Hipertensão arterial: assintomática e perigosa

A hipertensão arterial é uma doença silenciosa e que já atinge 30% da população brasileira. Sem hora certa para chegar, ela é o principal fator de risco para doenças que podem matar

No Brasil, quando o assunto é hipertensão arterial, os números não são animadores, pelo contrário, preocupam. Dados da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) revelam que 47,5 milhões de brasileiros são hipertensos e que, deste total, apenas 19,6% estão com os valores pressóricos controlados.

A SBC aponta ainda que a hipertensão mal controlada ou sem diagnóstico reduz em média 16,5 anos na expectativa de vida do portador da doença e alerta para o fato de que 35,5 milhões de brasileiros a têm, mas não se cuidam. Nos Estados Unidos, o quadro é bem diferente, sendo que 53% dos hipertensos têm a pressão controlada. Já no Canadá, o índice chega a 68%.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a cada ano, a hipertensão causa 7,6 milhões de óbitos de pessoas em todo o mundo, cerca de 80% em países em desenvolvimento como o Brasil, mais da metade na faixa de 45 a 69 anos de idade.

A hipertensão é um dos principais fatores de risco para o desenvolvimento das doenças cardiovasculares que são as principais causas de morte no Brasil, contabilizando 350 mil óbitos, todos os anos. Ela ainda é o gatilho responsável por 57,5 mil mortes anuais em decorrência dos infartos e 63 mil óbitos anuais por Acidente Vascular Cerebral (AVC), segundo a SBC.

A doença

Popularmente conhecida como pressão alta, a hipertensão é uma doença democrática, ou seja, não “escolhe” raça, cor nem idade para se manifestar. Ela atinge 30% da população adulta brasileira, chegando a mais de 50% na terceira idade e está presente em 5% das crianças e adolescentes no País.

A doença é multifatorial, e para o cardiologista da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (SOCESP), Dr. Rogério Krakauer, a maioria dos hipertensos tem origem na genética familiar, mas conhecidos fatores de risco são responsáveis também pela precocidade ou intensidade, como a obesidade, o excesso no consumo de sal, sedentarismo, tabagismo, alcoolismo e avanço da idade.

“Esses fatores de risco agem na vasoconstricção e/ou retenção de sódio, além da aterosclerose vascular”, explica. Já o fator hereditário, segundo o Dr. Krakauer, aumenta em 30% a chance do indivíduo herdar a doença dos pais. “Assim, quando houver casos na família, os cuidados preventivos devem ser ainda mais enfatizados”, ressalta.

Para entender o que é a hipertensão, a Sociedade Brasileira de Hipertensão (SBH) explica que, normalmente, o sangue bombeado pelo coração, para irrigar os órgãos ou movimentar-se, exerce uma força contra a parede das artérias. Quando a força que esse sangue precisa fazer está aumentada, isto é, as artérias oferecem resistência para a passagem do sangue, há hipertensão arterial.

Atuação dos anti-hipertensivos no organismo

Os anti-hipertensivos, quando administrados isolados ou em associações, reduzem a Pressão Arterial (PA), apresentando ação hipotensora. A atuação desses fármacos ocorre por seus efeitos sob a resistência periférica e/ou débito cardíaco, ou seja, há aqueles que inibem a contrabilidade (força extrema do músculo) do miocárdio ou reduzem a pressão do ventrículo do coração.

O mecanismo de ação desses medicamentos irá depender da classe à qual pertencem. Vejam os principais:

• Diuréticos: aumentam o volume e o grau do fluxo da urina.

• Bloqueadores beta adrenérgicos: antagonizam os receptores beta da noradrenalina.

• Bloqueadores do canal de cálcio: 

são capazes de reduzir a excitabilidade cardíaca e também a frequência, promovendo o relaxamento da musculatura lisa arterial e redução da resistência vascular periférica.

• Vasodilatadores: produzem vasodilatação e reduzem a resistência periférica.

• Inibidores da enzima conversora da angiotensina II: atuam bloqueando a produção de angiotensina II que é um vasoconstritor.

Fonte: farmacêutica responsável pela Farmácia Universitária da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (USP), Maria Aparecida Nicoletti

Ainda de acordo com a SBH, considera-se como um valor ótimo de Pressão Arterial (PA): <120 x 80 mmHg (12 por 8); valor normal de PA: < 130/85 mmHg; e valor ideal de PA para pessoas com risco de diabetes e doença renal: <130 x 80 mmHg; sendo que o valor máximo diz respeito à pressão máxima ou sistólica (quando o coração se contrai) e o menor, à pressão mínima, ou diastólica (quando o coração se dilata).

“O indivíduo é caracterizado como hipertenso quando, excluídos outros fatores agregados que possam levar ao quadro, a pressão fica acima de 140/90 mmHg, ou 14 x 9, repetidamente”, comenta o Dr. Krakauer.

