Microbiota para o bom funcionamento do intestino

Estudos garantem que a importância do aparelho gastrointestinal ultrapassa a boa digestão dos alimentos

Flora intestinal ou microbiota intestinal, refere-se aos milhões de microrganismos, como vírus, fungos e bactérias, que habitam o trato gastrointestinal.

“Entre suas muitas e importantíssimas funções atreladas ao bom funcionamento do organismo, como participar da produção de enzimas, vitaminas e componentes necessários para a renovação celular, assim como regular a absorção de nutrientes e minerais, a microbiota também atua no controle da proliferação das bactérias patogênicas, no fortalecimento do sistema imunológico e na produção de aproximadamente 90% de toda a serotonina do corpo, responsável pelo humor”, explica a nutróloga e diretora do Departamento de Transtornos Alimentares da Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN), Dra. Maria del Rosário Zariategui de Alonso.

“A Ciência aponta que a qualidade de vida está atrelada a uma boa saúde intestinal. Estudos recentes mostram que determinados perfis bacterianos no intestino se relacionam com desordens psíquicas e psiquiátricas, no que se refere desde a influência no cérebro até a proteção cardiovascular.”

Para se ter uma ideia mais clara da relevância da microbiota no corpo humano, desde 2008, ela passou a ser considerada como um segundo cérebro. De acordo com a médica, renomados pesquisadores de 80 centros nos Estados Unidos se reuniram para mapear toda a diversidade microbial do organismo em um projeto que ganhou o nome de Microbioma Humano.

“Os resultados apontaram que a microbiota intestinal humana é constituída por dezenas de trilhões de bactérias, valor que representa dez vezes mais do que as células presentes no corpo humano e inclui até duas mil espécies.”

Formação da microbiota

A flora intestinal começa a se formar logo após o nascimento do bebê, sendo a mãe a primeira fonte de microrganismos dos recém-nascidos. Na explicação da nutróloga da ABRAN, o perfil metabólico é influenciado por múltiplos fatores, sendo que alguns estudos sugerem que a colonização das bactérias pode começar até mesmo antes do parto, ou seja, ainda no útero materno.

“Sabemos que os bebês que nascem via parto normal entram em contato com as bactérias mais rápido do que aqueles que nascem via cesárea. Isso porque, no parto normal, o bebê se infecta com as bactérias presentes na vagina e no aparelho urinário da mãe.”

De forma geral, o padrão da microbiota é estabelecido até os dois anos de idade, sendo que ao longo do tempo, ele pode ser impactado por outros fatores.

“A flora intestinal é regulada por fatores genéticos e ambientais, por isso alguns indivíduos apresentam tendência maior à obesidade do que outros, por exemplo. Sendo assim, a literatura médica sugere que fatores genéticos apresentam impacto reduzido nesse contexto do intestino.”

Hábitos que alteram a composição da flora

Os hábitos alimentares são um dos pontos cruciais ligados à preservação da microbiota. Assim, é fundamental ficar de olhos bem abertos na hora de escolher os alimentos colocados no prato, ensina a nutricionista da Rede de Hospitais São Camilo de São Paulo, Marisa Resende Coutinho.

“O consumo exagerado de alimentos processados, industrializados, embutidos e alergênicos, assim como a ingestão elevada de carboidratos simples, gorduras saturadas, sal e açúcar alteram de forma significativa a quantidade de microrganismos e a composição da flora intestinal.”

A Dra. Maria del Rosário ressalta que com esse desequilíbrio, as funções, que até então eram conduzidas harmonicamente, passam a ser comandadas por reações desreguladas que podem estar ligadas a quadros inflamatórios, como colite ulcerativa e até doença de Crohn. “A dieta tipicamente ocidentalizada, caracterizada pelo consumo excessivo de açúcares refinados e pobre em fibras, tem sido uma das possíveis explicações para o aumento da incidência de doenças inflamatórias intestinais.”

A médica acrescenta que outros fatores, como fumo, estresse, depressão, uso excessivo de antibióticos e até mudanças na localização geográfica podem causar a diminuição do número de bactérias boas no intestino e o aumento das bactérias patogênicas, aquelas capazes de provocar doenças.

“Esse desequilíbrio da flora bacteriana intestinal é chamado de disbiose e reduz a capacidade de absorção dos nutrientes, causando carência de vitaminas e quadros inflamatórios.” Entre os sintomas da disbiose, a médica cita náuseas, arrotos, distensão abdominal, gases, períodos alternados de diarreia e prisão de ventre.

Fique atento ao cardápio alimentar

A nutricionista da Rede de Hospitais São Camilo orienta que para combater a disbiose, é essencial manter uma dieta saudável, que priorize verduras, legumes, frutas, alimentos integrais e gorduras saudáveis, evitando alimentos processados, embutidos e enlatados.

“O uso de alimentos funcionais, como os prebióticos e probióticos, estimula o crescimento das bactérias benéficas ao intestino e inibe a proliferação das bactérias patogênicas, auxiliando inclusive no fortalecimento da imunidade.”

Na explicação da especialista, os probióticos são microrganismos vivos que, quando ingeridos em quantidades adequadas, conferem um benefício à saúde do indivíduo e contribuem para o bom funcionamento do intestino.

“Hoje em dia, há inúmeros produtos, como iogurtes e leites fermentados, com adição de probióticos representados, principalmente, pelos lactobacilos e bifidobactérias. Além disso, ainda podemos contar com o uso de suplementos à base dessas bactérias do bem para modular a microbiota intestinal”, diz a Dra. Maria del Rosário. Ela acrescenta que quando a disbiose não é tratada, as bactérias ruins podem migrar para o sangue, podendo causar uma infecção em todo o organismo.

“O tratamento nutrológico adequado junto com a reeducação alimentar orientada por um nutrólogo ou nutricionista exercem papel fundamental para curar esse desequilíbrio. Vale lembrar que manter uma flora intestinal saudável é fundamental na prevenção de doenças.”

Foto: Shutterstock

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O que está por vir?

Edição 322 - 2019-09-09 O que está por vir?

Essa matéria faz parte da Edição 322 da Revista Guia da Farmácia.