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Não há resultados sem esforço, nem crescimento sem aumento da renda

Por Claudio Felisoni de Ângelo 6 de abril de 2018 Nenhum comentário 4 Minutos de leitura
economia

Em momentos de instabilidade econômica, a palavra poupar permeia o vocabulário de pessoas das mais diversas esferas da sociedade. Mas qual o real significado? Do ponto de vista macroeconômico, para os economistas clássicos, é o nível de renda da economia que define o volume de poupança e financia os investimentos subsequentes.

De forma mais simplista, pode-se dizer que parte da renda é consumo e parte é poupança. A primeira gera a segunda, que se traduz em aumento da capacidade produtiva, expressa na elevação dos investimentos.

No entanto, para o economista britânico, John Maynard Keynes, ocorre exatamente o contrário: é o investimento que gera a renda. É a partir da sua realização, pelo efeito propulsor gerado, que se obtém a poupança adicional de sustentação do crescimento.

Embora o cenário político interno ainda esteja sendo impactado por fatos que mantêm a sua volatilidade, é evidente que este ambiente mudou substancialmente. Inclusive no que diz respeito às possibilidades de retomada do crescimento do consumo.

O consumo, por sua vez, depende da renda: é ela que determina o consumo e não o contrário. Ela, entretanto, só cresce de modo sustentável se os investimentos também crescerem.

Aqui, os 10% mais ricos concentram, nada menos, do que 43% do consumo. Já os 10% mais pobres não detêm nem 1% do consumo. Nos Estados Unidos, os 10% mais ricos têm 30% do consumo e os 10% mais pobres, 2%.

De 2015 para 2016, a renda das pessoas com ocupação caiu, aproximadamente, 7%. Também nesse mesmo período, a população empregada nas regiões metropolitanas declinou. Comparando-se o terceiro trimestre de 2014 com o mesmo período de 2016, a perda do poder aquisitivo, o desemprego e a insegurança na manutenção dos postos de trabalho contribuíram na redução de 11% para 5% do percentual referente à disponibilidade das famílias para novas compras.

De outro lado, o das condições de oferta, a capacidade competitiva da economia brasileira, já bastante fragilizada, deteriorou-se ainda mais nos últimos anos. De fato, tomando-se uma lista composta pelos 61 países mais competitivos, o Brasil passou da 56ª para a 57ª posição (2016). Tal resultado é decorrente da queda e ineficiência dos investimentos públicos e suas consequências sobre o ânimo do empreendedorismo privado.

Depois de vivenciar um crescimento moderado e impulsionado por grandes ajustes econômicos na década de 90, o Brasil passou por uma fase mais robusta no início dos anos 2000. Contudo, a partir de 2010, eis que a economia voltou a enfraquecer e, consequentemente, recuar.

Dadas essas condições, o reaquecimento das vendas no âmbito interno acontecerá, mas, para que isso ocorra verdadeiramente, há de se destacar a necessidade de promover as devidas readequações capazes de tornar o mercado mais competitivo.

Por essa razão, a retomada do consumo será muito lenta. Entretanto, é preciso salientar que o potencial para sua expansão é grande. Observe-se, por exemplo, o que acontece com a concentração de renda no Brasil, quando comparada a alguns países.

Aqui, os 10% mais ricos concentram, nada menos, do que 43% do consumo. Já os 10% mais pobres não detêm nem 1% do consumo. Nos Estados Unidos, os 10% mais ricos têm 30% do consumo e os 10% mais pobres, 2%.

Quando observamos o conjunto dos países que compõem a União Europeia, esses percentuais também apontam na mesma direção: os 10% mais ricos absorvem menos de 25% do consumo, enquanto os 10% mais pobres alcançam 3%.

Até alguns países da América Latina apresentam números substancialmente melhores do que os registrados no nosso País. Na Argentina, por exemplo, os 10% mais ricos detêm pouco mais de 30% do consumo e os 10% mais pobres ficam com 1,5%. No México, por sua vez, os 10% mais ricos são aquinhoados com 37,5% do consumo, restando 2% dos valores totais da rubrica consumo para os menos abastados.

Naturalmente, nas classes de renda menos favorecidas, o crescimento do consumo, dada uma expansão da renda, é mais elevado do que nas faixas de maior poder aquisitivo. Dessa maneira, percebe-se que os movimentos redutores da desigualdade produzem impulsos significativos nos estímulos para o consumo.

Em resumo, para que o consumo possa crescer, é preciso que a renda se eleve. Essa expansão, entretanto, só ocorre em bases sólidas se capitaneada pelos investimentos. Tomando essa direção, abre-se espaço para uma evolução intensa do consumo sustentada não apenas pelos acréscimos de renda, mas, também, pelos movimentos orientados à melhora da distribuição de renda. Enfim, não há crescimento efetivo sem investimentos. Não há resultado sem esforço.

Foto: Shutterstock

Claudio Felisoni de Ângelo

Presidente do Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo e Mercado de Consumo (Ibevar) e professor da Universidade de São Paulo (USP)

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