fbpx

É possível vencer a depressão

Doença considerada o mal do século possui preconceitos e desinformação, o que desencoraja a busca por tratamento no Brasil

Infelizmente, o Brasil ocupa o primeiro lugar no ranking de indivíduos diagnosticados com depressão na América Latina, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). No mundo, estima-se que mais de 300 milhões de pessoas convivam com esse transtorno, com grande potencial de ser considerada a doença mais incapacitante do planeta até 2020.

Na opinião do psiquiatra, presidente da Associação Psiquiátrica da América Latina (APAL) e diretor e superintendente técnico da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), Dr. Antônio Geraldo da Silva, alguns fatores da atualidade contribuem diretamente para o desenvolvimento dos transtornos mentais, entre eles, exposição ao estresse causado pelo trânsito, tipo de relações de trabalho, uso excessivo de redes sociais e consumo de drogas.

Veja Mais

Embora a tristeza seja o sintoma mais conhecido e relacionado com a depressão, a confirmação do diagnóstico vai muito além de se sentir apenas triste. Segundo o psiquiatra, a doença pode vir acompanhada de alterações no sono e apetite, irritabilidade, fadiga, falta de concentração e isolamento social.

Fatores de risco para o desenvolvimento da depressão

  • Histórico familiar.
  • Transtornos psiquiátricos correlatos.
  • Estresse crônico.
  • Ansiedade crônica.
  • Disfunções hormonais.
  • Excesso de peso.
  • Sedentarismo e dieta desregrada.
  • Vícios (cigarro, álcool e drogas ilícitas).
  • Uso excessivo de internet e redes sociais.
  • Traumas físicos ou psicológicos.
  • Pancadas na cabeça.
  • Problemas cardíacos.
  • Separação conjugal.
  • Enxaqueca crônica.

Fonte: Ministério da Saúde (MS)

“Além da observação dos sintomas, é preciso identificar o tipo de prejuízo que esse estado emocional está causando na rotina do indivíduo, assim como sua intensidade e duração, para então classificar o quadro como leve, moderado ou grave.”

Em geral, a doença mental altera diversos sistemas do organismo, causando sintomas muitas vezes incapacitantes, sem falar que “influencia diretamente na interação social, no desempenho profissional, nas relações afetivas, entre muitos outros aspectos”, alerta o médico da ABP.

Estima-se que a depressão acometa cerca de 6% dos brasileiros, o que corresponde a 11,5 milhões de pessoas, quase o total de habitantes de uma cidade do tamanho de São Paulo (SP). Os brasileiros também são recordistas mundiais em relação aos transtornos de ansiedade, com 9,3% vítimas da doença.

Embora exista um componente genético relacionado à depressão, este não é o fator determinante para o desenvolvimento da doença. De acordo com o Dr. Silva, o transtorno mental só aparece se houver o que chamamos de “gatilho”, que tem cunho ambiental. “Se o indivíduo possui a predisposição genética, mas não passa por situações que podem desencadear a doença, ele pode nunca manifestar o quadro.”

Entre os fatores mais comuns que podem desencadear a depressão, estão disfunções físicas, traumas, estresse, perdas, uso de álcool e drogas, entre outros. Em um mundo cheio de cobranças e pressões nas áreas profissional, familiar e pessoal, é comum que a saúde mental seja diretamente afetada, por isso o médico acredita que o fortalecimento de laços sociais e afetivos possa auxiliar na prevenção do quadro.

“Para que os aspectos genéticos não encontrem terreno fértil no desenvolvimento da depressão, temos de tentar modificar os fatores ambientais que podem nos levar à doença. Assim funciona também para outros transtornos psiquiátricos.”

Preconceito e desinformação

“O diagnóstico precoce da depressão ainda é um desafio no Brasil. Além do estigma social associado aos transtornos mentais, o preconceito, a desinformação e a carência de profissionais capacitados para fazer o diagnóstico clínico são fatores que contribuem para o atraso no início do tratamento”, lamenta o Dr. Silva.

“É difícil tratar uma doença que, para muitos, não é um quadro patológico. Muitas pessoas ainda consideram a depressão como um estado passageiro de espírito, relacionado à falta de espiritualidade e religião, ao desânimo, à falta de coragem, entre outros aspectos que ouvimos todos os dias na mídia e, até mesmo, no consultório por parte de familiares e do próprio acometido.”

