Diferenças entre rotavírus e norovírus

Ambos são causadores da doença diarreica e os surtos são comumente relacionados à infecção alimentar

Cada vez mais comuns, os surtos de gastroenterocolites vêm chamando a atenção da Secretaria da Saúde Pública, que investe constantemente em campanhas para a conscientização da população acerca dos cuidados para a prevenção da doença, bem como formas de tratá-las.

Sintomas, como diarreia, vômitos, dores estomacais e cólicas, são típicos de quadros de gastroenterite viral que remetem ao diagnóstico de rotavírus. No entanto, são cada vez mais frequentes surtos causados por norovírus, outro tipo de vírus cuja facilidade de transmissão é muito maior que a do rotavírus.

No Brasil, os norovírus são tão ou mais frequentes do que o rotavírus como causadores de grandes surtos, variando de 21,4% a 35%, maiores do que para rotavírus. No entanto, são mais comumente registrados em transatlânticos, lugares típicos para surtos de doença diarreica, devido a grandes grupos de pessoas confinadas em um ambiente restrito.

Já nos Estados Unidos, o norovírus é responsável por estimados 19 a 21 milhões de casos, com entre 60 a 70 mil internações e entre 600 a 800 óbitos por ano. É a mais comum causa de gastroenterite aguda naquele país em todas as idades e a mais importante causa de surtos de infecção alimentar.

Como explica o infectologista Dr. Marcelo Luiz Galotti Pereira, o norovírus, ainda desconhecido do público, acomete mais adultos, enquanto o rotavírus, crianças. “Locais confinados, como creches, asilos, escolas e navios, bem como ambientes hospitalares, são propícios para surtos no norovírus”, diz. “Como são muito resistentes, tendem a permanecer por um bom período em superfícies que o doente teve .contato.”

Crianças mais afetadas

A pediatra da rede Dr. Consulta, Dra. Marcela Angeli Oliveira, alerta que clinicamente não há diferença entre o rotavírus e norovírus, já que ambos pacientes apresentam diarreia e vômitos, e que estes sintomas duram em torno de dois a cinco dias. “Os dois vírus atingem pessoas de todas as idades: crianças, adultos e idosos, porém é mais comum em crianças”, diz. “A única diferença é o período em que ocorre o surto de cada vírus: o rotavírus predomina no verão e o norovírus durante todo o ano, com um leve aumento dos casos no inverno.”

As crianças, principalmente as menores, são mais afetadas por levarem muito as mãos à boca e por não as lavar adequadamente. Os sintomas são vômitos, diarreia, dor abdominal, náusea, febre baixa, fadiga e até dor muscular, levando às vezes a uma importante desidratação.

“A transmissão acontece por água ou alimentos contaminados, transmissão fecal, oral e até mesmo por vias aéreas, como contatos com partículas presentes nos vômitos”, explica a Dra. Marcela. “É importante destacar que, com apenas uma partícula, a transmissão já pode acontecer, e que cerca de 30% das pessoas infectadas pelo norovírus são assintomáticas, mas podem transmitir a doença.”

A pediatra alerta, ainda, que pessoas que apresentaram os sintomas, no caso do norovírus, continuam transmitindo os vírus por até três semanas, enquanto que, no caso das infecções por rotavírus, a transmissão ainda pode ocorrer por três a cinco dias, após cessar o quadro de diarreia.

Segundo um estudo de vigilância de norovírus, realizado no Instituto Adolf Lutz, durante os anos de 2005 a 2008, no estado do Rio de Janeiro, cerca de 35% dos casos diagnosticados foram positivos. Em outro estudo, também realizado pelo Instituto, em 2004, 41% das gastroenterites foram causadas pelo rotavírus. Concluindo, assim, a importância da prevenção para combater o número elevado de casos. No Brasil, temos a doença o ano todo, porém, como já dito, a maior ocorrência das gastroenterites por rotavírus predomina no verão.

Movimento Brasil sem Parasitose

O Movimento Brasil Sem Parasitose (MBSP), ação social e educacional de iniciativa da Federação Brasileira de Gastrenterologia (FBG) com o apoio da FQM Farmoquímica, é uma ação itinerante que percorrerá, até outubro de 2016, 11 cidades brasileiras levando à população atendimento médico especializado. O objetivo é reduzir a ocorrência das doenças parasitológicas, evitando consequências severas e o óbito.

Uma unidade móvel alerta sobre a importância de hábitos de higiene pessoal e doméstica que evitam a transmissão de parasitas, bem como o correto tratamento antiparasitário para o controle de doenças.

São três consultórios, onde inicialmente a população passa por um pré-atendimento com enfermeiros, seguindo para o atendimento com médicos gastroenterologistas e gastroenterologistas pediátricos.

As cidades em que o movimento passará são: Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador, Aracaju, Maceió, Recife, Natal, Fortaleza, São Luiz, Brasília e Belo Horizonte.

Para acompanhar a caravana e conferir as datas de atendimento, acesse o site: www.movimentobrasilsemparasitose.com.br.

 

Surto nas férias e retorno às aulas

A infecção por norovírus, como dito anteriormente, acomete mais as crianças que frequentam escolas e no verão. Cerca de 30% dos indivíduos acometidos podem ser assintomáticos. Além disso, mesmo após melhora clínica da doença, continua-se eliminando vírus nas fezes por cerca de duas semanas.

Nas férias escolares, é muito comum a ocorrência de quadros de gastroenterites por ingestão de alimentos ou água contaminados, sobretudo em viagens para locais quentes, como as praias. Basta que uma criança apareça na escola doente (ou eliminado o vírus já assintomática), que existe a possibilidade de surto.

