Organismo preguiçoso

Fatores hormonais e emocionais característicos das mulheres podem provocar mau funcionamento do intestino

Quando o andamento natural do organismo é interrompido, o corpo logo responde. Dores, mal-estar, irritabilidade, distensão abdominal e alterações de sono podem se manifestar quando há um quadro de constipação.

A dificuldade de manter a regularidade do intestino é muito comum entre mulheres devido a problemas combinados, que envolvem questões físicas, hormonais, emocionais e até culturais.

Entre as causas fisiológicas, muitos processos do corpo feminino podem provocar constipação intestinal, como o ciclo menstrual, a lactação, a gestação e a menopausa.

“Os hormônios sexuais femininos influenciam o peristaltismo, ou seja, o movimento natural do intestino que empurra o alimento ao longo do tubo digestivo e, para algumas mulheres, ele pode ficar mais ‘preguiçoso’ nessas fases da vida”, explica a médica nutróloga, Dra. Cristiane Molon.

Cérebro é determinante

Fatores emocionais também afetam diretamente o sistema digestório, porque há uma conexão entre o Sistema Nervoso Central (SNC) e o entérico (localizado no intestino). O intestino tem cerca de 500 milhões de neurônios e aloja trilhões de bactérias, boa parte delas envolvida em processos importantes ao organismo.

“É uma quantidade de neurônios menor do que a do cérebro, mas é em número suficiente para formar um sistema nervoso próprio, responsável por coordenar a liberação de inúmeras substâncias digestivas e os movimentos que estimulam o bolo fecal a ir embora”, conta a Dra. Cristiane. “Por isso o intestino é chamado de segundo cérebro”, complementa.

Auxiliares no bom funcionamento do intestino

O paciente acometido pela constipação pode optar por complementar a alimentação diária com produtos que suplementam as fibras solúveis ou insolúveis.

“Elas podem ser consideradas reguladoras do intestino, pois uma dieta rica em fibras faz com que o intestino funcione melhor. Porém é preciso orientar que as fibras absorvem líquidos, então a ingestão de água é essencial, pois o consumo em excesso sem água o suficiente pode fazer o efeito contrário”, diz o gastroenterologista da Abbott, Dr. Ricardo Barbuti.

Dentro deste universo, há outros produtos que podem ajudar o paciente. De acordo com a gerente de produto da União Química, Flaviana Ferreira, os reguladores atuam através de diferentes mecanismos de ação, desde os que retêm maior quantidade de água no intestino, aumentando o bolo fecal, como a lactulose, até os que agem diretamente na parede do intestino e os que amolecem as fezes.

A função é sempre facilitar a evacuação. A lactulose, por exemplo, é uma molécula que não é absorvida, chamada de agente osmótico. Ou seja, ela retém a água no intestino, aumentando o bolo fecal e facilitando a evacuação.

“Os reguladores coordenam o movimento e fazem com que o corpo responda de maneira fisiológica à evacuação”, alerta o gastrocirurgião da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo, Dr. Bruno Zilberstein.

Exatamente por isso os reguladores precisam ser usados todos os dias, pois o produto não consegue resolver definitivamente a função intestinal. O órgão precisa receber o estímulo regulatório continuadamente.

“As fibras são o melhor mecanismo de estímulo laxante e de proteção porque elas funcionam como um ‘mata-borrão’ das substâncias nocivas. Elas se grudam às substâncias ruins e as carregam para fora, além de puxar a água para aumentar o volume do bolo fecal e, quando ele está maior, estimular a sua evacuação”, frisa o especialista.

Apesar de serem circuitos independentes, o cérebro e o intestino se “comunicam”. Os neurônios intestinais são responsáveis pela produção de 90% da serotonina – molécula relacionada ao bem-estar. Esse neurotransmissor é importante para o bom funcionamento do intestino, bem como exerce um efeito sistêmico.

A serotonina é só um dos mais de 30 mensageiros químicos produzidos no ventre. Essas substâncias são encarregadas de transmitir informações e estabelecer comunicação eficiente entre o intestino e o cérebro.

“Essa ‘conversa’ acontece diretamente por meio do nervo vago, estrutura que passa pelo tórax e liga o sistema gastrointestinal à cabeça. O nervo vago é uma via de mão dupla: assim como o abdômen manda mensagens para o cérebro, o inverso também ocorre”, descreve a Dra. Cristiane.

É devido a essa ponte de comunicação que, diante de uma situação de estresse, é comum ter a sensação de frio na barriga ou vontade de ir ao banheiro. Ansiedade, tristeza e depressão também podem afetar o movimento e as contrações do trato gastrointestinal, causando inflamação ou deixando o intestino mais suscetível à infecção.

Dietas e vergonha

Outra grande influência é a alimentação. Bebidas açucaradas, alimentos industrializados pobres em fibras e o consumo excessivo de café podem piorar o bom funcionamento do intestino. A ingestão de alimentos com farinha de trigo também pode ser prejudicial, porque provoca fermentação do intestino, dificultando as idas ao banheiro.

Por fim, a constipação pode ainda estar ligada a questões culturais. Muitas mulheres sentem vergonha de evacuar fora de casa, o que acaba provocando ou agravando os casos de constipação.

Soluções e tratamentos

Existem diversas medidas que podem ser tomadas para estimular o bom funcionamento do intestino. A prática regular de exercícios é uma delas, pois estimula o peristaltismo. A ingestão de água também é fundamental para evitar o ressecamento das fezes.

Possíveis origens da constipação intestinal

  • Emocional
  • Ansiedade;
  • Tristeza;
  • Depressão;
  • Mudanças na rotina;
  • Viagens;
  • Vontade de evacuar fora de casa;
  • Vergonha de evacuar na proximidade de outras pessoas.

Hormonal

  • Ciclo menstrual;
  • Lactação;
  • Gestação;
  • Menopausa.

Física

  • Sedentarismo;
  • Baixo consumo de fibras e água;
  • Intolerâncias alimentares;
  • Parasitose;
  • Doenças inflamatórias intestinais;
  • Hipotireoidismo.

Fontes: médica nutróloga, Dra. Cristiane Molon; e clínico geral e diretor da Clínica Ser Integral, Dr. Roberto Debski

“A alimentação deve ser rica em fibras solúveis e insolúveis, que estão presentes em frutas, legumes, verduras, grãos e hortaliças, e pobre em produtos refinados e industrializados”, afirma o clínico geral e diretor da Clínica Ser Integral, Dr. Roberto de Debski.

Quando o paciente tem alguma intolerância ou restrição alimentar que dificulte a ingestão diária recomendada de fibras, pode-se recorrer à suplementação. Geralmente, disponíveis em pós solúveis ou cápsulas, os produtos existentes no mercado são formulados com fibras prebióticas, que favorecem o crescimento das bactérias boas no intestino, promovendo o equilíbrio da flora intestinal e o funcionamento regular do intestino.

Outra medida importante é aprender a respeitar o intestino e não inibir o reflexo evacuatório.

Foto: Shutterstock

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Edição 316 - 2019-03-15 Você conhece o seu cliente?

Essa matéria faz parte da Edição 316 da Revista Guia da Farmácia.