
No universo dos contos infantis, bastava o Atchim, um dos sete anões de Branca de Neve, aparecer para que o espirro virasse quase uma marca registrada. Fora das histórias, porém, espirros em sequência, nariz entupido, coceira nos olhos e irritações na pele contam uma narrativa bem menos divertida e, claro, cada vez mais comum no balcão da farmácia.
Quando o clima muda de repente, o ar fica seco, a umidade favorece mofo e ácaros ou os insetos circulam mais, o organismo de pessoas predispostas pode reagir como um alarme sensível demais: dispara diante de estímulos que, para outros, passariam quase despercebidos.
Na primavera, o cenário tem mais um agravante. A alta concentração de pólen no ar, liberado pelas flores e árvores, pode ser outro fator de risco entre as pessoas suscetíveis.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), as mudanças climáticas estão entre os grandes desafios de saúde pública, por influenciarem eventos extremos, qualidade do ar, circulação de vetores e riscos respiratórios.
Na prática, na farmácia, essa realidade se reflete em maior procura por Medicamentos Isentos de Prescrição (MIPs); soluções salinas; produtos para irritações leves; antialérgicos; descongestionantes; e orientações sobre quando o quadro ainda é simples ou quando deixou de ser.
O CLIMA COMO GATILHO
O ar seco afeta diretamente uma das principais barreiras de defesa do corpo: as mucosas. Quando elas ressecam, o muco protetor perde eficiência e os cílios, pequenas estruturas responsáveis por ajudar a eliminar partículas, funcionam pior.
“Quando falamos sobre os efeitos diretos no indivíduo, podemos ressaltar a redução da umidade das vias aéreas, com ressecamento das mucosas e piora da função ciliar, que auxilia na movimentação e eliminação de partículas”, explica o médico clínico-geral do Hospital e Maternidade Santa Joana, Dr. Pedro Mendes.
Além disso, o clima seco favorece o acúmulo de poluentes e alérgenos no ambiente. E quando o tempo está mais frio, esse efeito se soma a casas mais fechadas e menos ventiladas.
E dentro de casa, a lista de gatilhos é conhecida: poeira; ácaros; mofo; pelos de animais; resíduos de baratas; fumaça de cigarro; tapetes; cortinas; colchões; e estofados. É como sacudir um cobertor guardado por meses: nem sempre o inimigo aparece, mas o nariz percebe.
“No inverno, permanecemos mais tempo em ambientes fechados, o que reduz a circulação de ar e aumenta a concentração de alérgenos intradomiciliares como poeira, mofo e pelos de animais”, ressalta a alergologista do Fleury, Dra. Fernanda Picchi. Ela lembra ainda que banhos quentes e prolongados ressecam a pele e podem piorar dermatites.
As condições mais afetadas incluem rinite, asma, dermatite atópica e urticária. “Todos os quadros respiratórios podem se agravar neste período, seja pela piora de quadros alérgicos, seja pela exacerbação da doença de base”, destaca o médico do Santa Joana.
TRIAGEM QUE FAZ DIFERENÇA
Na farmácia, o impacto aparece antes mesmo das estatísticas. “É muito perceptível pela busca de determinados medicamentos e orientações sobre sintomas relacionados às vias respiratórias”, relata a farmacêutica da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (USP), Maria Aparecida Nicoletti.
Segundo ela, aumentam as demandas por produtos para tosse; congestão nasal; coriza; dor de garganta; antigripais; xaropes; descongestionantes; pastilhas; soluções salinas; nebulizadores; umidificadores; e hidratação nasal.
A principal tarefa do atendimento é entender se o paciente apresenta um quadro alérgico, um resfriado, uma gripe ou outra infecção respiratória. Espirros, tosse e nariz entupido podem aparecer em todos esses casos. O que ajuda na diferenciação é o conjunto de sinais: febre; dor no corpo; mal-estar intenso; prostração; secreção espessa; piora progressiva; e falta de ar acendem o alerta.
“Nem sempre é fácil diferenciar essas condições clínicas. A história do paciente, exposição a fatores de risco e evolução clínica são fundamentais nessa diferenciação”, pontua o Dr. Mendes.
Já quadros alérgicos costumam se relacionar a gatilhos reconhecíveis, como poeira; mofo; pelos; fumaça; pólen de flores; ou mudanças de temperatura, e frequentemente cursam com coceira nasal, ocular, espirros em sequência e coriza clara.
A anamnese farmacêutica deve ser objetiva: quando os sintomas começaram; se houve febre; qual a intensidade do cansaço; se há dor no corpo; se a tosse é seca ou produtiva; se os olhos coçam ou lacrimejam; se houve contato com pessoas doentes; e se há histórico de asma, rinite ou sinusite.
“Ao relatar sintomas em quadros anteriores relacionados à sazonalidade, é possível verificar a repetição ou não da morbidade”, finaliza a farmacêutica da USP.
Fonte: Guia da Farmacia
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