
As Doenças Cardiovasculares (DCVs) são líderes de mortalidade, incluindo mortes prematuras entre homens e mulheres. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), 17,9 milhões de pessoas morreram devido à DCV em 2019, representando 31% do total de óbitos daquele ano. Mais de 75% dos óbitos por DCV ocorrem em países de baixa e média renda, enquanto 85% são causados por ataques cardíacos e Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC).
“Na América Latina, as doenças cardiovasculares representam 38% dos óbitos por doenças não transmissíveis, sendo a principal causa de mortalidade (1,6 milhão de óbitos por ano) na região. Mais especificamente, as doenças coronárias e o AVC foram responsáveis por 42,5% e 28,8%, respectivamente, da mortalidade por DCV na América Latina”, destaca a consultora sênior especialista em Life Science & Health Care da Delloite, Gabriela Valencia.
Embora mais comuns em pessoas com mais de 50 anos de idade, as doenças cardiovasculares podem acometer indivíduos de todas as faixas etárias. Entre os principais fatores que podem levar a doenças cardiovasculares estão o sedentarismo, o tabagismo, a obesidade, o colesterol alto, a diabetes, a hipertensão, a má alimentação e o histórico familiar.
“Nós brincamos falando que a DCV é democrática, porque ela acontece em qualquer pessoa e não poupa ninguém, sendo o Brasil um dos países com maior mortalidade com esta causa no mundo”, alerta o cardiologista diretor da Academic Research Organization (ARO) no Hospital Israelita Albert Einstein, Dr. Otávio Berwanger.
Ele explica que, entre as DCVs, a principal causa de morte no mundo, tanto em homens quanto em mulheres, é o Infarto Agudo do Miocárdio (IAM), também conhecido como ataque cardíaco. “Dos fatores de risco, o principal é o colesterol LDL elevado, sendo a principal causa de infarto. Comprovadamente, ao reduzir o colesterol LDL, você reduz o risco de infarto e o de morte por infarto”, adverte o cardiologista.
Entretanto, para pacientes de muito alto risco cardiovascular, adotar um estilo de vida saudável é necessário, mas não o suficiente, pois apenas 25% do LDL-c, que é o responsável pela formação e progressão da placa aterosclerótica, é proveniente da alimentação.
Impacto das doenças cardíacas
Os setores mais pobres da população são desproporcionalmente impactados pela doença devido ao acesso desigual aos cuidados de saúde no que diz respeito ao gerenciamento e tratamento dos fatores de risco das patologias cardíacas.
Segundo a consultoria Delloite, as barreiras na região da América Latina incluem:
• Baixo nível de conscientização da população e ausência de comunicação por parte dos médicos sobre a gravidade das DCVs não tratadas, bem como sobre os fatores de risco associados.
• Acesso não igualitário a tratamentos e cuidados eficazes após o diagnóstico de sintomas de risco de DCV.
• Inacessibilidade e inconveniência de exames médicos preventivos.
• Pesquisas e estudos limitados com foco no tratamento de mulheres com DCV, incluindo os impactos adversos na gravidez relacionados ao maior risco de DCV nas mães e em seus bebês.
Prejuízos à qualidade de vida
As DCVs também impactam diretamente na qualidade de vida dos pacientes. Uma pesquisa da Mended Hearts, feita com mais de 2 mil pacientes que sofrem com insuficiência cardíaca, mostrou que 68% deles afirmaram que a insuficiência cardíaca atrapalha suas vidas de alguma forma, sendo que 45% acreditam ter depressão; 63% experimentaram sintomas de ansiedade; e 36% deles já foram hospitalizados mais de cinco vezes por questões cardíacas.
“Minha opinião pessoal é que no Brasil o cuidado com a saúde é muito centralizado no médico e não deveria ser assim, porque nem todo mundo consegue ter acesso fácil ao médico. Acredito que outros profissionais de saúde, como o farmacêutico, e outros locais de atendimento, como as farmácias, possam funcionar como espaços de identificação do risco de DCVs para que a pessoa ao menos tenha ciência do problema e procure um médico, sendo a farmácia uma espécie de triagem”, defendeu o médico e professor titular da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), Dr. José Rocha Faria Neto, destacando que a aderência ao tratamento é dos maiores na hora do tratamento das DCVs. “Estima-se que menos da metade dos pacientes que tomam um medicamento para o controle do colesterol ainda estejam tomando e seguindo o tratamento após um ano”, complementa o médico.