“Caso ela não lave as mãos após uso de sanitário e esteja com as mãos contaminadas, pode acabar levando o vírus para algum colega. Basta um único vírus para contaminar uma criança”, explica a pediatra Dra. Letícia Rubim. “Além disso, o norovírus é extremamente resistente, podendo sobreviver em superfícies inanimadas, como mesas e carteiras, entre oito horas a sete dias”, diz.

Outro problema são os manipuladores de alimentos. Toda escola costuma ter uma cantina e, caso o alimento preparado se contamine com mãos em que o vírus esteja presente, o surto está garantido.

A volta às aulas é, portanto, um prato cheio para a ocorrência de surtos. Para minimizar o problema, a pediatra ratifica a importância às medidas preventivas já citadas, com especial atenção para a higiene das mãos e cuidado dos manipuladores de alimentos nas cantinas.

“A prevenção passa pela educação de cuidadores e funcionários de creches e escolas e dos responsáveis pela preparação das refeições, em relação aos cuidados de lavagem das mãos e limpeza dos objetos e do local de preparo dos alimentos com produtos adequados”, complementa a diretora da Homeped, Dra. Cristiana Meirelles.

“Embora a sua grande maioria apresente uma evolução curta e benigna, a gastroenterite aguda pode se tornar grave, levando a quadros de desidratação e choque hipovolêmico. Como não há tratamento específico eficaz contra os vírus causadores, é fundamental a prevenção da doença por meio da vacinação contra rotavírus, estímulo ao aleitamento materno e medidas de higiene no ambiente”, esclarece a Dra. Cristiana.

Incidência do problema no Brasil

No Brasil, a incidência de norovírus é maior na primavera e no verão. Segundo dados do Ministério da Saúde, entre os anos 2000 e 2015, a incidência de casos de diarreia transmitida por alimentos secundários ao norovírus foi de 2,3%. Essa grande diferença de prevalência em relação ao percentual em outras localidades do mundo se deve à baixa notificação e à pequena quantidade de estudos de prevalência fora dos períodos de grandes surtos, como o ocorrido em

São Paulo em 2008.

 

Prevenção ainda é o melhor remédio

Para o rotavírus, existe uma sequência de vacinas que se inicia aos dois meses de idade, com reforço nos quarto e sexto mês. Como a imunização tem início aos dois meses, vale ressaltar que o leite materno já fornece uma proteção contra doenças, inclusive diarreias agudas.

“Todavia, o método mais eficaz de prevenção é interromper a transmissão, o que pode ser feito com os seguintes cuidados: lavar as mãos com água e sabão abundantemente, lavar os alimentos de maneira adequada e o tratamento da água”, lembra a Dra. Marcela.

“O uso do álcool em gel ajuda, mas higienizar bem as mãos com frequência é fundamental, lembrando que os objetos utilizados por pessoas doentes deverão ser sempre higienizados com hipoclorito a 2%, para eliminar o vírus”, orienta a pediatra da rede Dr. Consulta. Os mesmos cuidados valem para prevenção do norovírus, uma vez que não existem vacinas para evitá-lo.

Os surtos em escolas acontecem por conta da facilidade de transmissão. Uma única criança contaminada poderá espalhar para todas as outras. Para minimizar o problema, será necessário o afastamento das crianças contaminadas e redobrar atenção na higiene do local. Já nas férias, as crianças geralmente têm mais acessos a locais públicos, como clube, praia e piscinas, aumentando o risco de contaminação.
Tratamento assertivo

Na maioria dos casos, o tratamento é feito com hidratação oral ou soro caseiro. Apesar da natural perda de apetite, a alimentação saudável também é fundamental para a recuperação. E no caso de recém-nascidos e lactentes, o aleitamento materno é a forma mais eficaz para combater a desidratação que, em geral, é mais grave nas idades extremas: crianças e idosos.

Um tratamento que elimine o vírus não existe. É preciso dar ao organismo condições de combatê-lo. Muitas vezes, a internação é necessária para agilizar a recuperação. Como regra, a doença dura de dois a três dias.

Para a pediatra da Clínica Fares, Dra. Veridiana Rolim Soares de Abreu, a ingestão abundante de líquidos a fim de evitar desidratação, assim como de alimentos leves, associada a antipiréticos e analgésicos para febre e dor abdominal, antiemético para náusea e vômitos, ajudam a agilizar o pronto restabelecimento do paciente acometido pela gastroenterite viral. “A diarreia do rotavírus pode durar de três a sete dias, enquanto a do norovírus tende à resolução mais rápida, de 24 a 72 horas”, ressalta.

O gastroenterologista e assessor médico na Farmoquímica, Dr. Ronaldo Carneiro, alerta ainda sobre a importância da higiene das mãos para a prevenção e tratamento de surtos de gastroenterocolite, com cuidados redobrados após a utilização do banheiro e de transporte público.

“É fundamental, ainda, evitar a mão na boca e roer unhas, por exemplo. A educação sanitária é de extrema relevância para a redução de tempo dos sintomas e eficácia do tratamento”, diz o médico.

Entre os medicamentos mais utilizados para o tratamento de gastroenterocolite, está a nitazoxanida, que atua no sentido de inibir a ação da enzima fundamental para a multiplicação dos parasitas e dos vírus.

Autor: Tatiana Ferrador

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Edição 284 - 2016-07-01 Novos Postos

Essa matéria faz parte da Edição 284 da Revista Guia da Farmácia.

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