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Como a cadeia da saúde tem reagido à pandemia?

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O cenário é único em praticamente todo o mundo: isolamento social da população, varejo de portas fechadas por tempo indeterminado e medo generalizado, seja por contrair o Covid-19, ou pelos reflexos da pandemia nos resultados dos negócios.

Nesse sentido, a inovação, reinvenção e resiliência se tornaram palavra de ordem. Em poucos dias, diversos empreendedores – junto com suas equipes – tiveram de criar novas estratégias para remodelar os negócios para a nova realidade. Em um mês, sem dúvida, vive-se experiências que, por vezes, não acontecem em anos.
O setor da saúde como um todo vive diversas realidades. Assim que a pandemia foi anunciada, houve um grande boom de vendas de diversos produtos, extrapolando os já famosos álcool gel e máscaras, que passaram a fazer parte da cesta de compras de toda a população. Antigripais, vitaminas para aumentar a imunidade, ou até estocagem de alguns medicamentos de uso contínuo foram algumas atitudes do consumidor diante da dúvida e do receio de desabastecimento.

Agora, devidamente estocados, vive-se a segunda onda da pandemia, na qual, devidamente estocados de medicamentos e alimentos – e seguindo a recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS) – que pede para que todos fiquem em casa, as vendas declinam, fazendo o consumidor visitar o ponto de venda (PDV) somente quando necessário.

Nesse sentido, as lojas físicas ficam em segundo plano e o e-commerce e m-commerce viram protagonistas, com o delivery que faz o comércio continuar. Dados da Associação Brasileira de Comércio Eletrônico (ABComm), em parceria com o Compre & Confie, apontam, por exemplo, um crescimento de 111% nas compras on-line de produtos de saúde em fevereiro e março de 2020 em relação ao ano passado.

Inclusive, novas iniciativas começam a aparecer nesse sentido. A Drogaria Iguatemi, por exemplo, empresa do Grupo DI, adiantou o lançamento do seu e-commerce para proteger e atender seus clientes sem que eles precisem sair de casa. O site, que foi ao ar no dia 6 de abril último, permite que os pedidos realizados até as 10h cheguem ao destino no mesmo dia. A Drogaria Iguatemi também entregará via delivery, sem raio mínimo de distância, por meio dos parceiros: Rappi e James Delivery, nova plataforma de entregas do Grupo Pão de Açúcar.
Acompanhe, a seguir, alguns outros reflexos da pandemia.

Distribuição

Segundo comenta o presidente da Associação Brasileira de Distribuição e Logística de Produtos Farmacêuticos (Abradilan), Vinícius Andrade, o setor farmacêutico como um todo tem sido um dos menos afetados.

“Podemos dizer que somos privilegiados neste momento. A demanda de março último cresceu fortemente devido ao fato da população ter ido às farmácias para estocar medicamentos em casa, temendo um possível desabastecimento”, justifica o executivo.

Contudo, alguns reflexos negativos também são esperados. “Outros impactos envolvem o atraso no envio de matéria-prima da China e Índia durante o lockdown de janeiro/fevereiro últimos; além do aumento do valor do dólar e do custo da matéria-prima, o que impacta nos custos operacionais das indústrias, gerando aumentos de preços dos produtos e alguns desabastecimentos pontuais”, comenta.

Diante da falta de estimativas concretas sobre o fim da pandemia e da aceleração – ou não – da doença no País, ainda é difícil fazer projeções futuras. Mas alguns cenários começam a ser desenhados.

“Se houver um lockdown geral no Brasil, em que será proibido sair de casa, pode ser que as farmácias sintam um pouco mais. Mas mesmo que continuem abertas e sendo estabelecimento de necessidade essencial, haverá menos circulação de pessoas”, prevê.