Segundo ele, na maioria dos pacientes, a doença é assintomática, mas alguns podem eventualmente queixar-se de cefaleia, tontura, cansaço fácil a esforços, alterações visuais e outros sintomas inespecíficos. O médico explica que mais da metade dos casos é diagnosticada somente a partir de 55 anos de idade.

“Essa disfunção acomete, principalmente, homens a partir dos 40 anos de idade. As mulheres costumam apresentar mais incidência na menopausa, quando perdem a proteção do hormônio estrógeno”, diz.

O fato de acometer muitas pessoas sem que as mesmas se deem conta disto torna a hipertensão tão perigosa e capaz de expor os indivíduos a doenças graves e fatais como o infarto de miocárdio e o AVC, também conhecido como derrame.

“Ao longo da vida, a hipertensão pode afetar todos os vasos sanguíneos do corpo, principalmente os do cérebro, dos rins, do coração, dos olhos, dos vasos da perna e aorta, acarretando lesões nos chamados órgãos-alvo com sinais e sintomas próprios, como a perda da visão, insuficiência renal, insuficiência cardíaca, aneurisma da aorta, entre outros”, explica o Dr. Krakauer. Ele ainda afirma que o controle da PA reduz em 42% o risco de derrame e em 15%, o de infarto.

Prevenção e tratamento

A hipertensão não tem cura e, portanto, seu tratamento acompanhará o indivíduo pela vida toda. A mudança de hábitos diários é tão importante para o hipertenso quanto o tratamento medicamentoso. Aliás, a adoção de uma vida saudável, com controle do peso corporal, prática regular de exercício físico, abandono do cigarro, consumo moderado de álcool e sal, por exemplo, contribui de forma preventiva para afastar o risco tanto da hipertensão como de outras doenças cardiovasculares e da obesidade.

Para o Dr. Krakauer, essas ações atenuam, inclusive, os riscos hereditários para a hipertensão. “Também é importante realizar a aferição da PA tanto de pacientes como de seus familiares. Além disso, quem tem sintomas ou fatores de risco deve procurar um médico”, comenta o cardiologista.

Ainda segundo ele, o tratamento não medicamentoso é indicado para todos os indivíduos, já os medicamentos são receitados de forma criteriosa, incluindo história, exame físico, sintomas, risco cardiovascular global do paciente e nível de PA encontrado em medida casual, Monitorização Ambulatorial da Pressão Arterial (MAPA) ou Medida Residencial da Pressão Arterial (MRPA).

Entre as classes de medicamentos utilizados para o tratamento da hipertensão, estão os betabloqueadores, assim como diuréticos, inibidores da enzima de conversão, antagonistas, entre outros.

Adesão que salva 

A adesão ao tratamento de doenças crônicas é um tema sempre em pauta no Brasil e com a hipertensão não é diferente. Segundo a SBH, apenas 23% dos hipertensos controlam corretamente a doença, sendo que 36% não fazem controle algum e 41% abandonam o tratamento, após melhora inicial da PA. 

O presidente da SBC, Dr. Marcus Bolívar Malachias, comenta que 80,4% dos hipertensos negligenciam a doença no País, não tomam regularmente o medicamento prescrito e, consequentemente, não controlam seus níveis pressóricos. Os dados fazem parte da compilação de 14 estudos populacionais feitos nos últimos 15 anos.

“O índice de quem não se trata pode ser ainda maior, já que os estudos analisados são bastante heterogêneos e com baixa abrangência em áreas rurais, onde existe menor cobertura do Programa de Saúde da Família”, explica o Dr. Malachias.

Aceitar a doença é o primeiro passo para o sucesso do tratamento e sua consequente adesão. Porém, para a farmacêutica responsável pela Farmácia Universitária da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (USP), Maria Aparecida Nicoletti, isso nem sempre é fácil. 

“Na maioria das vezes, há rejeição da informação, fato que prejudicará o seguimento da terapia medicamentosa”, comenta. Segundo ela, é necessário que o profissional da saúde explique detalhadamente as características da doença em questão, principalmente, em relação aos benefícios da qualidade de vida que o indivíduo terá se aderir ao tratamento quer seja medicamentoso ou não.

“Quando o paciente sabe o que está acontecendo, sua responsabilidade em relação à saúde e que ele tem mecanismos de controle que proporcionam qualidade de vida, muito provavelmente, ele vai colaborar”, acrescenta.

Para ela, o contato direto do farmacêutico com o usuário de medicamento torna a atuação deste profissional de abrangência única no preenchimento das lacunas de falta de informação do indivíduo. “Essa atuação precisa ser cada vez mais intensificada na dispensação de medicamentos para que a educação em saúde seja uma prática disponibilizada como rotina nas farmácias/drogarias e, desta maneira, possa contribuir para o entendimento da população quanto ao uso racional de medicamentos”, reforça. 

Foto: Shutterstock

Brasileiro deixa a desejar

Edição 297 - 2017-08-01 Brasileiro deixa a desejar

Essa matéria faz parte da Edição 297 da Revista Guia da Farmácia.

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