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Dor muscular é mais comum do que se pensa

Mialgia, ou dor muscular, é mais comum do que se pensa. Com diagnóstico apenas físico, ela está cada dia mais relacionada às atividades cotidianas e ao estresse físico e emocional

Embora não existam estatísticas específicas sobre a incidência de dor muscular no Brasil e no mundo, sabe-se que aproximadamente 80% das pessoas já sentiram ou se queixaram deste tipo de dor alguma vez na vida. A informação é da médica fisiatra e membro da Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED), Dra. Lin Tchia Yeng.

Ela revela, igualmente, que em torno de 65% dos atendimentos no Hospital das Clínicas (HC) têm como referência dores musculoesqueléticas. “As dores musculares ou as mialgias são muito comuns e diagnosticadas com exame físico. É preciso destacar, assim, a importância da avaliação clínica para determinar a causa e a origem da dor, evitando até tratamentos desnecessários”, comenta a Dra. Lin.

Principais fatores desencadeantes da dor muscular

Em princípio, exercício físico intenso, traumas e infecções virais estão entre os principais desencadeantes. “A maioria das causas é benigna e limitada, mas, por vezes, pode estar associada a condições clínicas maiores e capazes de comprometer significativamente a qualidade de vida”, diz o médico reumatologista da Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein, Dr. Cristiano B. Campanholo.

O problema é tão comum que é até difícil encontrar quem nunca tenha experimentado uma dor muscular na vida, mesmo na infância. Ademais, dor muscular se manifesta por uma sensação desagradável percebida na topografia de um ou mais grupos musculares.

Pode ser uma pontada, queimação, sensação de peso e ardência e, segundo o Dr. Campanholo, várias condições clínicas podem resultar em dor muscular, o que dificulta o agrupamento de todas para ser estudadas conjuntamente.

Causas da dor muscular

Quanto ao padrão de acometimento da dor muscular, as causas de mialgia difusa podem ser:

  • Infecções sistêmicas bacterianas ou virais (exemplo: dengue, febre amarela);
  • Doenças reumáticas, especialmente polimialgia reumática, miosites autoimunes (dermatomiosite ou polimiosite);
  • Condições não inflamatórias, como fibromialgia, síndrome da fadiga crônica;
  • Resultantes de uso de medicamentos como os da classe das estatinas (medicamentos utilizados para redução do colesterol); antibióticos (classe das quinolonas – exemplo: ciprofloxacina); medicamentos da classe dos bisfosfonatos (medicamentos utilizados para tratamento da osteoporose, inibidores da aromatase); e medicamentos utilizados no tratamento do câncer de mama;
  • Infecções crônicas pela hepatite C;
  • Alterações do funcionamento da tireoide (hipo e hipertireoidismo) da paratireoide (hiperparatireoidismo);
  • Depressão.

Entre as causas de mialgia localizada estão:

  • Exercícios extenuantes ou sobreuso;
    Doenças de partes moles, como tendinites ou bursites;
    Infecções de determinados grupos musculares;
    Infarto muscular ou síndrome compressiva chamada Síndrome Compartimental.

Fonte: médico reumatologista da Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein, Dr. Cristiano B. Campanholo

“O estilo de vida moderno com maior sobrecarga de trabalho e menor tempo e prática de atividades físicas certamente contribui para o fato”, diz. Segundo ele, homens e mulheres podem sofrer de dores musculares e novamente não existem estatísticas genéricas a respeito.

“Se você falar em fibromialgia, que é uma das causas de dores musculares crônicas e difusas, sendo a segunda doença mais frequente na reumatologia (a primeira é osteoartrite), a prevalência na população fica em torno de 2,5%, sendo a maioria mulheres e aproximadamente 40% na faixa etária entre 35-44 anos de idade”, comenta.

Mulheres são as maiores acometidas

E são as mulheres apontadas como o público que mais sofre com dores musculares. De acordo com a Dra. Lin, as causas estão na rotina diária que chega a ser dupla e até tripla. “Lombalgias, ou dor na lombar, cervicalgias, ou dores na coluna cervical e Lesão por Esforço Repetitivo (LER), são muito comuns nas mulheres e tudo isto está relacionado à carga de atividades que ela desempenha no dia a dia, somam-se a isto fatores hormonais que podem sensibilizar mais a tolerância à dor. Também destacamos que as mulheres são mais atentas à saúde, então procuram mais diagnósticos do que os homens”, ressalta.

A médica explica que muitas vezes a causa da dor muscular está relacionada a fatores posturais, estresse e até mesmo à condição de sono do indivíduo.

“Quando recebemos uma queixa de dor muscular, tudo isso precisa ser investigado. Um colchão ruim, um travesseiro ruim, um sono ruim, podem resultar em dores na musculatura. E simples mudanças podem resolver o problema. O sono é reparador e revigora não somente o físico como o mental. Durante o sono, acontecem várias reações, como a liberação do hormônio do crescimento e a própria recuperação muscular”, conta a médica.

As causas de dores musculares podem ainda ser classificadas quanto à forma de início, aguda ou progressiva, e quanto ao padrão de acometimento, difuso ou focal.

“As formas agudas, geralmente, estão relacionadas com traumas e realização de exercícios físicos extenuantes. Formas de início progressivas podem resultar da não resolução de traumas prévios ou estarem associadas a condições clínicas relacionadas com outras doenças”, explica o Dr. Campanholo.