Sinais que podem levar ao suicídio

Cerca de 800 mil pessoas morrem por suicídio a cada ano, sendo esta a segunda principal causa de morte entre os jovens na faixa etária de 15 a 29 anos, aponta relatório da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS).

Na maioria das vezes, a pessoa que tem a intenção de se matar emite sinais, mas nem sempre eles são fáceis de serem identificados. De modo geral, há uma mudança brusca de comportamento, como isolamento, alterações de apetite e sono, aumento do uso de álcool e drogas, queda no rendimento escolar ou profissional, abordagem frequente ou romantização sobre a morte e falta de vontade de fazer atividades que antes lhe eram prazerosas, alerta o porta-voz do Centro de Valorização à Vida (CVV), Carlos Correia.

Embora várias causas possam levar ao suicídio, dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que, em 35,8% dos casos, a vítima apresentava quadro de transtornos de humor, que inclui depressão, à frente de uso de substâncias químicas (22,4%) e esquizofrenia (10,6%).

Apesar de as mulheres tentarem mais o suicídio (69%), são os homens que mais morrem (79%), ainda segundo a OMS. No Brasil, dados do Ministério da Saúde (MS) apontam que 31% do sexo feminino tenta tirar a própria vida e 21% dos homens morrem.

Segundo ele, a depressão é um processo patológico biológico e psíquico, complexo e com implicações químicas e hormonais no cérebro. Mesmo assim, mais de 50% dos brasileiros diagnosticados com a doença não a tratam, revelam dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

“E quando não tratada adequadamente, a depressão pode trazer sequelas importantes, levando a déficits cognitivos significativos ou até mesmo a tentativas de tirar a própria vida”, alerta o psiquiatra.

“Já é sabido que 96,8% dos casos de óbito por suicídio estavam relacionados à presença de algum transtorno psiquiátrico, frequentemente não tratado ou tratado de forma inadequada. Entre esse percentual, 35,8% estão relacionados aos transtornos de humor, em que está inserida a depressão.”

Vencendo o problema

O resgate da funcionalidade plena do paciente deve ser um dos focos no tratamento da depressão. Por isso, em muitos casos, é fundamental o uso de medicamentos. Embora existam terapias muito eficazes, menos da metade das vítimas da doença no mundo (em muitos países, menos de 10%) recebe esses tratamentos, segundo a OMS.

O médico da ABP garante que os quadros mais leves de depressão podem ser tratados somente com psicoterapia, “em que as linhas cognitivo comportamental e interpessoal apresentam significativos resultados”, avalia.

“Para os casos moderados a graves, é imprescindível lançar mão dos medicamentos, que são administrados em combinação com a psicoterapia. Já nos quadros graves, quando não há uma resposta satisfatória ao uso de medicamentos, o paciente pode ser submetido à eletroconvulsoterapia”, explica o psiquiatra.

“O procedimento é feito de forma ambulatorial em unidade hospitalar, sob anestesia geral, com a presença de equipe multidisciplinar e o paciente pode ter alta no mesmo dia, sem prejuízo das faculdades mentais. Ele pode ser realizado até mesmo em gestantes de forma segura e eficaz.”

Segundo ele, não é correto falar em cura da depressão e nem de qualquer tipo de doença psiquiátrica. Com o tratamento correto, há remissão dos sintomas, ou seja, o paciente passa a não apresentar crises, retomando as atividades laborais, sociais e afetivas.

“A depressão precisa de tratamento até que o indivíduo retome a sua qualidade de vida. Mesmo após o desaparecimento por completo dos sintomas, mantemos o tratamento psicoterápico e medicamentoso de um a três anos após a remissão dos sintomas.”

Foto: Shutterstock

Hilab está permitido

Edição 321 - 2019-08-08 Hilab está permitido

Essa matéria faz parte da Edição 321 da Revista Guia da Farmácia.

Sobre o colunista

Guia da Farmácia

Premiado pela Anatec na categoria de mídia segmentada do ano, o Guia da Farmácia é hoje a publicação mais conhecida e lembrada pelos profissionais do varejo farmacêutico. Seu conteúdo diferenciado traz informações sobre os principais assuntos, produtos, empresas, tendências e eventos que permeiam o setor, além de Suplementos Especiais temáticos e da Lista de Preços mais completa do mercado.