

A interação medicamentosa deve ser reconhecida para todas as mulheres, sem distinção. Não há grupos de risco específicos para a interação, mas, sim, relação entre as drogas utilizadas e os contraceptivos hormonais. A interação ainda pode acontecer com todos os métodos de administração, ou seja, injetáveis, orais, anéis vaginais ou adesivos.

“A interação medicamentosa acontece independentemente da via de administração, pois a competição é com as enzimas hepáticas (CYP3A4). As drogas competem pela mesma enzima e o resultado pode ser a diminuição do efeito de uma ou das duas drogas envolvidas. Isso também vale para a pílula do dia seguinte”, alerta a Dra. Ilza.


Ela recomenda ainda que se o medicamento que pode competir com a pílula vai ser usado por muito tempo, o ideal é trocar para um método anticoncepcional que não apresente interação.

A exceção, como já foi citado na reportagem, é o DIU, de cobre ou hormonal. “O mecanismo de ação do DIU é diferente e ele age localmente no útero, por isso não concorre no metabolismo de outros medicamentos”, comenta a ginecologista e diretora da Clínica FertilCare, Dra. Carla Maria Martins da Silva.

A especialista reforça que mesmo após o término do tratamento com o medicamento prescrito, é preciso usar métodos de barreira, como a camisinha, para evitar uma gravidez indesejada.

“O tempo de uso do método de barreira vai depender da vida do medicamento no organismo, em geral, ao menos 15 dias. Daí a importância da orientação do médico prescritor”, reforça.

No balcão da farmácia

Pode até parecer desnecessário, mas orientar as pessoas a lerem a bula de todo e qualquer medicamento que forem ingerir é de suma importância para evitar problemas causados pela interação medicamentosa. Claro que esse é apenas um dos cuidados que é imprescindível ter com essa situação.

O primeiro deles deve ser relatar ao médico que se faz uso do método contraceptivo. No ponto de venda (PDV), os farmacêuticos também podem atuar como agentes difusores dessa informação.

“No momento da dispensação, são estabelecidas oportunidades importantes para a contribuição do farmacêutico ao uso racional de medicamentos. Os riscos associados à terapêutica podem ser minimizados pelo investimento na qualidade da dispensação. Um aspecto associado ao incremento dessa qualidade seria a prevenção das reações adversas e da interação medicamentosa, comum em situações quando mais de um medicamento é utilizado. O fluxo da informação, iniciado pela consulta médica, tem continuidade na farmácia”, diz a Dra. Ana Paula.

Foto: Shutterstock

Efeito otimizado

Edição 320 - 2019-07-07 Efeito otimizado

Essa matéria faz parte da Edição 320 da Revista Guia da Farmácia.

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