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Dr. Google: Diagnóstico a um clique

O hábito de pesquisar por sintomas de doenças na internet tornou-se tão comum que originou o termo “Dr. Google”; a prática é válida, mas deve ser feita com bom senso, pois pode gerar alarmes falsos ou mascarar problemas reais

No começo deste ano, um assunto dominava os noticiários na televisão e as manchetes dos jornais: febre amarela. Assustada, a população fez longas filas em postos de saúde de todo o País a fim de se imunizar contra a doença. Em paralelo, outro importante movimento ocorria, mas de maneira mais discreta. Além de uma procura desenfreada pela vacina, os brasileiros fizeram disparar o número de buscas pelo termo “febre amarela” na internet.

De acordo com dados do Google, até dia 6 de dezembro de 2017, o volume de pesquisas sobre o vírus oscilava de um e quatro pontos, dentro de uma escala de popularidade que varia de zero a 100. Bastou que a mídia passasse a divulgar o risco do surgimento de uma epidemia, para as palavras “febre amarela” atingirem o nível máximo da análise de popularidade, em 14 de janeiro deste ano.

Doenças mais pesquisadas na internet

1- Pólipos no intestino grosso.
2- Depressão.
3- Obesidade.
4- Anemia.
5- Gonorreia
6- Fígado gorduroso.
7- Mioma.
8- Doenças das glândulas sudoríparas.
9- Doenças das artérias carótidas.
10- Doença inflamatória pélvica.
Fonte: Doctoralia

Essa rápida ascensão é uma clara amostra de que a internet se tornou uma importante ferramenta de informação sobre saúde. Essa tendência de comportamento é confirmada por alguns dados oficiais: segundo o relatório da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), o Brasil ocupa o quarto lugar entre os países que mais buscam dados pela internet, e o próprio Google afirma que saúde é um dos temas mais recorrentes – uma em cada 20 pesquisas feitas na base de dados do site é para obter informação sobre questões relacionadas a doenças ou bem-estar.

“É algo cada vez mais frequente e só deve crescer o número de pacientes que fazem buscas na internet quando têm algum sintoma diferente ou após resultados de exames médicos de rotina, na tentativa de antecipar o que ouvirão de seus médicos, se os resultados estão bons ou ruins. Acredito que os profissionais de saúde já estão mais acostumados com este comportamento”, analisa a gerente médica do Hospital Santa Paula, Dra. Camila Succi.

Termos mais pesquisados

Não são só epidemias ou doenças desconhecidas que surgem com alta frequência entre os termos mais pesquisados. Males mais cotidianos também são tópicos frequentes. De acordo com dados do Doctoralia, plataforma que conecta pacientes e profissionais de saúde, “pólipos do intestino grosso” é o assunto mais buscado entre os brasileiros quando se trata de saúde, seguido de depressão e obesidade.

O ranking pode ser confirmado quando comparado aos dados do Google Trends, ferramenta que analisa o volume de buscas de informações no site. A popularidade da pesquisa sobre pólipos se mantém na faixa entre 50 e 100 pontos, desde abril de 2017. No mesmo período, a depressão não ficou abaixo dos 60 pontos em nenhuma ocasião no mesmo período, chegando a alcançar picos máximos em alguns meses avaliados.

A liderança desses males nos rankings de pesquisa pode ser explicada quando analisamos a prevalência dessas doenças entre a população brasileira. Pólipos no intestino grosso são uma das condições mais comuns que afetam o intestino e atingem de 15% a 20% da população, segundo o Portal da Sociedade Brasileira de Coloproctologia.

Já a depressão afeta 5,8% dos brasileiros, o que equivale a 11,5 milhões de pessoas – o maior índice de depressão da América Latina, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Por sua vez, a obesidade atinge quase a metade da população brasileira, de acordo com o Ministério da Saúde (MS).

Perigos do “Dr. Google”

A internet é um recurso indispensável no cotidiano da sociedade contemporânea. A ferramenta é utilizada para estudar, trabalhar, reservar viagens, pagar contas, fazer compras, entreter e mais uma série de outras funções. Logo, é natural que também seja aplicada no cuidado com a saúde.

De acordo com conselheiro e coordenador do departamento de Comunicação do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp), Dr. Antônio Pereira Filho, não há problemas em recorrer a esse recurso quando surgem dúvidas ou curiosidades. “Já faz alguns anos que isso ocorre. Os pacientes procuram o Google mesmo. De forma geral, não vejo como negativo. É bom, é possível ter informações sobre a doença, o que é, o diagnóstico, os sintomas”.

