
No Dia do Farmacêutico, celebrado em 20 de janeiro, a revista Guia da Farmácia homenageia os profissionais que ocupam um espaço cada vez mais central no cuidado à saúde da população brasileira.
Do acompanhamento clínico ao esclarecimento sobre terapias, da vacinação ao apoio em momentos de crise sanitária, o farmacêutico tornou-se protagonista de uma transformação silenciosa, porém profunda, que redefine o papel das farmácias como estabelecimentos de saúde.
Para compreender esse movimento e os desafios que ainda se impõem, entrevistamos, com exclusividade, o Dr. Marcelo Polacow Bisson, presidente do Conselho Regional de Farmácia de São Paulo (CRF-SP) e um dos nomes mais atuantes na defesa da profissão.
Polacow, que também é farmacêutico pela USP-Ribeirão Preto, mestre e doutor em Farmacologia pela UNICAMP, e pós-doutorando no Programa de Ciências Farmacêuticas da FCF-UNICAMP, analisa os avanços conquistados, como a ampliação da prática clínica e o crescimento dos serviços farmacêuticos, e comenta os obstáculos que persistem no varejo, sobretudo no que diz respeito à autonomia, às condições de trabalho e à formação continuada.
Neste bate-papo, Polacow projeta o futuro da profissão, o impacto das novas tecnologias, as prioridades regulatórias e o caminho para que cada farmacêutico, especialmente no varejo, possa exercer plenamente sua missão: cuidar com ética, conhecimento e humanização.
Acompanhe, a seguir, o conteúdo completo.
Guia da Farmácia • Ao longo das últimas décadas, a profissão farmacêutica ganhou uma visibilidade muito maior perante a sociedade. Na sua visão, quais foram os principais marcos que contribuíram para essa valorização?
Marcelo Polacow Bisson • Acredito que foi um grande marco nessa valorização a regulamentação da prescrição farmacêutica, por meio da Resolução 586/2013, do Conselho Federal de Farmácia (CFF), que ampliou a atuação clínica do farmacêutico.
Também podem ser citadas a expansão dos serviços farmacêuticos: como acompanhamento de doenças crônicas, vacinação, testes rápidos e gestão da terapia medicamentosa; o reconhecimento do papel essencial na saúde pública, especialmente durante a pandemia de Covid-19, com atuação em testagem, vacinação e orientação; e a inserção da farmácia como estabelecimento de saúde, com foco no cuidado e não apenas na dispensação.
Guia • Quais são hoje os maiores desafios enfrentados pelos farmacêuticos que atuam no varejo em termos de formação, autonomia profissional e condições de trabalho?
Polacow • Em relação à formação, podemos citar a necessidade de educação continuada para atuar clinicamente, com ênfase em habilidades de comunicação, gestão e clínicas. Sobre a autonomia profissional, vemos um grande desafio relacionado à pressão comercial versus atuação ética e baseada em evidências.
Quando pensamos nas condições de trabalho, sem dúvidas, as jornadas extensas, cobrança por metas comerciais e falta de estrutura para prestação de serviços clínicos são desafios diários dos profissionais da área.
Por fim, quando avaliamos a valorização financeira, temos a remuneração muitas vezes desalinhada com a responsabilidade e complexidade do trabalho.
Guia • A adesão ao tratamento ainda é um problema relevante no Brasil. De que maneira o farmacêutico pode ser protagonista para melhorar esses índices?
Polacow • O profissional da farmácia é fundamental nesse processo e, para tanto, precisa realizar um aconselhamento farmacêutico personalizado e educativo.
Nesse sentido, algumas ferramentas podem ser aliadas. Entre elas, aquelas voltadas para o monitoramento, como lembretes de horário e acompanhamento de efeitos adversos, por exemplo.
Também é importante para o profissional da área estabelecer vínculos com o paciente, sempre atuando de forma multiprofissional, com médicos e outros especialistas.
Outro ponto que não pode ser esquecido nesse processo é a implementação de programas de apoio, como a revisão da terapia medicamentosa e acompanhamento de crônicos.
Guia • Que conquistas recentes do CRF-SP você destacaria como fundamentais para o fortalecimento da profissão no cenário atual?