Nesse sentido, os negócios que se reinventam ou se adaptam rapidamente ao novo cenário saem na frente. “Os estabelecimentos que têm delivery estão em vantagem”, diz, salientando que as vendas de medicamentos para tratamento de doenças crônicas não caíram. Pelo contrário. “A Farmácia Popular impulsionou com a possibilidade de a farmácia dispensar os itens por três meses de tratamento; assim como a venda de controlados, que tiveram suas receitas ampliadas para até seis meses”, analisa Andrade.

Sobre o adiamento do Abradilan Conexão Farma, o executivo comenta que os impactos são grandes, mas diante de uma situação como esta, a segurança e a saúde dos parceiros, fornecedores, expositores, palestrantes e visitantes é de valor inestimável.

“Tomar a decisão de suspender o evento foi a mais assertiva possível para o momento. Queremos fazer um evento com a grandiosidade que o setor exige e merece”, comenta. Recentemente, a Abradilan comunicou que o evento será realizado nos dias 16, 17 e 18 de março de 2021.

Indústria

De acordo com o presidente executivo do Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos (Sindusfarma), Nelson Mussolini, “é difícil no momento, para não dizer impraticável, fazer qualquer avaliação ou prognóstico sobre o comportamento do mercado farmacêutico agora e nos próximos meses – e até mesmo no ano que vem”.

O executivo comenta que, desde o início da pandemia, a prioridade da indústria farmacêutica que atua no País, em estreita coordenação com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e o Ministério da Saúde (MS), tem sido a de “garantir a produção e o abastecimento de todos os medicamentos de que a população brasileira necessita para cuidar da saúde e superar essa pandemia”.

Aliás, algumas delas estão comprometidas em contribuir com as autoridades no combate à pandemia de coronavírus. O EMS, por exemplo, apoia o Hospital Israelita Albert Einstein na realização de dois estudos clínicos para checar a eficácia do uso de hidroxicloroquina isolada e de hidroxicloroquina associada à azitromicina no tratamento de pacientes voluntários diagnosticados com Covid-19 e com pneumonia moderada ou grave.

Grandes redes

O CEO da Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma), Sergio Mena Barreto, comenta que as farmácias têm presenciado algumas ondas nas vendas e no acesso às lojas.

Num primeiro momento, houve uma corrida da população por produtos, similar ao que aconteceu na Itália. “Os consumidores buscaram Medicamentos Isentos de Prescrição (MIPs) para dor e suplementos, por exemplo, num movimento que durou, aproximadamente, 10 dias. Foi algo inesperado porque subiu a demanda por produtos típicos da temporada de gripe e ainda estávamos fora dessa sazonalidade”, aponta Mena Barreto, acrescentando que, agora, vive-se a segunda onda, com queda das vendas, já que todo mundo se abasteceu. “Notamos, ainda, a queda nas vendas de produtos como os de Higiene & Beleza (H&B)”, revela.

Segundo Mena Barreto, as projeções, agora, são de que, entre os dias 8 e 20 de maio, o número de casos por Covid-19 suba bastante, com destaque para a cidade de São Paulo, o que trará uma nova onda de busca por produtos nas farmácias.

“As previsões são de que ocorra uma nova corrida dos consumidores por artigos, como vitaminas e suplementos, para abastecimento”, diz. Neste momento, também há projeções de que, com os hospitais com lotações máximas pelas doenças, a população passe a buscar as farmácias em busca de orientação. “Se chegarmos a essa terceira fase, é provável que o MS convoque as farmácias para ajudar, mas ainda é tudo muito novo”, comenta.


Outro movimento que as redes de farmácias têm vivido é o absenteísmo dos colaboradores. “A taxa de absenteísmo nas redes, que costuma ser de 2%, com a pandemia, subiu para 15%. Entendemos que essa doença também traz um impacto emocional, em que alguns colaboradores ficam com receio de ficar na linha de frente. Além disso, já temos dispensado as gestantes e os funcionários com mais de 60 anos de idade. Nossa recomendação, então, é de que as farmácias trabalhem com uma equipe mais enxuta neste momento, para que tenham backup de colaboradores em casos de doença ou outras questões”, aconselha Mena Barreto.

