10 mitos e verdades sobre o uso de antidepressivos

Perda de produtividade, choros imotivados, excesso de emoção negativa e isolamento social são sinais que podem ser observados por familiares e amigos e servem de alerta para buscar ajuda profissional

Para ampliar o diálogo sobre essa temática, o psiquiatra diretor técnico do Hospital do Arsenal do Rio de Janeiro e professor da pós-graduação em Psiquiatria na Pontifício Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), Dr. Roberto Miotto, estimula esse debate listando e esclarecendo os dez principais mitos associados ao tratamento com antidepressivos.

1. Depressão é uma herança genética?

Verdade. Existe, sim, um componente genético já bastante conhecido no meio médico relacionado à depressão, embora este não seja um fator determinante para o desenvolvimento da doença. “Costumo dizer que genética não é destino. Percebemos que alguns indivíduos com alto grau de depressão incidente na família evoluem de forma melhor quando começam a ser tratados desde cedo”, afirma.

2. Antidepressivos causam dependência?

Mito. De acordo com o psiquiatra, não existem evidências de que os antidepressivos causem dependência. Por outro lado, como a depressão é uma doença crônica, o tratamento farmacológico é, muitas vezes, mantido por toda a vida. “Na maioria dos casos, o uso dos antidepressivos será necessário durante a vida toda, assim como se dá com o diabetes, a hipertensão ou qualquer outra doença crônica. A diferença é que não existe um estigma associado ao uso contínuo de uma medicação para hipertensão arterial, por exemplo”, esclarece o Dr. Miotto. “Só sairemos desse julgamento preconceituoso relacionado à depressão com informação e educação da nossa sociedade”, completa.

3. Antidepressivos podem afetar o ciclo menstrual?

Parcialmente verdade. Durante o ciclo menstrual, os níveis de hormônios como estrógeno e progesterona, por exemplo, mudam constantemente. “Esse fato parece exercer um poderoso efeito sobre os estados de humor das mulheres. Assim, considerando também a terapêutica antidepressiva, algumas vezes, pode-se ter alterações na prolactina, o que pode levar a mudanças no ciclo menstrual, atrasando e até bloqueando a ovulação”, esclarece o Dr. Miotto. De qualquer forma, de acordo com o psiquiatra, apenas algumas classes de antidepressivos podem interferir na produção hormonal e no ciclo menstrual.  Por isso, é importante que a mulher discuta o assunto com seu médico e, em casos de risco, é recomendável utilizar mais de um método anticoncepcional.

4. O uso de antidepressivos é relacionado à sonolência e à letargia, o que poderia interferir na concentração e no trabalho. Isso é verdade?

Mito. De acordo com o médico, é comum que o paciente relate esses efeitos apenas no início do tratamento, até que o organismo se adapte à medicação. “Após esse período, essa sintomatologia não é admissível, uma vez que se busca o efeito contrário no tratamento, que é a funcionalidade plena do paciente”, afirma o psiquiatra.

5. Antidepressivos causam ganho de peso?

Parcialmente verdade. Existem, hoje, no mercado três gerações de antidepressivos. Os mais antigos estão, de fato, mais associados ao ganho de peso, entre outros efeitos, mas nem por isto são menos eficazes. Já os mais modernos, que apresentam ação dual, como a desvenlafaxina, possuem um perfil metabólico diferente, sem impactos significativos sobre o peso. São medicamentos que conseguem equilibrar a disponibilidade de dois neurotransmissores importantes e diretamente relacionados aos quadros depressivos: a noradrenalina e a serotonina. Contudo, essa escolha depende do perfil de cada paciente. “Se temos um paciente anoréxico, por exemplo, ele pode se beneficiar, mesmo que por um curto período de tempo, de um antidepressivo mais antigo, associado ao ganho de peso”, pondera o Dr. Miotto. “Não deixamos de prescrever os antidepressivos mais antigos. Muitas vezes, a associação com os medicamentos mais modernos é uma combinação benéfica”, completa.

6. Muitas pessoas deixam de procurar tratamento por sentirem vergonha e acabam escondendo a doença o quanto podem de amigos e até mesmo de seus familiares.