Dicas importantes

  • Diante de pacientes que têm o hábito de pesquisar informações sobre saúde na internet, o farmacêutico pode orientá-lo como garantir respostas de maior qualidade e precisão:
  • O site pesquisado deve fornecer quem é o responsável pela informação nele disponibilizado;
  • Deve conter as informações sobre as credenciais médicas das pessoas que revisaram ou prepararam o material;
  • Precisa apresentar a opção do leitor contatar a organização ou o responsável pela informação em caso de dúvida (e-mail, telefone);
  • É importante conferir a data de atualização do site, para checar se as informações são recentes.

Onde pesquisar?

Deve-se orientar o paciente a buscar informações em sites confiáveis, como de instituições de saúde, sociedades de classe médicas, universidades e hospitais, como:

  • Ministério da Saúde (www.saude.gov.br).
  • Sociedade Brasileira de Cardiologia (www.cardiol.br).
  • Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (www.sboc.org.br).
  • Sociedade Brasileira de Diabetes (www.diabetes.org.br/publico).

Fonte: gerente médica do Hospital Santa Paula, Dra. Camila Succi

O perigo está no que é feito a partir das informações colhidas na internet. “Muitas pessoas praticam a automedicação em função das respostas obtidas. Outras, que têm uma condição psíquica mais frágil, não suportam lidar com o diagnóstico recebido pelo computador e podem ter uma crise depressiva ao chegar à conclusão de que são portadoras de alguma doença”, alerta o Dr. Pereira Filho.

Há, ainda, um agravante, muitas vezes, o diagnóstico é feito a partir de informações errôneas e o sofrimento do paciente é em vão. Ao digitar a palavra “infarto”, por exemplo, aparecem aproximadamente 7,7 milhões de resultados em menos de um segundo. Dentro desse volume, há todo tipo de dados, da mais variada qualidade e precisão.

“As pessoas normalmente ficam mais atentas ao que encontram de ‘negativo’, aos efeitos colaterais e acabam ficando desesperadas, concluindo que podem ter uma doença grave”, conta a Dra. Camila, do Hospital Santa Paula.

Com o imenso volume de informações disponíveis a apenas um clique, também é comum que as pessoas fiquem confusas com o resultado da pesquisa e comecem a fazer exames ou procurar tratamentos desnecessários.

“Informações isoladas podem provocar pânico injustificado”, ressalta a Dra. Camila, lembrando que adotar um comportamento oposto a esse é igualmente grave. “Há quem acabe menosprezando seus sintomas e ignore uma doença importante, fazendo automedicação em casa ou tratamento alternativo, atrasando o diagnóstico e o tratamento correto da doença.”

Como lidar

A internet e a tecnologia são importantes ferramentas de apoio no cuidado ao paciente, quando bem utilizadas. Não cabe ao profissional de saúde tentar competir ou rejeitar a busca por informações on-line, porque o hábito é uma realidade consolidada, que traz benefícios, principalmente em um País em que o acesso à saúde é precário e desigual. A atitude ideal do profissional é aprender a lidar com essa nova realidade.

“O acesso à informação está mudando a relação com o paciente, que tem agora melhores condições de dialogar e questionar sobre sua saúde, tornando-se mais responsável pelos cuidados. Para acompanhar essa mudança, é preciso manter o estudo contínuo e atualizado. Estudo aliado à arte de ouvir o paciente, a uma boa anamnese e ao exame físico são ingredientes infalíveis para um bom relacionamento. Com o bom diálogo, quem vai preferir somente a pesquisa na internet, não é?”, indaga a Dra. Camila.

Outra atitude necessária é orientar o paciente a respeito dos perigos de interpretações erradas e falta de qualidade de muitas das informações disponíveis na internet.

“O profissional de saúde deve aconselhar que as pesquisas sejam feitas em sites de sociedades médicas oficiais, que têm dados elucidativos e informações mais precisas”, destaca o Dr. Pereira Filho. “Também é preciso aconselhar a jamais se automedicar, pois mesmo que o diagnóstico on-line esteja correto, o novo medicamento pode provocar alguma interação com outras drogas que o paciente já faz uso.”

Foto: Shutterstock

Polêmica nos fármacos

Edição 306 - 2018-05-01 Polêmica nos fármacos

Essa matéria faz parte da Edição 306 da Revista Guia da Farmácia.

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