O executivo da Abrafarma também afirma que, por enquanto, ainda é difícil fazer projeções futuras e que a retomada da economia está muito atrelada ao emprego. “Temos de visualizar qual vai ser o tamanho do desemprego no País. Mas esperamos que as pessoas voltem a comprar aquilo que deixaram de consumir. Espera-se que a curva de casos comece a descer a partir da última semana de junho”, diz.

O executivo também espera que esse momento deixe alguns legados positivos. “Por que as farmácias ainda não podem realizar testes rápidos? Por que ainda não estamos mais avançados na telemedicina? Por que não posso comprar medicamentos para 90 dias? Por que existem tantas barreiras para as farmácias aplicarem vacinas? Para muitos casos, sempre vamos ainda pelo caminho mais complicado”, reflete.

Redes associativistas

Para o presidente da Federação Brasileira das Redes Associativistas e Independentes de Farmácias (Febrafar), Edison Tamascia, entre os desafios para as redes filiadas da entidade está o atendimento, que visa manter não só a segurança do consumidor, como também da equipe das lojas.

“Grande parte de nossa preocupação é com quem atua nas farmácias. Para tanto, já criamos um manual com orientações, que são muito amplas, que abordam pontos como higienização, distanciamento, usos de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) e orientação dos consumidores. Preocupamo-nos com todos os pontos e queremos que os farmacêuticos estejam habilitados para falar e orientar”, pontua Tamascia.

Na gestão de produtos, como a crise é mundial, o executivo vê que o maior impacto vem sendo para as indústrias, que têm enfrentado dificuldades na importação e no processo fabril. Tamascia observa, ainda, o desabastecimento de algumas categorias por excesso de demanda.

“Observamos que estão em falta produtos como a vitamina C e suplemento vitamínicos. A médio e longo prazo podemos ter mais problemas de abastecimento, principalmente em função da questão da Índia, que pode ter dificuldade de entregar matérias-primas”, estima.

Para ele, diante de uma crise desta magnitude, todos perdem. Contudo, Tamascia ressalta que medicamento é essencialidade, então não se deve ter um impacto tão grande e nem deve vender muito mais em função da crise. “Grande parte dos produtos é de uso contínuo, assim, vai vender como sempre vendeu. Isso só terá alguma mudança em caso de um grande problema financeiro”, projeta.

Testes rápidos de coronavírus em farmácias?

Em uma das recentes coletivas diárias de imprensa para atualizar os números da pandemia e próximos passos, o MS havia anunciado que uma das medidas estudadas era a de permitir a venda de testes rápidos de anticorpos nas farmácias.

Segundo defende em seu portal, a ClinicaRx afirma que “os testes rápidos de coronavírus nas farmácias podem ser úteis para evitar buscas desnecessárias das pessoas ao sistema de saúde lotado. Por outro lado, é fundamental que o MS proponha um protocolo clínico sólido para a aplicação dos testes em farmácias, clínicas e consultórios e defina as regras referentes à notificação de resultados”.

Para Tamascia, essa é uma situação complicada, porque esses testes só podem ser feitos por farmácias que têm serviços de Atenção Farmacêutica. “Tenho uma certa preocupação, mesmo nos estabelecimentos que possuem estrutura, pois os profissionais responsáveis por esses serviços precisam de EPIs mais apurados. Isso sem contar o tempo de espera para sair o resultado e como a farmácia irá alocar a pessoa com suspeita durante esse período. Não sou um defensor, mas estamos à disposição”, pondera o executivo.

O Hilab já desenvolveu um teste rápido para detectar o Covid-19. O teste sorológico leva aproximadamente dez minutos e estará disponível em algumas farmácias pelo valor de R$ 130,00, com possibilidade de redução. As projeções eram de que já estivessem disponíveis a partir da segunda quinzena de abril.

Foto: Shutterstock

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