Impacto no dia a dia

Estresse e condições inadequadas de ergonomia, seja para o trabalho ou para o lazer, são causas de dores musculares que, num primeiro momento, podem ser agudas e se não devidamente tratadas, podem se cronificar e resultar em menor produtividade.

“Atentas a essa realidade, muitas empresas têm se preocupado com a saúde de seus colaboradores e implementado projetos para supervisionar e intervir, quando necessário, sobre o estresse coletivo no ambiente de trabalho”, comenta o Dr. Campanholo.

Segundo ele, orientação de práticas de exercícios durante a jornada de trabalho visando quebrar o ciclo de esforços repetitivos, somada ao cuidado com mobiliário e distribuição dos equipamentos por meio de planejamento de medidas ergonômicas, também contribuem para redução das dores musculares nos colaboradores.

Lombalgia merece atenção especial

A dor muscular, especialmente a lombalgia, já é uma das principais causas de afastamento do trabalho e das atividades rotineiras no País, de acordo com o médico ortopedista da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo, Dr. Fabiano Nunes.

Ele explica que entre 60% e 80% das pessoas terão dores lombares em algum momento de suas vidas. “Esse tipo de dor é bastante incapacitante e traz prejuízos não só para a saúde, mas também impactos econômicos negativos”, comenta.

O Dr. Nunes destaca que os problemas posturais estão entre os fatores causadores da dor e que podem ser resolvidos com mudanças simples. “Fazer pequenos intervalos no trabalho, por exemplo, andar um pouco a cada uma hora, fazer alongamento e nos casos em que se necessita correção postural, Reeducação Postural Global (RPG), pilates, natação, ajudam a resolver o problema”, comenta.

Além disso, a melhoria no ambiente de trabalho, por exemplo, também pode impactar diretamente na incidência das dores musculares. “Hoje em dia, a pressão no trabalho é muito grande. Pressão por resultados, pessoas querendo o seu cargo e por aí em diante. Tudo isso pode resultar em dores tensionais. A questão é que a proteção não caminha na mesma velocidade da pressão e é preciso investir em ambientes de trabalho mais adequados e saudáveis”, diz.

Aliás, o estresse é apontado como um grande componente físico e psicossocial causador de dores musculares, especialmente as tensionais, entre elas as dores no pescoço, no trapézio e na lombar.

Lesões esportivas

As dores causadas por atividades físicas de alto impacto ou em excesso também são comuns e podem causar alguma incapacitação temporária. “É um tipo de dor comum, mas que geralmente passa após alguns dias. É um problema muito pontual e que acontece em menor escala quando comparado às dores tensionais, por exemplo”, comenta a Dra. Lin.

A atividade física é muito recomendada como prevenção das dores e também coadjuvante na redução do estresse. “Claro que pessoas com nível de atividade física mais intensa têm maiores chances de apresentarem dores musculares no pós-exercício, mas, por outro lado, quem pratica atividade tem a musculatura melhor e menor chance de ter dor por fadiga ou estresse”, comenta o Dr. Nunes.

Para prevenir as dores pós-atividade física, o médico recomenda a preparação para o exercício, ou seja, alongar e aquecer os músculos e depois alongar novamente para evitar contraturas.

Ação dos medicamentos para dor muscular

Os analgésicos e anti-inflamatórios são os medicamentos mais prescritos para o tratamento dos sintomas e causas das dores musculares. Conforme diz o Dr. Campanholo, esses medicamentos atuam impedindo o acionamento do mecanismo causador da dor, seja reduzindo o estímulo resultante da inflamação local, seja bloqueando a percepção pelo receptor da dor ou ainda diminuindo a transmissão da informação dolorosa do Sistema Nervoso Periférico (SNP) ao Sistema Nervoso Central (SNC).

Já a farmacêutica responsável pela Farmácia Universitária da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (USP), Maria Aparecida Nicoletti, explica que os medicamentos mais utilizados para traumas e contusões são os Anti-Inflamatórios Não Esteroides (AINEs).

Ela ressalta que, normalmente, os analgésicos não opioides são os utilizados para as dores menos intensas e mais corriqueiras, durante um período de tempo curto.

“Esses medicamentos apresentam propriedades analgésica, antipirética, antitrombótica e anti-inflamatória. Saliente-se que todos os analgésicos não opioides são AINEs – excetuando-se o acetaminofeno (paracetamol)”, diz. Ainda segundo a farmacêutica, para dores musculares, os medicamentos também podem apresentar outros fármacos em sua composição que atuam como relaxantes musculares.

Como atuam os medicamentos para dor muscular

“Um fármaco que apresenta ação como relaxante muscular atua no músculo esquelético diminuindo o tônus muscular e é usado para aliviar os sintomas, como espasmo muscular e dor”, explica.

Segundo informa a especialista, deve ser salientado também que há alguns procedimentos de uso doméstico que são adjuvantes no tratamento de contraturas, torcicolos e lombalgias, como o uso de compressa de alecrim e alfazema.

“Tomar banho de água bem quente ou a utilização de bolsa de água quente na região dolorida poderá ser também usado para alívio do desconforto. A massagem com óleos essenciais poderá também aliviar a contratura muscular”, orienta.

A farmacêutica comenta ainda que a orientação sobre o uso racional de medicamentos deve ser, sempre, o foco de qualquer dispensação. “O usuário do medicamento deve estar seguro a respeito do entendimento de todas as informações necessárias e suas dúvidas devem estar sanadas”, comenta Maria Aparecida.

Foto: Shutterstock

Excessos e falta de cuidado podem causar dor muscular

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Essa matéria faz parte da Edição 318 da Revista Guia da Farmácia.