Polacow • Alguns pontos foram bastante relevantes entre as conquistas de 2025 do CRF-SP. Destacaria, entre eles, o fortalecimento da fiscalização para coibir exercício irregular e práticas antiéticas; e a criação de campanhas de valorização profissional e divulgação de serviços farmacêuticos à população.
Também implementamos o Advocacy, a fim de angariar melhores condições de trabalho e reconhecimento da atuação clínica; e estabelecemos programas de educação continuada e parcerias com instituições de ensino.
Guia • O que o Conselho enxerga como prioridades e principais lutas para 2026?
Polacow • Para este ano, uma das lutas principais será a regulamentação da remuneração de serviços farmacêuticos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e planos de saúde.
Também está no radar da entidade o combate à precarização do trabalho e pressão por metas comerciais abusivas, além da ampliação da atuação clínica com respaldo legal e suporte das entidades.
Outro tema que está na agenda do CRF-SP é a integração do farmacêutico na rede de atenção primária e em equipes multiprofissionais.
Guia • A tecnologia tem mudado drasticamente a prática farmacêutica, desde o uso de Inteligência Artificial (IA) até plataformas de cuidado. Como você avalia o impacto dessas transformações no dia a dia do profissional?
Polacow • Vejo que as ferramentas de IA e softwares auxiliam no manejo de terapias, interações e alertas clínicos. Mas não para por aí. Outras tecnologias passaram a ser aliadas do profissional da farmácia, como plataformas de telefarmácia, que ampliam o acesso ao cuidado; e automação de processos, a fim de liberar tempo para atividades clínicas.
Mas em todo esse movimento, existe um grande desafio: o de conseguir o equilíbrio entre tecnologia e humanização do atendimento.
Guia • Muitos farmacêuticos relatam dificuldades em conciliar demandas administrativas, metas e o exercício pleno de suas atividades clínicas. Como o Conselho aconselha os profissionais da área para esse equilíbrio com o setor?
Polacow • De fato, essa é uma realidade de muitos profissionais da área e um dos pontos cruciais para esse processo está na organização e priorização, destinando horários específicos para atividades clínicas.
Também vejo a importância de buscar apoio da gestão para definir metas realistas e compatíveis com a prática ética.
Nessa jornada, como já citamos, a tecnologia pode ser uma grande aliada, agilizando processos burocráticos. E tudo isso precisa ser complementado com capacitação contínua, com foco em gestão para otimizar tempo e recursos.
Guia • O atendimento clínico nas farmácias está cada vez mais robusto. Quais competências o farmacêutico precisa desenvolver para acompanhar esse movimento e se diferenciar no mercado?
Polacow • De fato, o atendimento clínico cresce entre as farmácias do Brasil e passa a exigir do farmacêutico algumas competências para um atendimento bem-sucedido.
Esse papel exige do profissional da área habilidades de comunicação e empatia, além de conhecimento clínico atualizado, considerando farmacoterapia, doenças crônica e farmacogenômica.
Capacidade de raciocínio clínico e tomada de decisão, gestão de serviços e saúde digital e trabalho em equipe multiprofissional são outras habilidades importantes nesse cenário.
Guia • Quais são as expectativas para o futuro da profissão? Podemos esperar uma atuação cada vez mais orientada ao cuidado?
Polacow • Sim, a tendência é de uma atuação cada vez mais centrada no paciente, com foco em prevenção, cuidado continuado e personalização.
Pode-se esperar, assim, a ampliação de serviços clínicos remunerados; maior integração com saúde digital e big data; e consolidação da farmácia como ponto de cuidado na comunidade.
Guia • No Dia do Farmacêutico, qual mensagem você deixaria para os profissionais que atuam no varejo, muitas vezes na linha de frente do cuidado à população?
Polacow • Parabéns a todos os farmacêuticos que, na linha de frente, transformam vidas por meio do cuidado, da ciência e da humanização. Seu papel é essencial para a saúde da população.
Sigam inspirando confiança, promovendo saúde e elevando cada vez mais nossa profissão. Valorizem-se, capacitem-se e lembrem-se: vocês fazem a diferença!
Fonte: Guia da Farmacia
Foto: Marcelo Polacow