Verdade. O Dr. Miotto observa que a depressão ainda é, muitas vezes, percebida como um sinal de fraqueza pela sociedade, especialmente entre os homens. “A vergonha e os aspectos sociais e educacionais fazem com que os pacientes tardem muito na busca por ajuda, especialmente o público masculino”, esclarece o médico, ressaltando que as taxas de suicídio são mais elevadas justamente entre os homens, embora a depressão seja mais frequente entre as mulheres.

7. Antidepressivos estão associados à perda da libido?

Parcialmente verdade. Vale ressaltar que a própria depressão pode levar ao desinteresse pelo sexo. Contudo, em relação à medicação, é importante compreender que os antidepressivos atuam de forma diferente em cada um dos pacientes. De qualquer forma, os medicamentos de ação dual, já citados, não costumam exercer impacto significativo sobre o desejo sexual, ao contrário de alguns antidepressivos mais antigos. “Cabe, então, a avaliação diagnóstica criteriosa por parte do médico, que saberá delimitar o perfil de cada paciente e ajustar o antidepressivo adequado, de modo a minimizar os efeitos indesejados”, destaca o Dr. Miotto.

8. O diagnóstico é uma das principais dificuldades no tratamento adequado da depressão?

Verdade. De fato, o diagnóstico precoce ainda é um desafio no Brasil. “É o médico, por meio de uma análise precisa e criteriosa, que poderá diferenciar uma tristeza, como um período de luto, de um quadro com componentes orgânicos, cerebrais e comportamentais, que traz prejuízos funcionais prolongados”, explica. Vale destacar que a depressão, quando não tratada adequadamente, pode trazer sequelas importantes, como a diminuição do número de células nervosas e, com o passar do tempo, do volume de algumas regiões cerebrais de modo irreversível, levando a déficits cognitivos significativos, ou até mesmo, a tentativas de tirar a própria vida.

9. É verdade que antidepressivos podem ser ingeridos juntamente com outros medicamentos sem prejudicar o mecanismo de ação deles?

Parcialmente verdade. O perfil de interação medicamentosa é variável entre as diferentes classes de antidepressivos. Em geral, na comparação com indivíduos saudáveis, os pacientes com quadros depressivos apresentam maior probabilidade de interações medicamentosas, uma vez que os antidepressivos costumam ser prescritos por um longo período de tempo, muitas vezes por anos¹. A literatura médica descreve interações medicamentosas de significativa importância entre algumas classes de antidepressivos e outros medicamentos comumente utilizados por idosos, como analgésicos, anestésicos, anticoagulantes, anticonvulsivantes e anti-hipertensivos². Por isso, é importante discutir com o médico qual a medicação mais indicada para cada caso, considerando que há opções no mercado mais compatíveis com o uso concomitante de outras medicações. “Os antidepressivos mais novos apresentam melhor interação medicamentosa e mecanismos metabólicos diferenciados, que permitem o tratamento com vários outros medicamentos associados”, destaca o Dr. Miotto.

10. Os antidepressivos mais modernos, que apresentam menos efeitos colaterais, também são menos eficazes?

Mito. A evolução no entendimento da depressão e o conhecimento cada vez mais aprofundado dos fatores relacionados à doença têm possibilitado o desenvolvimento de tratamentos cada vez mais modernos, eficazes e seguros, como os antidepressivos de terceira geração. Com ação dual, esses medicamentos conseguem equilibrar a disponibilidade de dois neurotransmissores importantes e diretamente relacionados aos quadros depressivos: a noradrenalina e a serotonina. “Na verdade, com essa nova classe de antidepressivos, conseguimos mais sucesso terapêutico, até mesmo com alguns pacientes que não reagiam às medicações já existentes até então. Foi uma grande evolução”, afirma o médico.

Tristeza profunda, pensamentos negativos, baixa autoestima, culpa, estresse e alterações no sono são sinais de uma doença silenciosa, a depressão.

Referências:
1. ERESHEFSKY, L. Drug-drug interactions with the use of psychotropic medications. Question & Answer Forum, v. 14(8), p. 1-8, 2009.
2. Ciraulo DA, Shader RI, Greenblatt DJ, Creelman W. Drug interactions in psychiatry. 2nd ed. Baltimore (Maryland): Williams & Wilkins; 1995.

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Edição 299 - 2017-10-23 Passagem obrigatória

Essa matéria faz parte da Edição 299 da Revista Guia da Farmácia.

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